Ivermectina: medicamento antiparasitário volta a gerar polêmica nos EUA; entenda
Remédio fazia parte do "kit covid", defendido por Bolsonaro e pelo Conselho Federal de Medicina – mesmo sem comprovação científica; relembre

Wagner Lauria Jr.
A ivermectina, medicamento tradicionalmente usado no combate a parasitas, voltou a ganhar destaque nos Estados Unidos, especialmente entre influenciadores conservadores e figuras políticas alinhadas à extrema-direita. O remédio também foi alvo de polêmica no Brasil, principalmente ao longo do período da pandemia de Covid-19 (relembre abaixo).
+ FALSO: Não há indicação de ivermectina no tratamento contra câncer e como medida pós-vacina
Um dos casos mais recentes da propagação do uso do fármaco tem como protagonista Joe Grinsteiner, um cantor country e apoiador de Donald Trump.
Grinsteiner, que vive no estado norte-americano de Michigan, tem compartilhado em suas redes sociais vídeos nos quais aparece tomando a versão veterinária da ivermectina. Ele afirma que o medicamento foi responsável por curar seu câncer de pele, bem como o câncer cervical de sua esposa.
Em outro momento, o artista contou a história de uma mãe que relatou melhorias no comportamento do filho autista após o uso da substância, incluindo o suposto desenvolvimento da fala.
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Não há eficácia comprovada
A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica afirma que "não há embasamento científico para essa associação". A entidade pontuou que atualmente "existem tratamentos eficazes e seguros para a maioria dos tipos de câncer" e destacou que a substituição de terapias comprovadas por alternativas sem evidência científica pode criar riscos para os pacientes.
A ivermectina é um medicamento recomendado para tratamento contra doenças provocadas por parasitas e vermes e também não é indicado para o tratamento de "lesões" supostamente causadas por vacinas contra a covid-19, ao contrário do que apontaram publicações falsas nas redes sociais no Brasil em agosto de 2024.
Além disso, não há evidência de que os imunizantes contra a covid-19 provocam este tipo de problema ao corpo humano, mas sim reações passageiras, como febre e inchaço local.
Flexibilização de venda em estados dos EUA
Embora não haja comprovação científica de que a substância seja eficaz no tratamento de doença, o aumento do interesse pela ivermectina tem levado alguns estados norte-americanos a flexibilizar restrições em relação à venda do medicamento.
Recentemente, a governadora do Arkansas, Sarah Huckabee Sanders, sancionou uma legislação que permite a comercialização da ivermectina sem a necessidade de prescrição médica. Outros estados, como Texas e Alabama, estão discutindo propostas semelhantes, baseando-se na argumentação de que os cidadãos deveriam ter liberdade para decidir sobre seus próprios tratamentos.
Por outro lado, a Food and Drug Administration (FDA), órgão responsável pela regulação de medicamentos nos Estados Unidos, continua a alertar contra o uso da ivermectina para tratar a Covid-19, reiterando que não existem evidências clínicas que comprovem sua eficácia.
A FDA também alertou sobre os riscos de consumir a versão veterinária do remédio, que pode causar efeitos adversos sérios, como confusão mental, convulsões e até mesmo coma.
Efeitos colaterais da ivermectina
A ivermectina, assim como todo medicamento, produz efeitos colaterais e não deve ser tomada indiscriminadamente, apontam especialistas. A bula da ivermectina cita dores, vômitos, reações na pele e dispneia (falta de ar) como algumas das reações adversas mais comuns.
Polêmica no Brasil
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) repetiu diversas vezes que a ivermectina fazia parte de um plano de "tratamento precoce" contra covid-19, junto com a hidroxicloroquina e cloroquina, mesmo sem comprovação científica: o chamado "kit covid". Até mesmo a farmacêutica responsável pelo medicamento disse que seu uso não era comprovado contra a doença.
Em outubro de 2021, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) do Sistema Único de Saúde (SUS) propôs a votação de um relatório que contraindicava o uso do "kit covid", mas o Conselho Federal de Medicina (CFM), em decisão controversa, deu um voto contrário.