Doação de órgão: escolha envolve processos, diz especialista
Psicóloga explica que autorização não é determinada apenas pelo momento da perda, mas por conversas e valores construídos ao longo da vida
Brazil Health
Decisão sobre doar órgãos envolve diversos processos | Reprodução
A confirmação da morte encefálica costuma ser acompanhada por uma sequência de acontecimentos difíceis para qualquer família. Além de lidar com a perda, os parentes precisam compreender informações médicas complexas e responder, em pouco tempo, se autorizam ou não a doação de órgãos.
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É comum imaginar que essa decisão seja tomada naquele instante, na verdade, ela costuma refletir uma história construída ao longo dos anos, marcada por valores familiares, experiências anteriores e, principalmente, pelo conhecimento da vontade da pessoa que morreu. Essa perspectiva ajuda a compreender a recusa familiar, um dos maiores desafios da doação de órgãos no Brasil.
Nem sempre ela representa uma posição contrária à doação, em muitos casos, revela a dificuldade de decidir sem saber qual era o desejo do potencial doador.
Essa realidade aparece com frequência no trabalho das Equipes Hospitalares de Doação para Transplantes (e-DOTs) e das Organizações de Procura de Órgãos (OPOs). Entre familiares, uma frase costuma se repetir: "Eu não sei o que ele gostaria."
Essa afirmação mostra expressa a insegurança de assumir uma decisão que, idealmente, deveria ter sido tomada pela própria pessoa em vida.
O luto e a capacidade de decisão
Do ponto de vista psicológico, a tomada de decisões durante o luto ocorre em condições muito diferentes das vividas no cotidiano.
A confirmação da morte encefálica provoca uma ruptura brusca na vida da família. Enquanto tenta compreender a perda, ela também precisa assimilar informações técnicas, conversar com diferentes profissionais e refletir sobre uma decisão de grande impacto emocional.
Nessas circunstâncias, processos cognitivos como atenção, memória, interpretação das informações e julgamento podem ser afetados pela intensidade do sofrimento.
Isso não significa que a família seja incapaz de decidir. Significa apenas que essa decisão ocorre em um contexto de intensa sobrecarga emocional.
Por esse motivo, conhecer previamente a vontade do potencial doador faz diferença.
Sob a perspectiva da Bioética, manifestar esse desejo em vida representa o exercício da autonomia. Para a família, essa manifestação também funciona como uma referência importante em um momento marcado pela dúvida.
Em vez de tentar imaginar qual teria sido a escolha do familiar, os parentes podem buscar respeitar uma vontade que já havia sido expressa.
A dor da perda permanece. O que muda é a responsabilidade atribuída à decisão.
A doação de órgãos costuma ser lembrada pelo impacto que produz na vida de pessoas que aguardam um transplante, mas seus efeitos sobre quem precisa decidir também importam muito.
Falar sobre doação de órgãos antes que esse tema se torne uma necessidade não elimina o sofrimento provocado pela morte nem torna a decisão simples. Ainda assim, essa conversa pode reduzir conflitos, diminuir sentimentos de culpa e oferecer mais segurança aos familiares diante de uma situação extremamente difícil.
As decisões humanas não dependem apenas de informações ou de argumentos racionais. Elas são influenciadas pela história familiar, pelas relações afetivas, pelas crenças e pelo contexto emocional em que acontecem.
Por isso, conversar sobre a própria vontade em relação à doação de órgãos representa uma forma de cuidado que ultrapassa a possibilidade de beneficiar pessoas que aguardam um transplante. Também significa oferecer à família uma orientação clara para um momento em que dúvidas e incertezas costumam fazer parte do processo de luto.
Ao expressar esse desejo ainda em vida, a pessoa preserva sua autonomia e reduz o peso de uma decisão que, muitas vezes, recai sobre familiares emocionalmente fragilizados. Em um cenário marcado por perdas, essa conversa não diminui a dor, mas pode tornar o caminho menos incerto.
** Elaine Marques Hojaij é psicóloga, especialista em Psicologia Clínica Hospitalar
Doação de órgão: escolha envolve processos, diz especialistaPsicóloga explica que autorização não é determinada apenas pelo momento da perda, mas por conversas e valores construídos ao longo da vidaSaúde2026-08-07T14:42:45.552ZA confirmação da morte encefálica costuma ser acompanhada por uma sequência de acontecimentos difíceis para qualquer família. Além de lidar com a perda, os parentes precisam compreender informações médicas complexas e responder, em pouco tempo, se autorizam ou não a doação de órgãos. É comum imaginar que essa decisão seja tomada naquele instante, na verdade, ela costuma refletir uma história construída ao longo dos anos, marcada por valores familiares, experiências anteriores e, principalmente, pelo conhecimento da vontade da pessoa que morreu. Essa perspectiva ajuda a compreender a recusa familiar, um dos maiores desafios da doação de órgãos no Brasil. Nem sempre ela representa uma posição contrária à doação, em muitos casos, revela a dificuldade de decidir sem saber qual era o desejo do potencial doador. Essa realidade aparece com frequência no trabalho das Equipes Hospitalares de Doação para Transplantes (e-DOTs) e das Organizações de Procura de Órgãos (OPOs). Entre familiares, uma frase costuma se repetir: "Eu não sei o que ele gostaria." Essa afirmação mostra expressa a insegurança de assumir uma decisão que, idealmente, deveria ter sido tomada pela própria pessoa em vida. O luto e a capacidade de decisão Do ponto de vista psicológico, a tomada de decisões durante o luto ocorre em condições muito diferentes das vividas no cotidiano. A confirmação da morte encefálica provoca uma ruptura brusca na vida da família. Enquanto tenta compreender a perda, ela também precisa assimilar informações técnicas, conversar com diferentes profissionais e refletir sobre uma decisão de grande impacto emocional. Nessas circunstâncias, processos cognitivos como atenção, memória, interpretação das informações e julgamento podem ser afetados pela intensidade do sofrimento. Isso não significa que a família seja incapaz de decidir. Significa apenas que essa decisão ocorre em um contexto de intensa sobrecarga emocional. Por esse motivo, conhecer previamente a vontade do potencial doador faz diferença. Sob a perspectiva da Bioética, manifestar esse desejo em vida representa o exercício da autonomia. Para a família, essa manifestação também funciona como uma referência importante em um momento marcado pela dúvida. Em vez de tentar imaginar qual teria sido a escolha do familiar, os parentes podem buscar respeitar uma vontade que já havia sido expressa. A dor da perda permanece. O que muda é a responsabilidade atribuída à decisão. Coversa que protege a família A doação de órgãos costuma ser lembrada pelo impacto que produz na vida de pessoas que aguardam um transplante, mas seus efeitos sobre quem precisa decidir também importam muito. Falar sobre doação de órgãos antes que esse tema se torne uma necessidade não elimina o sofrimento provocado pela morte nem torna a decisão simples. Ainda assim, essa conversa pode reduzir conflitos, diminuir sentimentos de culpa e oferecer mais segurança aos familiares diante de uma situação extremamente difícil. As decisões humanas não dependem apenas de informações ou de argumentos racionais. Elas são influenciadas pela história familiar, pelas relações afetivas, pelas crenças e pelo contexto emocional em que acontecem. Por isso, conversar sobre a própria vontade em relação à doação de órgãos representa uma forma de cuidado que ultrapassa a possibilidade de beneficiar pessoas que aguardam um transplante. Também significa oferecer à família uma orientação clara para um momento em que dúvidas e incertezas costumam fazer parte do processo de luto. Ao expressar esse desejo ainda em vida, a pessoa preserva sua autonomia e reduz o peso de uma decisão que, muitas vezes, recai sobre familiares emocionalmente fragilizados. Em um cenário marcado por perdas, essa conversa não diminui a dor, mas pode tornar o caminho menos incerto. ** Elaine Marques Hojaij é psicóloga, especialista em Psicologia Clínica HospitalarSão PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/doacao-de-orgao-escolha-envolve-processos-diz-especialista
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