Saúde

Alzheimer: caminhada simples ajuda a proteger o cérebro

Estudos associam atividade física à desaceleração de alterações ligadas ao Alzheimer, mas especialistas destacam que não há garantia individual

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Caminhar pode contribuir para a saúde do cérebro | Reprodução/Magnific

Caminhar pode contribuir para a saúde do cérebro | Reprodução/Magnific

Esquecer onde colocou as chaves ou demorar para recordar um nome pode acontecer em qualquer idade. Mas repetir frequentemente as mesmas perguntas, perder-se em trajetos conhecidos ou deixar de conseguir realizar tarefas habituais merece atenção.

Quando esquecer deixa de ser “normal”

Durante muito tempo, a demência foi tratada como consequência inevitável do envelhecimento. Hoje sabemos que essa ideia está errada. Envelhecer modifica o cérebro, mas perder progressivamente a autonomia não deve ser considerado “normal da idade”.

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E uma das mensagens mais importantes da ciência atual é que aquilo que protege o coração também pode ajudar a proteger o cérebro.

A doença de Alzheimer é a causa mais frequente de demência, mas não é a única. Alterações vasculares, deficiências nutricionais, problemas de tireoide, depressão e efeitos de determinados medicamentos também podem produzir sintomas cognitivos. Por isso, perceber precocemente uma alteração de memória não significa antecipar uma sentença: significa abrir espaço para investigar suas causas, iniciar o cuidado e organizar o futuro.

O que a ciência já sabe sobre risco e prevenção

A Comissão da The Lancet sobre demência identificou 14 fatores de risco potencialmente modificáveis, entre eles inatividade física, hipertensão, diabetes, colesterol elevado, perda auditiva ou visual não tratada, tabagismo, depressão, isolamento social e poluição do ar. Seus modelos estimam que enfrentar esses fatores ao longo da vida poderia prevenir ou adiar cerca de 45% dos casos no mundo. Para o Brasil, o Ministério da Saúde estima uma fração potencialmente modificável ainda maior, próxima de 60%. Esses números representam possibilidades populacionais, não garantias individuais.

Onde entra o exercício? Uma pesquisa publicada em 2025 acompanhou adultos cognitivamente saudáveis e encontrou associação entre maior número de passos e progressão mais lenta de alterações ligadas ao Alzheimer, especialmente entre aqueles que já apresentavam depósito cerebral de proteína beta-amiloide. Como foi um estudo observacional, ele não prova que caminhar tenha causado essa proteção, mas reforça a importância de combater o sedentarismo.

Outro avanço importante veio do ensaio clínico US POINTER, com 2.111 adultos entre 60 e 79 anos com risco aumentado de declínio cognitivo. Durante dois anos, os participantes receberam orientações envolvendo exercício, alimentação, estímulo cognitivo, convívio social e controle da saúde cardiovascular. Os dois grupos melhoraram, mas o programa mais estruturado, supervisionado e intensivo produziu benefício cognitivo discretamente maior. O estudo, entretanto, não foi desenhado para demonstrar redução no número de diagnósticos de demência.

Como transformar isso em hábito no dia a dia

Portanto, não existe exercício milagroso nem quantidade de passos capaz de assegurar que alguém nunca desenvolverá Alzheimer. A estratégia mais consistente é multidimensional: caminhar ou realizar outra atividade aeróbica, fortalecer os músculos, controlar pressão, glicemia e colesterol, dormir adequadamente, cuidar da audição e da visão, preservar relações sociais e continuar aprendendo.

Na pessoa que já apresenta comprometimento cognitivo, a fisioterapia não reverte a doença, mas pode preservar mobilidade, força, equilíbrio e independência nas tarefas cotidianas. Exercícios associados a comandos, mudanças de direção e tarefas funcionais também ajudam a manter a interação entre movimento, atenção e ambiente. O programa deve ser simples, seguro, repetível e construído junto à família e à equipe multiprofissional.

Em São Paulo, a UBS pode iniciar a avaliação e encaminhar para as Unidades de Referência à Saúde do Idoso. A rede municipal também dispõe do Programa Acompanhante de Idosos e de grupos voltados à atividade física, memória e prevenção de quedas.

Cuidar da memória não significa apenas fazer palavras cruzadas ou tentar guardar mais informações. Significa continuar caminhando, convivendo, aprendendo e participando da própria vida.

Não podemos controlar todos os caminhos do envelhecimento. Mas podemos construir, passo a passo, um corpo mais ativo, um cérebro mais estimulado e uma cidade que ofereça às pessoas idosas não apenas mais anos de vida, mas mais vida em seus anos.

*João Douglas Gil, fisioterapeuta

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