“Ainda não existe um risco global”, diz especialista sobre surto de Ebola no Congo
Em entrevista ao SBT News, o microbiologista Rômulo Neres comenta avanço da doença e risco de disseminação para outros países

Naiara Ribeiro
A Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstrou preocupação com a velocidade de avanço do surto de Ebola na República Democrática do Congo. Segundo um boletim divulgado pelas autoridades de saúde do país nesta terça-feira (19) e citado pela agência Reuters, já foram registrados 516 casos suspeitos da doença, 33 confirmações laboratoriais e 131 mortes associadas ao surto no leste do território. Outros dois casos confirmados também foram identificados na vizinha Uganda.
O avanço da doença será discutido nesta terça-feira (19) durante uma reunião do Comitê de Emergência da OMS, em Genebra. O grupo reúne especialistas internacionais que vão avaliar o risco de expansão do surto e discutir medidas de resposta, como vigilância, rastreamento de contatos e ampliação da testagem laboratorial.
Em entrevista ao SBT News, o mestre em microbiologia e doutor em imunologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rômulo Neres, explicou que a forma de transmissão do Ebola ajuda a entender a rápida disseminação registrada nas últimas semanas. “Quando a gente fala do vírus Ebola, estamos falando de um conjunto de vírus transmitido por basicamente qualquer fluido da pessoa infectada. O vírus pode ser transmitido pelo sangue, suor, lágrimas, urina, fezes e contato com sangue dos pacientes”, afirmou.
O especialista lembra que houve um intervalo entre os primeiros casos e a identificação oficial do surto pelas autoridades internacionais. Nesse período, muitos pacientes acabaram sendo atendidos pelas próprias famílias ou por equipes locais sem estrutura adequada para lidar com uma doença altamente contagiosa. “O primeiro caso conhecido nesse surto atual foi em 24 de abril. A primeira notificação para a OMS de que havia uma doença misteriosa causando dezenas de mortes ocorreu apenas em 5 de maio”, explicou.
Segundo Rômulo Neres, o Ebola exige um nível elevado de cuidado especializado, especialmente no atendimento aos pacientes infectados. Isso ajuda a explicar a velocidade de avanço do surto nas primeiras semanas.
Rastreamento e estrutura médica são desafios
O pesquisador afirmou que um dos principais desafios das autoridades sanitárias é identificar rapidamente quem teve contato com pessoas infectadas. Além do rastreamento, outro obstáculo é a necessidade de estrutura adequada para atender pacientes e proteger profissionais de saúde. O especialista também falou sobre os rígidos protocolos de atendimento e equipamentos completos de proteção individual.
A própria OMS também demonstrou preocupação com os casos registrados entre profissionais de saúde, o que pode indicar transmissão associada ao atendimento médico. A organização informou ainda que liberou US$ 3,9 milhões em recursos emergenciais para apoiar a resposta das autoridades locais ao surto diz a Reuters.
Vírus continua circulando na natureza
Este é o 17º surto de Ebola registrado na República Democrática do Congo. Segundo Rômulo Neres, isso acontece porque o vírus continua circulando na natureza, principalmente entre morcegos, considerados os principais reservatórios naturais da doença. “Muitos surtos surgem em áreas com atividade mineradora intensa e exploração de cavernas”, explicou.
A região de Ituri, onde o atual surto se concentra, possui forte atividade de mineração, fator que pode ter contribuído para o surgimento dos casos, embora a origem exata ainda esteja sob investigação.
O especialista também destacou que, mesmo após o controle de um surto em humanos, o vírus pode continuar presente em animais silvestres e voltar a infectar pessoas futuramente.
Há risco de o surto chegar a outros países?
Apesar da preocupação internacional, Rômulo Neres afirmou que, neste momento, o principal risco continua concentrado na região afetada e em países vizinhos. “Precisamos pensa mais nos desafios locais e na possibilidade de a doença chegar aos países vizinhos. Ainda não existe um risco global para toda a população mundial”, afirmou.
Segundo ele, a contenção do Ebola depende de ações coordenadas entre os países e de um monitoramento rigoroso das pessoas que tiveram contato com casos confirmados, por isso a importância de a OMS declarar emergência de saúde pública internacional: “Todas as medidas de saúde direcionadas ao manejo do Ebola precisam ser tomadas em conjunto. Se um país restringe circulação e outro não, por exemplo, isso pode facilitar a disseminação”, disse.
O Ministério da Saúde brasileiro afirma que o risco de infecção no país é considerado baixo e que não há registros da doença no Brasil. A pasta explica que as chances de contágio aumentam principalmente em situações de contato direto com pessoas infectadas, fluidos corporais contaminados ou viagens para áreas afetadas pelo surto.
O órgão também reforça que o Ebola não é transmitido pelo ar. A transmissão ocorre por contato direto com sangue, secreções, objetos contaminados ou corpos de pessoas infectadas. Segundo o ministério, pessoas diagnosticadas com a doença devem ser isoladas imediatamente, e profissionais de saúde precisam utilizar equipamentos de proteção individual durante o atendimento.
O que é o Ebola
O Ebola é uma doença viral grave identificada pela primeira vez em 1976, em regiões próximas ao Rio Ebola, na atual República Democrática do Congo.
Segundo o Ministério da Saúde, os morcegos são considerados os principais hospedeiros naturais do vírus, que também pode infectar primatas, como chimpanzés e gorilas. A doença ficou conhecida pelos surtos registrados em países da África subsaariana e pode apresentar alta taxa de letalidade em casos graves.
Os sintomas mais comuns incluem febre, dor de cabeça, fraqueza intensa, vômitos, diarreia e dor abdominal. Em quadros graves, a doença também pode provocar hemorragias. O período de incubação varia de dois a 21 dias. A transmissão só acontece após o aparecimento dos sintomas.









