Política

Relator usa projeto sobre adulteração de bebidas para incluir medidas fiscais de MP rejeitada na Câmara

Dep. Kiko Celeguim (PT-SP) também incluiu no PL do Metanol regras mais rígidas para uso de créditos tributários na compensação de impostos

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Rafael Porfírio
Relator usa projeto sobre adulteração de bebidas para incluir medidas fiscais de MP rejeitada na Câmara

O deputado Kiko Celeguim (PT-SP), relator do projeto que torna crime hediondo a falsificação de bebidas e alimentos, aproveitou a tramitação da proposta, que já está em regime de urgência e pronta para votação no plenário da Câmara dos Deputados, para incluir no texto um pacote de medidas de contenção de gastos.

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Esses pontos haviam sido originalmente apresentados na medida provisória (MP) 1.303, que aumentava impostos e foi derrubada pela Câmara no início do mês, numa derrota que expôs as fragilidades da articulação política do Planalto. A MP caducou sem votação, e o governo perdeu um instrumento central para reforçar a arrecadação e reduzir despesas obrigatórias em 2026, ano eleitoral.

Agora, Kiko Celeguim tenta ressuscitar parte do conteúdo da MP, mas por um atalho legislativo: embutindo os trechos mais consensuais em um projeto de alta prioridade e com boa aceitação entre os parlamentares.

O que foi incluído?

Entre os dispositivos acrescentados ao relatório estão:

  • Endurecimento das regras do seguro-defeso, com exigência de biometria e limite de pagamento conforme o Orçamento;
  • Redução para 30 dias do prazo máximo de auxílio-doença concedido via Atestmed (sistema digital do INSS);
  • Inclusão do programa Pé-de-Meia, incentivo financeiro a estudantes, no cálculo do piso de investimentos em educação;
  • Teto orçamentário para compensações previdenciárias entre o INSS e os regimes próprios de estados e municípios;
  • Endurecimento das regras de compensação tributária de PIS/Cofins, para coibir créditos indevidos usados por empresas.

No parecer, Kiko Celeguim justificou que as medidas são “essenciais para racionalizar as despesas públicas” e destacou que muitos dos pontos já foram amplamente debatidos no Congresso e na sociedade.

“Na medida em que esses benefícios tributários representam, na prática, despesa do governo federal em favor de setores econômicos, é fundamental que se faça esta correção”, disse o relator em seu parecer.

A costura política

A manobra tem duplo efeito: de um lado, atende à equipe econômica, que busca recompor parte do ajuste fiscal perdido com a MP. De outro, reduz o desgaste político do governo, que evita enfrentar novamente uma votação polêmica sobre aumento de impostos.

Nos bastidores, o movimento é visto como articulação coordenada com o Ministério da Fazenda, comandado por Fernando Haddad, que já havia anunciado a intenção de “fatiar” as medidas da MP, separando o que é consenso do que ainda gera resistência.

A escolha de Celeguim para essa missão não é por acaso. O deputado tem perfil técnico e boa interlocução com a base governista e o Ministério da Fazenda. A inclusão das medidas no projeto das bebidas permite acelerar a tramitação, já que o texto não precisará começar do zero e pode ir direto ao plenário.

No Congresso, a avaliação é que a estratégia tem chances reais de sucesso. Os pontos incluídos no relatório não envolvem aumento direto de impostos e, portanto, enfrentam menos resistência entre os deputados.

Além disso, a urgência social do projeto, voltado ao combate de bebidas adulteradas, pode criar um ambiente político favorável para a aprovação, sem que o debate fiscal roube o protagonismo.

A leitura predominante é que o governo tenta “corrigir o rumo” da articulação com o Congresso, após o vexame da MP caducada, e mostrar serviço em meio à pressão por responsabilidade fiscal.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), já incluiu o projeto na pauta da próxima semana.

O pano de fundo

A derrota da MP 1.303 abriu um buraco estimado em R$ 35 bilhões nas contas de 2026 e deve provocar um bloqueio de ao menos R$ 7 bilhões em emendas parlamentares já no próximo ano. Com a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) se aproximando, o governo precisa mostrar ao mercado e ao Congresso que ainda tem controle sobre os gastos.

Por isso, o texto de Celeguim se tornou mais do que um projeto sobre bebidas falsificadas. É uma peça-chave na estratégia de reconstrução política e fiscal do governo.

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