PF: Campos Neto soube de acordo entre diretor do BC e Zettel
Ex-chefe de Fiscalização relatou venda de fazenda a cunhado de Vorcaro em 2020, na gestão do ex-presidente do Banco Central, mas caso só foi apurado em 2026
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Felipe Moraes, Valentina Moreira
Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central (BC) | Divulgação/Raphael Ribeiro/BCB
A venda de uma fazenda de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização do Banco Central, no valor de R$ 4,5 milhões a Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, foi informada à direção da autarquia em 2020, na gestão de Roberto Campos Neto, mas a aquisição só virou objeto de investigação em 2026, na gestão do presidente Gabriel Galípolo.
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Essa informação consta em documento do BC incluído em uma série de relatórios do caso do Banco Master tornados públicos nessa quinta-feira (10) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin.
Em documentação interna do Banco Central datada de 8 de janeiro de 2026 e assinada pelos atuais diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, e procurador-geral da autoridade monetária, Cristiano Cozer, relata-se que Paulo Sérgio tinha informado potencial interesse na compra de um sítio dele, em Guaxupé (MG), em 2019, "com objetivo de loteamento".
A venda do imóvel foi efetuada em janeiro de 2020. "Esclareceu, ainda, que, um ano após a negociação, no momento da escrituração do imóvel, descobriu que o comprador era cunhado de Daniel Bueno Vorcaro, controlador do Banco Master", escrevem os diretores do BC, responsáveis pela oitiva com Paulo Sérgio.
O ex-diretor de Fiscalização justificou "desconhecer esse fato à época da negociação e que o valor da venda era compatível com o valor de mercado". Detalhou ainda que o valor de R$ 4,5 milhões foi depositado em cinco parcelas, em conta conjunta mantida por ele com um irmão.
Paulo Sérgio ainda afirmou que "o comprador desistiu do projeto loteamento" e que "em determinado momento, tendo em vista a melhora no preço do café, seu irmão teria se tornado arrendatário do mesmo sítio do cunhado de Daniel Vorcaro, para nele manter lavoura cafeeira".
"Declarou que toda a transação foi registrada em suas declarações anuais de ajuste do imposto de renda", continua o documento do BC.
Ao fim do texto, "tendo em vista os fatos relatados", Aquino e Cozer encaminham "o vertente relato ao presidente" do BC "e à corregedoria" da instituição, "para conhecimento e adoção das providências cabíveis".
Antes da chefia de Fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza dirigiu o Departamento de Supervisão Bancária (Desup).
Segundo a PF, ele e Belline Santana, também ex-chefe da Desup, são suspeitos de terem atuado como "empregados" de Vorcaro, orientando o ex-banqueiro sobre fiscalizações e reuniões, em uma espécie de consultoria informal ao ex-executivo do Master. Servidores de carreira, ambos seguem afastados da autarquia e cumprem medidas cautelares como uso de tornozeleira eletrônica.
Outro ex-diretor do BC recebeu dinheiro do Master
Os "fatos graves" mostrados no documento do BC, "em tese, se enquadram no art. 117, inciso XII, da Lei nº 8.112, de 11/12/1990", segundo signatários, e também envolvem a atuação de Santana. Há suspeitas de que o servidor tenha recebido vantagens indevidas do Master disfarçadas de um projeto de caridade.
Em oitiva separada, Aquino e Cozer ouviram de Santana que, em 2023, o ex-chefe da Desup foi abordado por uma pessoa identificada como Leonardo Palhares, supostamente ligado à organização Câmara-e.Net.
Essa entidade é descrita no perfil oficial na rede social LinkedIn como multissetorial e "de maior representatividade da economia digital" no Brasil.
"O seu papel tem sido fundamental para a promoção da segurança nas transações eletrônicas, a formulação de políticas públicas alinhadas aos anseios da sociedade moderna e, especialmente, para o aprimoramento de marcos regulatórios setoriais que dão suporte legal às medidas de incentivo necessárias ao desenvolvimento de nosso país", diz a página da ONG.
Palhares disse a Santana, segundo o ex-diretor do BC, que "teria recebido recomendação do nome de Belline em função de sua atuação em encontro do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)".
Segundo Santana, Palhares lhe apresentou uma proposta de elaboração de projeto "voltado à inclusão de jovens carentes, mediante remuneração no montante de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais)".
Na oitiva, o servidor afirmou que "não teria disponibilidade", "ao que Leonardo teria respondido que tinha interesse, unicamente, em utilizar 'seu nome e sua imagem', sem necessidade de efetiva participação na elaboração do projeto, dispondo-se, para tanto, a remunerá-lo com a referida quantia de R$ 2 milhões".
Santana afirmou ao BC ter recebido, em 2023, duas parcelas semestrais de R$ 500 mil por ter "efetivamente trabalhado na elaboração de projeto de inclusão de jovens na indústria financeira, além de participar de um podcast".
O ex-chefe da Desup argumentou ter questionado Palhares "mais de uma vez acerca da possível existência de instituição financeira patrocinando o projeto, sendo informado que nenhuma instituição regulada pelo Banco Central estava envolvida".
O servidor reconheceu ter se sentido "incomodado com os pagamentos" e disse a Palhares que queria "interromper sua participação" no projeto "e a correspondente percepção das parcelas seguintes, no ano de 2024".
No entanto, o ex-diretor admitiu que, em 2025, criou uma pessoa jurídica denominada "Inspiração" para voltar a fazer parte da iniciativa, "recebendo parcelas mensais de R$ 100.000,00 (cem mil reais), até completar o valor acordado", de R$ 2 milhões.
Questionado por Aquino e Cozer se sabia que "o Banco Master poderia ser o responsável pelos pagamentos", Santana "negou categoricamente". "Declarou dispor de instrumento contratual referente à transação e que todos os valores teriam sido informados em sua declaração anual de ajuste de imposto de renda."
Dono do BTG Pactual, André Esteves também foi intimado a depor como testemunha.
PF: Campos Neto soube de acordo entre diretor do BC e ZettelEx-chefe de Fiscalização relatou venda de fazenda a cunhado de Vorcaro em 2020, na gestão do ex-presidente do Banco Central, mas caso só foi apurado em 2026Política2026-09-11T13:38:43.105ZA venda de uma fazenda de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização do Banco Central, no valor de R$ 4,5 milhões a Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, foi informada à direção da autarquia em 2020, na gestão de Roberto Campos Neto, mas a aquisição só virou objeto de investigação em 2026, na gestão do presidente Gabriel Galípolo. 📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! e siga o canal do SBT News. Essa informação consta em documento do BC incluído em uma série de relatórios do caso do Banco Master tornados públicos nessa quinta-feira (10) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin. Em documentação interna do Banco Central datada de 8 de janeiro de 2026 e assinada pelos atuais diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, e procurador-geral da autoridade monetária, Cristiano Cozer, relata-se que Paulo Sérgio tinha informado potencial interesse na compra de um sítio dele, em Guaxupé (MG), em 2019, "com objetivo de loteamento". A venda do imóvel foi efetuada em janeiro de 2020. "Esclareceu, ainda, que, um ano após a negociação, no momento da escrituração do imóvel, descobriu que o comprador era cunhado de Daniel Bueno Vorcaro, controlador do Banco Master", escrevem os diretores do BC, responsáveis pela oitiva com Paulo Sérgio. O ex-diretor de Fiscalização justificou "desconhecer esse fato à época da negociação e que o valor da venda era compatível com o valor de mercado". Detalhou ainda que o valor de R$ 4,5 milhões foi depositado em cinco parcelas, em conta conjunta mantida por ele com um irmão. Paulo Sérgio ainda afirmou que "o comprador desistiu do projeto loteamento" e que "em determinado momento, tendo em vista a melhora no preço do café, seu irmão teria se tornado arrendatário do mesmo sítio do cunhado de Daniel Vorcaro, para nele manter lavoura cafeeira". "Declarou que toda a transação foi registrada em suas declarações anuais de ajuste do imposto de renda", continua o documento do BC. Ao fim do texto, "tendo em vista os fatos relatados", Aquino e Cozer encaminham "o vertente relato ao presidente" do BC "e à corregedoria" da instituição, "para conhecimento e adoção das providências cabíveis". Antes da chefia de Fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza dirigiu o Departamento de Supervisão Bancária (Desup). Segundo a PF, ele e Belline Santana, também ex-chefe da Desup, são suspeitos de terem atuado como "empregados" de Vorcaro, orientando o ex-banqueiro sobre fiscalizações e reuniões, em uma espécie de consultoria informal ao ex-executivo do Master. Servidores de carreira, ambos seguem afastados da autarquia e cumprem medidas cautelares como uso de tornozeleira eletrônica. Outro ex-diretor do BC recebeu dinheiro do Master Os "fatos graves" mostrados no documento do BC, "em tese, se enquadram no art. 117, inciso XII, da Lei nº 8.112, de 11/12/1990", segundo signatários, e também envolvem a atuação de Santana. Há suspeitas de que o servidor tenha recebido vantagens indevidas do Master disfarçadas de um projeto de caridade. Em oitiva separada, Aquino e Cozer ouviram de Santana que, em 2023, o ex-chefe da Desup foi abordado por uma pessoa identificada como Leonardo Palhares, supostamente ligado à organização Câmara-e.Net. Essa entidade é descrita no perfil oficial na rede social LinkedIn como multissetorial e "de maior representatividade da economia digital" no Brasil. "O seu papel tem sido fundamental para a promoção da segurança nas transações eletrônicas, a formulação de políticas públicas alinhadas aos anseios da sociedade moderna e, especialmente, para o aprimoramento de marcos regulatórios setoriais que dão suporte legal às medidas de incentivo necessárias ao desenvolvimento de nosso país", diz a página da ONG. Palhares disse a Santana, segundo o ex-diretor do BC, que "teria recebido recomendação do nome de Belline em função de sua atuação em encontro do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)". Segundo Santana, Palhares lhe apresentou uma proposta de elaboração de projeto "voltado à inclusão de jovens carentes, mediante remuneração no montante de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais)". Na oitiva, o servidor afirmou que "não teria disponibilidade", "ao que Leonardo teria respondido que tinha interesse, unicamente, em utilizar 'seu nome e sua imagem', sem necessidade de efetiva participação na elaboração do projeto, dispondo-se, para tanto, a remunerá-lo com a referida quantia de R$ 2 milhões". Santana afirmou ao BC ter recebido, em 2023, duas parcelas semestrais de R$ 500 mil por ter "efetivamente trabalhado na elaboração de projeto de inclusão de jovens na indústria financeira, além de participar de um podcast". O ex-chefe da Desup argumentou ter questionado Palhares "mais de uma vez acerca da possível existência de instituição financeira patrocinando o projeto, sendo informado que nenhuma instituição regulada pelo Banco Central estava envolvida". O servidor reconheceu ter se sentido "incomodado com os pagamentos" e disse a Palhares que queria "interromper sua participação" no projeto "e a correspondente percepção das parcelas seguintes, no ano de 2024". No entanto, o ex-diretor admitiu que, em 2025, criou uma pessoa jurídica denominada "Inspiração" para voltar a fazer parte da iniciativa, "recebendo parcelas mensais de R$ 100.000,00 (cem mil reais), até completar o valor acordado", de R$ 2 milhões. Questionado por Aquino e Cozer se sabia que "o Banco Master poderia ser o responsável pelos pagamentos", Santana "negou categoricamente". "Declarou dispor de instrumento contratual referente à transação e que todos os valores teriam sido informados em sua declaração anual de ajuste de imposto de renda." Campos Neto e Galípolo intimados a depor , na condição de testemunhas, sobre o processo de fiscalização do Master, no âmbito do inquérito no STF que apura suspeita de cooptação de servidores do BC por Vorcaro e aliados. Dono do BTG Pactual, André Esteves também foi intimado a depor como testemunha.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/politica/pf-campos-neto-soube-de-acordo-entre-diretor-do-bc-e-zettel
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