Lula critica Conselho da Paz e diz que ONU está desacreditada e "cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras"
Sem citar diretamente conflito entre EUA e Israel contra Irã, presidente afirmou não achar "normal" Trump "dizer todo dia" que tem "o maior Exército do mundo"


Hariane Bittencourt
Felipe Moraes
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou nesta quarta-feira (4) o Conselho da Paz criado pelo mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump, para reconstruir a Faixa de Gaza e disse que a Organização das Nações Unidas (ONU) está "desacreditada" e "cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras" por não conseguir impedir os diversos conflitos armados em andamento no mundo.
Sem citar diretamente a guerra no Oriente Médio travada após Estados Unidos e Israel atacarem o Irã, matando o líder supremo Ali Khamenei, Lula disse não achar "normal" Trump se orgulhar "todo dia" das capacidades militares dos EUA.
"Vocês acham normal o presidente Trump todo dia ficar dizendo, 'eu tenho o maior navio do mundo, eu tenho o maior Exército do mundo?'", questionou o petista, em discurso na 39ª Conferência Regional da FAO, agência da ONU voltada ao combate à fome, para a América Latina e o Caribe, que segue até sexta (6), no Palácio do Itamaraty. "Por que que ele não fala, 'eu tenho a maior capacidade de produção de alimento do mundo, eu tenho como distribuir alimento?'", completou.
O petista fez uma cobrança ao líderes de países membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, afirmando que bastaria "uma teleconferência" com "apenas cinco pessoas" para que investimentos no combate à fome e à desigualdade passassem a ser temas prioritários em vez de recursos aplicados em defesa e armamentos.
"Se nós pegássemos o dinheiro que foi gasto o ano passado em armamentos, em conflitos, o equivalente a US$ 2 trilhões e 700 bilhões, e dividíssemos entre os 630 milhões de seres humanos que no planeta passam fome, daria para a gente ter distribuído 4.285 dólares para cada pessoa", citou.
Cuba, Conselho da Paz e ONU
O petista ainda citou a situação de Cuba, que vive uma crise humanitária, e afirmou que "as pessoas importantes do planeta, que deveriam estar preocupadas com a fome, estão preocupadas com guerra". O presidente disse que o problema mundial da fome é "por excesso de irresponsabilidade", e não por "excesso ou falta de chuva ou sol".
"A gente só vai acabar com a fome quando houver determinação política. Quando tirar um pouquinho de cada área do governo, do Itamaraty, das Forças Armadas, e colocar um poucão para os pobres", continuou.
Lula também fez críticas ao Conselho da Paz, organismo criado por Trump para a Faixa de Gaza. O Brasil foi convidado pelo mandatário norte-americano para participar do grupo, mas deve declinar.
"Compensou destruir Gaza, matando a quantidade de mulheres que mataram crianças, para agora aparecerem com pompa, criando um conselho para dizer, vamos reconstruir Gaza. Aí aparece como se fosse, sabe, um resort, para melhorar e passar a férias no lugar que estão os cadáveres das mulheres e das crianças que morreram", disse o petista.
O mandatário brasileiro elogiou a atuação da FAO, mas lamentou a atuação das Nações Unidas diante de conflitos. "A ONU está ficando desacreditada", falou. "Não está cumprindo aquilo que está escrito na sua carta de criação, em 1945. A ONU está cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras e não tem espaço para os senhores da paz. Por que não convocou uma conferência mundial para discutir esses conflitos?", questionou.









