Política

Brasil descarta receber presos dos EUA, mas busca ampliar cooperação contra crime organizado

Governo Lula atua para ampliar cooperação com a Casa Branca e evitar que facções como PCC e Comando Vermelho sejam classificadas como terroristas

O governo brasileiro descarta a hipótese de firmar um acordo com os Estados Unidos para receber prisioneiros ou imigrantes deportados nas penitenciárias do Brasil.

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A proposta partiu do governo americano, durante a troca de informações entre os dois países sobre possíveis ações para mitigar, de forma conjunta, o avanço do crime transnacional, como mostrou a Folha de S.Paulo.

Um movimento parecido já ocorre em El Salvador, governado pelo presidente de extrema-direita Nayib Bukele. Nesse caso, o governo recebe presos dos EUA, mediante a cobrança de uma taxa por detento para cobrir os custos.

El Salvador é conhecido pelo modelo de segurança pública linha-dura, com uma política de encarceramento em massa e frequentes denúncias de violações de direitos humanos.

Fontes da diplomacia brasileira afirmam, porém, que o Brasil vai insistir no incremento da cooperação no combate ao crime organizado com os Estados Unidos por outros meios.

Na terça-feira (10) um porta-voz do Departamento de Estado afirmou que o governo dos Estados Unidos não antecipa possíveis designações de terrorismo nem comenta discussões internas sobre o tema.

Ponderou, apesar disso, que os EUA "veem as organizações criminosas do Brasil, incluindo o PCC e o CV, como ameaças significativas à segurança regional devido ao seu envolvimento com tráfico de drogas, violência e crime transnacional".

Em janeiro, quando conversou por telefone com Donald Trump, o presidente Lula (PT) reiterou a proposta de fortalecimento dessa cooperação, encaminhada ao Departamento de Estado em dezembro de 2025.

Segundo o Palácio do Planalto, o petista "manifestou interesse em estreitar a parceria na repressão à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas, bem como no congelamento de ativos de grupos criminosos e no intercâmbio de dados sobre transações financeiras".

Histórico de cooperação

Brasil e Estados Unidos já colaboraram em diversas ações que envolveram, por exemplo, o intercâmbio de trabalhos de inteligência para a apreensão de drogas e prisão de criminosos.

Em dezembro do ano passado, Polícia Federal (PF) e Federal Bureau of Investigation (FBI) atuaram em conjunto para desmantelar um grupo de hackers que atacava sistemas militares e órgãos federais no Brasil.

A operação, batizada de Power OFF, cumpriu mandados de prisão temporária e de apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Em abril, a Homeland Security Investigation (HSI) e a PF assinaram um memorando que estabelecia uma estrutura para o compartilhamento direto de informações de inteligência investigativa criminal, além de práticas e metodologias para investigação de crimes transnacionais nas Américas do Norte e do Sul.

À época, o encarregado de negócios americano no Brasil, Gabriel Escobar, disse que "nossa cooperação bilateral na área de aplicação da lei resultou, apenas neste ano, na prisão de dezenas de criminosos que ameaçavam comunidades", conforme informou a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil.

Também em 2025, em março, outra ação conjunta HSI e PF resultou no desmantelamento de uma organização criminosa internacional especializada no tráfico e contrabando de imigrantes brasileiros para os Estados Unidos.

Mudança de ares na relação Brasil-EUA

Para o governo brasileiro, o eventual avanço da proposta de equiparar facções criminosas como grupos terroristas será determinante para compreender se houve uma "mudança de ares" na relação entre Brasil e Estados Unidos.

Fontes avaliam que essa declaração não deve sair sem o aval da Casa Branca, ou seja, sem a concordância direta de Donald Trump.

Caso a proposta não avance, a leitura será de que a relação entre os dois países segue a mesma - amistosa e de respeito mútuo - a despeito da movimentação de setores do governo americano que, desde o início da gestão petista, ofereceram resistência ao Brasil sob o comando do presidente Lula (PT).

Neste momento, o entendimento nos palácios do Planalto e do Itamaraty é de que não há evidências de um afastamento entre os dois países em um nível elevado de governo.

Mas avalia-se, por exemplo, que parte do Departamento de Estado dos EUA, comandado por Marco Rubio, é favorável a ataques frontais ao Brasil, nos moldes do que aconteceu quando tarifas de 50% foram anunciadas aos produtos brasileiros em julho do ano passado.

Para assessores, a despeito de mensagens trocadas - como a viagem do assessor Darren Beattie ao Brasil para um encontro com Jair Bolsonaro (PL) - as interações com a Casa Branca têm funcionado perfeitamente.

Eles consideram que a reunião entre Lula e Trump, esperada para a segunda quinzena deste mês e ainda sem data marcada, será mantida. E que uma ligação prévia entre os dois presidentes, se for preciso, não está fora do radar.

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