Política

ACM Neto e Jerônimo viram alvo de jingles feitos por IA

Músicas com humor e palavrões viralizam nas redes e levantam debate sobre inteligência artificial e propaganda nas eleições de 2026; advogado explica limites

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SBT News, com Aratu On
ACM Neto (União Brasil) e Jerônimo Rodrigues (PT) | Reprodução/Instagram

ACM Neto (União Brasil) e Jerônimo Rodrigues (PT) | Reprodução/Instagram

ACM Neto (União Brasil) e Jerônimo Rodrigues (PT), candidatos ao governo da Bahia nas eleições de 2026, viraram alvo de jingles produzidos com auxílio de inteligência artificial (IA) e compartilhados nas redes sociais. As músicas usam humor, palavrões e expressões de duplo sentido para fazer críticas aos políticos e chamaram a atenção pela facilidade com que esse tipo de conteúdo pode ser criado e disseminado.

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Também há uma versão direcionada ao senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PL. Em comum, os conteúdos repetem os nomes dos políticos e recorrem ao deboche para conquistar a atenção dos usuários.

Diferentemente dos jingles eleitorais tradicionais, as produções não necessariamente partem de campanhas, marqueteiros ou compositores profissionais. Usuários comuns podem recorrer a ferramentas de IA para transformar nomes e referências políticas em músicas e publicá-las nas redes em poucos minutos.

A popularização desse tipo de conteúdo, porém, levanta uma questão: quando a brincadeira envolve candidatos em ano eleitoral, quais são os limites?

Por que jingles feitos com IA viralizam?

Para o jornalista Matheus Soares, pesquisador e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e membro do Aláfia – Laboratório de Pesquisa e Inovação sobre Internet, Comunicação e Sociedade –, a mistura entre inteligência artificial, humor e a linguagem característica das redes sociais ajuda a explicar a repercussão.

“A gente sabe que conteúdos de humor e que apelam a emoção têm mais capacidade de viralizar, de chamar a atenção das pessoas e serem repostados. Então, acaba que esse tipo de conteúdo sintético de humor e de palavrões viralizam por conta dessa união de fatores”, explicou à AratuOn, afiliada do SBT na Bahia.

Conteúdo feito por IA pode influenciar eleitor

Para Soares, a utilização de inteligência artificial em conteúdos sobre política também exige atenção por causa da possibilidade de influenciar a percepção dos eleitores sobre candidatos, fatos ou temas do debate público.

“O principal risco desse tipo de conteúdo é justamente a influência que ele pode ter na opinião e, consequentemente, no voto do eleitor. É um conteúdo sintético, é um conteúdo criado com IA, ou seja, ele não existe de fato, mas, pode influenciar a perspectiva de um eleitor sobre um determinado candidato, sobre um fato político ou um tema específico”, afirmou.

O pesquisador também destaca a importância de informar quando determinado material foi produzido com inteligência artificial, embora ressalte que a identificação, sozinha, não resolve o problema da desinformação.

Outro desafio é reconhecer conteúdos manipulados ou gerados artificialmente à medida que as ferramentas se tornam mais sofisticadas.

“Esse é um dos principais desafios, porque essas tecnologias estão em constante aperfeiçoamento, criando conteúdos cada vez mais realistas”, disse.

Segundo Soares, sinais como falhas na sincronia entre voz e movimentos da boca, defeitos em imagens e textos ilegíveis podem ajudar na identificação, mas essas técnicas podem rapidamente se tornar ultrapassadas. Por isso, ele recomenda verificar se o fato apresentado realmente aconteceu.

Jingle com IA pode ser considerado propaganda irregular?

Segundo o advogado Jaime Barreiros, especialista em Direito Eleitoral e analista judiciário do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), uma eventual responsabilização por propaganda irregular depende da identificação de quem criou o conteúdo e das provas reunidas em cada caso.

“Em ações judiciais envolvendo propaganda irregular, uma vez identificada a autoria, a aplicação das sanções pertinentes dependerá da produção probatória e da realização de perícias técnicas. Na impossibilidade de identificar o responsável, a responsabilidade poderá recair sobre a plataforma veiculadora, a qual deverá ser notificada para remover o conteúdo, sob pena de multa”, explicou à AratuOn.

O advogado Neomar Filho, também especialista em Direito Eleitoral, ressalta que humor e sátira não são, por si só, ilegais. A legislação e a Justiça Eleitoral, porém, estabelecem limites relacionados, entre outros pontos, à honra dos candidatos e à disseminação de informações falsas.

“A Constituição Federal garante o exercício da liberdade de expressão e de manifestação, sobretudo durante o processo democrático de escolha dos nossos representantes. E quando a manifestação é direcionada a quem está na vida política, a Justiça Eleitoral tem permitido críticas mais contundentes, e até sátiras”, afirmou.

Segundo o especialista, a proteção à liberdade de expressão não abrange práticas como imputação falsa de crimes, desinformação e determinadas manipulações, além de condutas destinadas a diminuir a participação feminina na política.

Candidato pode responder por conteúdo criado por terceiros?

A produção do conteúdo por um usuário sem ligação com a campanha não afasta automaticamente a possibilidade de responsabilização de candidatos e partidos, segundo Barreiros.

“Em princípio, a responsabilidade pela veiculação de propaganda eleitoral com o uso de inteligência artificial que infrinja a legislação recai, primariamente, sobre o seu criador. Contudo, caso o candidato tenha conhecimento da irregularidade ou possuísse meios de impedi-la e tenha se omitido, ele responderá de forma solidária, assim como o partido político ao qual está filiado”, afirmou.

Assim, a análise sobre eventuais irregularidades envolvendo jingles, sátiras e outros conteúdos políticos produzidos com IA depende das circunstâncias de cada publicação, de sua autoria e das provas sobre eventual participação ou conhecimento de candidatos e partidos.

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