Cidades

"Smurfing": entenda o esquema do PCC no transporte em SP

Investigação aponta pulverização de valores para dificultar o rastreamento de recursos ligados a empresas de ônibus e contratos públicos

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Antonio Souza
Milton Leite é homenageado na Alesp | Foto: Alesp/Bruna Sampaio e Larissa Navarro

Milton Leite é homenageado na Alesp | Foto: Alesp/Bruna Sampaio e Larissa Navarro

A investigação contra o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil), alvo de um mandado de prisão nesta quinta-feira (17) no âmbito da Operação Vectura Corrupta, revelou também detalhes do esquema capitaneado por advogados da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) para praticar lavagem de dinheiro. Segundo a Polícia Civil, o mecanismo é conhecido como "smurfing".

A Operação Vectura Corrupta investiga uma suposta infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transporte coletivo de São Paulo, em empresas, licitações e estruturas políticas.

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Foram expedidos 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em cidades da Grande São Paulo e da Baixada Santista. Entre os alvos está o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite, do União Brasil.

Também são citados na investigação Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans; Danilo Marco Morgado Silva, candidato a deputado estadual pelo PL; Paulo Siqueira Korek Farias, presidente da A2 Transportes; e Julio Salvador Filho, diretor da empresa.

Milton Leite afirmou que está viajando e que se apresentará às autoridades. Ele nega as acusações e diz que pretende provar sua inocência.

O que é “smurfing”?

Segundo a investigação, o esquema de lavagem de dinheiro teria utilizado uma técnica conhecida como smurfing, também chamada de pulverização de valores.

O método consiste em dividir uma quantia maior em várias transferências menores. Os valores podem ser enviados por contas de terceiros, intermediários ou empresas que, aparentemente, não têm relação direta com o verdadeiro beneficiário.

A fragmentação dificulta a identificação da origem e do destino do dinheiro. Em vez de uma única operação de alto valor, que poderia chamar a atenção dos órgãos de controle, são realizadas várias transações menores, muitas vezes em sequência ou por diferentes contas.

A utilização desse método, por si só, não prova a existência de lavagem de dinheiro. Para caracterizar o crime, é necessário demonstrar que os recursos tinham origem ilícita e que as operações foram estruturadas para ocultar ou dissimular essa origem.

Como o mecanismo teria sido usado

Um laudo citado na investigação teria identificado repasses atribuídos ao advogado Milton Mello Milreu, conhecido como “Ancião”, para José Daniel, por meio de contas de terceiros. Os valores mencionados somariam R$ 48.502.

O documento também teria registrado orientações para que recursos destinados à facção fossem enviados de forma fracionada, em quantias entre R$ 80 mil e R$ 95 mil, por meio de contas mantidas por doleiros.

Essas informações ainda estão sendo analisadas. Até o momento, fazem parte de uma investigação e não representam condenação dos citados.

Negociação de empresa de combustíveis

O laudo também aponta uma suposta participação de Milton Milreu e do empresário Sérgio Gevaerd em negociações para a compra da Fanal Derivados de Petróleo.

A empresa teria sido avaliada em aproximadamente R$ 40 milhões. Para os investigadores, a aquisição poderia ampliar a atuação do grupo criminoso no setor de combustíveis.

A polícia apura se a negociação tinha relação com a movimentação de recursos ilícitos ou com a expansão patrimonial de integrantes e empresas ligadas à organização criminosa.

Investigação aponta possível controle de empresas de ônibus

A Operação Vectura Corrupta é apontada como um desdobramento da Operação Decúrio, realizada em agosto de 2024. Na ocasião, a polícia investigou uma rede supostamente utilizada para manter a comunicação entre integrantes do PCC dentro e fora dos presídios, com possível participação de advogados.

Na nova etapa, os investigadores afirmam ter identificado indícios de infiltração da facção em empresas de transporte coletivo, licitações e atividades políticas.

Segundo a Polícia Civil, pelo menos 12 empresas que operam no transporte de passageiros em São Paulo seriam controladas direta ou indiretamente pelo PCC.

A investigação tenta esclarecer se empresas do setor foram utilizadas para:

  • movimentar recursos de origem ilícita;
  • lavar dinheiro;
  • influenciar contratos públicos;
  • ampliar o controle sobre serviços de transporte;
  • estabelecer relações com agentes públicos, empresários e políticos.

O que dizem os investigados

A A2 Transportes negou qualquer ligação com o PCC e rejeitou as acusações de lavagem de dinheiro ou participação em atividades ilícitas.

A empresa afirmou que seus recursos são provenientes exclusivamente de contratos e pagamentos feitos pela Prefeitura de São Paulo pelos serviços prestados e declarou estar à disposição das autoridades.

A defesa de Levi dos Santos Oliveira afirmou que ainda não teve acesso integral aos autos nem aos fundamentos da prisão.

Danilo Morgado classificou a medida como perseguição política e questionou a realização da operação próximo ao período eleitoral.

A Prefeitura de São Paulo informou que colaborará com as investigações e lembrou que já havia determinado intervenções na Transwolff e na UPBus, em 2024, além de instaurar processos administrativos para apurar possíveis irregularidades.

Milton Leite também negou qualquer relação com o PCC e afirmou desconhecer integrantes da facção.

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