Planilhas e mensagens sobre acertos com empreiteiras indicam fraudes em obras em escolas no Rio, diz PF
Material foi colhido pela Polícia Federal e usado como prova para prisão de deputado estadual do Rio e outras seis pessoas


Cézar Feitoza
Mensagens trocadas pelo deputado estadual Thiago Rangel (Avante), do Rio de Janeiro, mostram o direcionamento de obras em escolas públicas do estado e indicam desvio de recursos.
A conclusão foi feita pela Polícia Federal após identificar e analisar áudios, textos e planilhas enviadas por Thiago a aliados.
O conteúdo da representação da Polícia Federal está descrita na decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), que autorizou a 4ª fase da Operação Unha e Carne. O material foi obtido pelo SBT News.
Uma das principais provas obtidas pela Polícia Federal é uma planilha enviada pelo deputado estadual para seu operador financeiro, Luis Fernando Passos, e a Rui Bulhões, então chefe de gabinete da Presidência da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).
Segundo a PF, o documento continha colunas para o número do processo SEI, a obra, o município, a escola, o diretor e o valor.
"A origem, o conteúdo e o momento da troca reforçam a suspeita de que o material tenha relação com tratativas informais envolvendo o direcionamento de obras públicas sob gestão estadual", disse a PF.
A planilha reúne 32 obras a serem realizadas no valor de R$ 16 milhões, segundo o documento.
Poucos dias depois, Luis Fernando diz ao deputado estadual que o contrato estava assinado. "Saque de 550 para sexta... Depois 700 + 750", completa.
Para a Polícia Federal, a proximidade entre o envio do documento e as mensagens sobre os contratos "reforça a suspeita de que os valores tratados nas conversas estariam sendo movimentados de forma clandestina".
Em outra mensagem, o operador financeiro de Thiago diz que era importante definir quais seriam as obras a serem realizadas.
"A gente procura alinhar os empreiteiros todos que vão fazer as obras para a gente começar a agir. Tá bom? Vão soltar os negócios."
"Não tenho que dar satisfação a ninguém."
Outra mensagem identificada pela Polícia Federal mostra o deputado estadual Thiago Rangel definindo uma estratégia com a diretora responsável pela Regional de Educação Noroeste do estado do Rio ---responsável por 13 municípios e 57 escolas.
Nas conversas, a diretora diz esperar os "comandos do parlamentar" para seguir. As mensagens não deixam claro o contexto da conversa, mas a PF afirma se tratar de "possíveis obras em escolas estaduais".
"Júcia, continua aí do jeito que você tem que estar, tá ok? Tudo que acontecer dentro da regional eu quero saber. Já avisei ao Marcelo agora aqui, eu não tenho que dar satisfação a ninguém. Porque o deputado sou eu, a indicação é minha e quem manda sou eu", escreveu o deputado.


A decisão de Alexandre de Moraes decreta a prisão preventiva de sete pessoas, entre as quais estão Thiago Rangel Lima, Luiz Fernando Passos, Rui Bulhões e Júcia Gomes Figueiredo, a diretora regional.
A Alerj, em nota, diz que "está à disposição das instituições da república no que for necessário para colaborar no esclarecimento dos fatos. A Assembleia Legislativa reforça seu compromisso com a transparência e confiança no trabalho dos órgãos competentes".
Em nota, a defesa de Rangel disse que está se inteirando dos fatos e que o deputado nega quaisquer ilícitos.
"A defesa do deputado Thiago Rangel recebeu com surpresa a notícia da operação realizada na data de hoje. Neste momento, está se inteirando dos fatos, do teor da investigação e das medidas eventualmente determinadas, reafirmando desde logo a plena confiança nas instituições e no devido processo legal.
O deputado nega a prática de quaisquer ilícitos e prestará todos os esclarecimentos necessários nos autos da investigação."
O SBT News procura a defesa dos demais alvos da operação.









