Exclusivo: Vídeo de interrogatório mostra contradições de tenente-coronel acusado de matar esposa
Geraldo Neto alegação de que Gisele contou uma história confusa e cheia de detalhe contraditórios sobre a morte da soldado Gisele


Fabio Diamante
Robinson Cerantula
O SBT Brasil teve acesso exclusivo ao vídeo do interrogatório do tenente-coronel da Polícia Militar paulista, Geraldo Leite Rosa Neto, preso pelo feminicídio de sua esposa, a também policial Gisele Alves Santana. O depoimento foi prestado na última quarta-feira (20), em uma delegacia no centro de São Paulo, logo após a prisão do oficial.
Apesar da expectativa de alguns investigadores de que o tenente-coronel pudesse confessar o crime diante das provas apresentadas, o que se viu foi um homem frio, como descrito pelos policiais. Durante a oitiva, Geraldo Neto tentou sustentar a tese de que a esposa se suicidou, contando uma versão cheia de detalhes minuciosos, mas que se choca com evidências técnicas. Além disso, o oficial entrou em contradição com o seu próprio relato, em diferentes momentos.
Geraldo tentou convencer as autoridades de que Gisele teria tirado a própria vida, embora tenha admitido que ela nunca demonstrou sinais de depressão ou tendências suicidas.
"A Gisele nunca apresentou nenhum comportamento que suscitasse qualquer proposta suicida. Eu jamais imaginaria que ela seria capaz de tirar a própria vida, jamais", disse.
"Então, você a viu de dentro do box?", perguntou o interrogador.
"Sim, doutor, eu fiz isso na reconstituição. Ela caída no chão - foi colocada uma boneca lá no dia da reconstituição - uma boneca loira. Eu chorei bastante, inclusive nesse momento me veio a imagem exatamente como aconteceu na cabeça", conta o tenente-coronel.
Relacionamento de "estranhos" e gastos financeiros
Durante o interrogatório, o tenente-coronel negou ter um ciúme doentio pela esposa e afirmou que ele era quem desejava o divórcio. Ele descreveu uma rotina de distanciamento dentro da própria casa, reclamando inclusive dos custos financeiros da manutenção do lar.
"Eu tenho um gasto enorme aqui pra ficar vivendo essa subvida aqui que eu estou vivendo. Eu falei 'olha, eu te amo, você é uma pessoa maravilhosa, mas os gastos que nós estamos tendo aqui, vivendo como dois estranhos no apartamento, porque você dorme lá na suíte com a sua filha, eu saio pra trabalhar de manhã, você está dormindo, eu volto muitas vezes, você já está com ela no quarto trancado", relata.
Contradição sobre relação sexual
Um dos pontos cruciais do depoimento foi o momento em que o oficial recuou em sua versão inicial. Antes, ele afirmava que o casal não mantinha relações há meses, mas a perícia provou o contrário. Confrontado, ele admitiu um encontro íntimo horas antes da morte.
"No dia 17, a gente conversou, nos emocionamos, choramos ali abraçados, sentados no sofá, lembrando os momentos bons, nos beijamos, tivemos ali mesmo no sofá da sala uma relação sexual que ela estava só de camisola, e ali a gente fez, vou usar o termo 'fez amor pela última vez, daí quando terminou a relação sexual a gente foi dormir cada qual no seu quarto", conta o policial. Ele também afirmou nunca ter usado preservativos com Gisele.
O oficial, que em outros momentos se autodenominou um "macho alfa", também se queixou da falta de sexo citando seus níveis hormonais: "deu minha testosterona 939, sem fazer reposição hormonal. 939 é faixa etária de homem entre 16 e 21 anos. Imagina eu ali meses quase sem ter relação sexual".
A falha nos detalhes: a cueca e as câmeras
A tentativa de construir uma narrativa rica em detalhes acabou gerando contradições expostas pelas câmeras corporais dos policiais que atenderam a ocorrência.
Questionado sobre como se vestiu após encontrar o corpo, ele se confundiu. Primeiro disse que vestiu a bermuda sem colocar a cueca, mas as imagens das câmeras mostram que ele estava de cueca.
Marcas no pescoço e a tentativa de culpar a filha
Uma das principais provas da perícia são marcas de dedos no pescoço de Gisele, que indicam que ela foi esganada por trás antes de morrer. A explicação dada pelo tenente-coronel para as lesões causou espanto: ele sugeriu que as marcas poderiam ter sido causadas pela filha do casal, de apenas 7 anos e 18 quilos.
"O que eu posso afirmar pro senhor é que não fui eu que fiz. Daí minha suposição: sábado ela passou das 9h até 18h com a Giovana na feirinha oriental na Liberdade. Com certeza absoluta ela deve ter levado a Giovana no colo. trançava as pernas na cintura e apoiava as mãos no pescoço, mas era comum a Gisele levar a Giovana no colo. Nem unha eu tenho, eu roo unha".
"Falo com Deus"
Ao final do interrogatório, o homem que em mensagens de texto se descrevia para a esposa como um "rei, religioso, honesto, bonito e gostoso", focou em seu próprio sofrimento atual. Atrás das grades, ele afirma manter uma rotina de orações.
"Até agora eu não consigo acreditar, doutor. Eu faço minhas orações todo dia, eu falo com Deus, 'Deus como uma pessoa saudável, jovem, com a vida inteira pela frente, bonita sem nenhum defeito físico'. Até hoje eu não acredito como ela fez isso. Até hoje eu não consigo acreditar como a minha esposa tirou a própria vida", diz.
O caso segue sob investigação, com o oficial permanecendo detido à disposição da Justiça.









