"Transição precisa ser negociada", alerta especialista sobre futuro da Venezuela
Professor da UFF e Harvard afirma que captura de Maduro foi uma surpresa e que principal desafio agora é negociar uma saída para evitar guerra civil

Naiara Ribeiro
Após o ataque dos Estados Unidos à Venezuela na madrugada deste sábado (3), que terminou com a captura do presidente Nicolás Maduro, o professor Vitelio Brustolin, da UFF e pesquisador de Harvard, avaliou em entrevista ao News Sábado, do SBT News que o momento agora é de uma delicada transição de poder.
O ataque foi o ponto mais alto de uma escalada militar que cresceu durante 2025. Os EUA aumentaram sua presença no Caribe com navios de guerra, submarinos e bombardeiros, com a justificativa de combater o narcoterrorismo ligado a Maduro. A recompensa por informações sobre o líder venezuelano chegou a 75 milhões de dólares. Só neste ano, operações americanas apreenderam mais de 200 toneladas de drogas na região.
Sobre a ação desta madrugada, Brustolin disse que um ataque era esperado, mas a captura do ditador foi uma surpresa. “Todos esperávamos que haveria algum ataque à Venezuela, já que em dezembro o Trump anunciou isso, além da forte presença militar dos Estados Unidos na região. Mas foi uma surpresa que nesse primeiro ataque o Maduro tenha sido retirado do país, juntamente com sua esposa”, disse.
Para ele, o próximo passo é o mais difícil: “Parece ter sido uma operação cirúrgica porque não há informações de aeronaves ou soldados americanos abatidos. A partir dessa operação será necessária uma transição de poder na Venezuela e isso precisa ser negociado para que não se transforme numa situação de guerra civil”.
Risco de instabilidade e o poder dos militares
O professor alerta que a captura não acaba com o risco de instabilidade, pois o regime tem forte apoio nas Forças Armadas. “A insegurança existe porque o regime do Maduro se sustenta no poder das Forças Armadas. A Venezuela é um país com contingente de 340 mil militares. Isso é considerado muito”, comenta.
Segundo ele, a transição deve passar pela oposição que venceu as eleições do ano passado. Edmundo González, teve 67% dos votos mas não assumiu o controle do país.
Crise humanitária e refugiados
Brustolin comentou se há possibilidade de crise humanitária caso uma guerra civil se desdobre e os impactos na América Latina. “A Venezuela tem 28 milhões de habitantes e tem 8 milhões de refugiados, muitos deles espalhados pela América do Sul. Uma guerra civil na Venezuela seria uma tragédia para outros países da região”.
Sobre a chance de mais venezuelanos buscarem refúgio no Brasil, ele diz que “podemos sim ver mais refugiados venezuelanos no nosso território, por conta da fronteira. Mas a maior parte dos que estão no Brasil, quando perguntados sobre se voltariam à Venezuela caso o regime Maduro caia, responde que sim. Então pode haver impactos positivos no futuro para a região”.









