Marrocos: de colônia ao protagonismo, além do gramado
País une geopolítica, identidade e futebol para se firmar como potência emergente no cenário internacional

Achraf Hakimi, capitão da seleção e bicampeão da Champions League pelo Paris Saint-Germain | Reprodução/BBC News
Um país que se acostumou a surpreender o mundo. A primeira seleção africana a chegar a uma semifinal de Copa do Mundo. O Marrocos se apresenta, cada vez mais, como uma potência mundial. A afirmação pode parecer exagerada à primeira vista, já que não estamos falando de um país com o mesmo poder econômico ou militar de grandes protagonistas globais. Mas os fatos ajudam a explicar esse novo posicionamento.
Localizado entre África, Europa e o mundo árabe, Marrocos funciona como uma ponte geopolítica. Essa vantagem geográfica permite ao país atuar como intermediador em acordos comerciais e diplomáticos. Um diferencial que o coloca em posição cada vez mais relevante no cenário global.
Futebol e Ben Barek
Voltando ao futebol, em 2022, a seleção marroquina mostrou evolução tática e técnica ao eliminar Espanha e Portugal, chegando entre as quatro melhores do mundo. Um dos principais nomes dessa história é Larbi Ben Barek.
Conhecido como a “Pérola Negra”, Benbarek brilhou na Europa nas décadas de 1940 e 1950, atuando pelo Atlético de Madrid. O desempenho chamou atenção até de Pelé, que, segundo relatos da imprensa local, teria dito: “Se eu sou o rei do futebol, Ben Barek é o deus”. Durante boa parte da carreira, o atleta marroquino atuou pela seleção francesa, não por escolha, mas por contexto histórico. Na época, o Marrocos ainda vivia sob domínio colonial.

É importante entendermos esse contexto. Pela sua localização estratégica, o Marrocos foi alvo na chamada “corrida pela África”. No início do século 20, o país enfrentava instabilidade política e crise econômica, o que facilitou a interferência externa. Em 1912, o Tratado de Fez colocou oficialmente o Marrocos sob protetorado francês.
O país também teve domínio espanhol, em menor escala. Enquanto a França controlava cerca de 85% do território, concentrando poder político e econômico, a Espanha ocupava regiões estratégicas no norte e no sul.Esse controle não era apenas territorial, mas também cultural e social. A língua francesa ganhou força, modelos europeus foram impostos e a identidade marroquina passou por um processo de fragmentação.
Mesmo assim, houve resistência. Ao longo das décadas, surgiram movimentos que lutaram pela autonomia do país. Esse passado ajuda a explicar o presente. O Marrocos entendeu que o futebol fala uma linguagem universal e passou a utilizar o esporte como forma de afirmação política e cultural.
Escolha por Marrocos
Se no passado Ben Barek vestiu a camisa da França por falta de opção, hoje o cenário é diferente. A atual seleção marroquina é formada, em grande parte, por jogadores nascidos fora do país. São filhos e netos de marroquinos que cresceram na Europa, foram formados em grandes centros do futebol e escolheram defender o Marrocos.
É o caso de Achraf Hakimi, capitão da seleção e bicampeão da Champions League pelo Paris Saint-Germain. Nascido na Espanha, filho de pais marroquinos, é um dos principais nomes da equipe. O mesmo acontece com Brahim Díaz, meia-atacante do Real Madrid, também nascido na Espanha e com origem marroquina.
Esse movimento faz parte de um projeto da federação do país: buscar na diáspora talentos que não foram formados internamente no mesmo nível. O resultado é uma seleção mais forte tecnicamente, preparada e conectada às suas origens. Se antes o Marrocos perdia talentos para o mundo, hoje o mundo ajuda a formar seus jogadores.
O meia-atacante Zakaria Labyad resume essa mudança ao afirmar que a percepção global sobre o futebol marroquino mudou após os resultados recentes. Além do futebol, a identidade do povo é um ponto central. O país reúne diferentes grupos socioculturais, principalmente árabes e berberes. Essa diversidade não representa divisão, mas sim as camadas que formam o que é ser marroquino.
Com riqueza histórica, cultural e investimentos em infraestrutura e tecnologia, o Marrocos é hoje o país africano que mais recebe turistas. No esporte, os avanços continuam. O país investe no futebol feminino, com estruturação de ligas, incentivo às categorias de base e melhores condições para as atletas. Tudo isso faz parte de um projeto maior. O Marrocos será uma das sedes da Copa do Mundo de 2030.
O cenário mostra que o país não entra em campo como coadjuvante. Quer competir em alto nível e ocupar um espaço de destaque no cenário mundial.
















