Malvinas: a rivalidade que marcou Argentina x Inglaterra
Semifinal da Copa do Mundo de 2026 reacende uma das maiores rivalidades do futebol mundial que transcende o esporte; entenda o conflito
J
Antonio Souza, Joao Vitor Marliere
15/07/2026, 09:00 • Atualizado em 15/07/2026, 09:00
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Maradona comemora gol na Copa de 1986, e soldados argentinos durante a Guerra das Malvinas, em 1982 | Reuters / Wikimedia Commons
Quando Argentina e Inglaterra entrarem em campo nesta quarta-feira (15), pela semifinal da Copa do Mundo de 2026, o confronto carregará um peso histórico raro no esporte.
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Muito antes de Lionel Messi, Harry Kane ou da nova geração das duas seleções, o duelo passou a simbolizar uma rivalidade construída por uma guerra, disputas diplomáticas e um dos jogos mais emblemáticos da história das Copas do Mundo.
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Embora jogadores e dirigentes tenham reforçado que a partida deve ser encarada apenas como um evento esportivo, a disputa pelas Ilhas Malvinas, chamadas de Falkland Islands pelos britânicos, continua sendo um tema sensível nas relações entre Buenos Aires e Londres.
Onde ficam as Ilhas Malvinas?
As Ilhas Malvinas formam um arquipélago localizado no Oceano Atlântico Sul, a cerca de 500 quilômetros da costa da Patagônia argentina e a aproximadamente 13 mil quilômetros do Reino Unido.
O território é composto por duas ilhas principais — Malvina Oriental e Malvina Ocidental, além de centenas de pequenas ilhas. Atualmente, possui cerca de 3,5 mil habitantes e é administrado pelo Reino Unido como um Território Britânico Ultramarino.
A Ilha West Point é uma das Ilhas Malvinas, localizada a oeste da Ilha Malvina Ocidental | Foto: Wikimedia Commons
Ao longo dos séculos XVIII e XIX, franceses, espanhóis e britânicos estabeleceram diferentes ocupações nas ilhas. Após conquistar sua independência da Espanha, em 1816, a Argentina passou a considerar que herdou os direitos espanhóis sobre o arquipélago.
Em 1833, porém, forças britânicas retomaram o controle das ilhas e expulsaram as autoridades argentinas instaladas no local. Desde então, o Reino Unido exerce administração contínua sobre o território. Os dois países utilizam argumentos distintos para defender sua posição.
O Reino Unido sustenta sua soberania com base na administração contínua desde 1833 e no princípio da autodeterminação dos povos. Em 2013, um referendo realizado nas ilhas mostrou que 99,8% dos moradores votaram pela permanência como território britânico.
A Argentina, por sua vez, afirma que a ocupação britânica foi ilegal e defende que a soberania lhe pertence desde a independência do país. Buenos Aires também cita resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU), que incentivam negociações entre os dois governos para uma solução pacífica da controvérsia.
O episódio mais dramático dessa disputa ocorreu em 1982. Em 2 de abril daquele ano, a ditadura militar argentina ordenou a invasão das Malvinas com o objetivo de recuperar o território. A decisão também buscava fortalecer um governo enfraquecido por uma grave crise econômica e pelo crescente descontentamento popular.
A resposta britânica foi imediata. A então primeira-ministra Margaret Thatcher enviou uma força-tarefa naval ao Atlântico Sul para retomar o arquipélago.
Após 74 dias de conflito, as tropas argentinas se renderam em 14 de junho de 1982. Segundo dados amplamente aceitos, a guerra deixou 649 militares argentinos, 255 britânicos e três civis das ilhas mortos.
A derrota acelerou o fim da ditadura militar na Argentina, enquanto a vitória fortaleceu politicamente o governo Thatcher no Reino Unido.
O jogo de 1986 que entrou para a história
Maradona comemorando após marcar o "Gol do Século" em 1986 | Foto: Wikimedia Commons
Quatro anos depois da guerra, Argentina e Inglaterra se enfrentaram nas quartas de final da Copa do Mundo do México. A partida tornou-se um dos jogos mais famosos da história do futebol graças a Diego Maradona.
Primeiro, o camisa 10 marcou o controverso gol conhecido como "La Mano de Dios" ("A Mão de Deus"), ao tocar na bola com a mão antes de balançar as redes.
Poucos minutos depois, Maradona protagonizou o lance que muitos consideram o maior gol da história das Copas do Mundo, conhecido como o "Gol do Século". O argentino recebeu a bola ainda no campo de defesa, driblou cinco adversários e o goleiro Peter Shilton antes de balançar as redes.
A Argentina venceu por 2 a 1 e conquistaria posteriormente o seu segundo título mundial. Para muitos argentinos, aquela vitória ganhou um significado simbólico por acontecer apenas quatro anos após a Guerra das Malvinas, embora o próprio Maradona tenha dito, em diferentes ocasiões, que o jogo representava uma espécie de "vingança esportiva", e não militar.
Rivalidade apenas no esporte
Quarenta anos depois daquele duelo histórico, Argentina e Inglaterra voltam a se enfrentar em uma Copa do Mundo, agora pela semifinal da edição de 2026.
Jogadores, treinadores e até associações de veteranos da Guerra das Malvinas pediram que a partida seja tratada como um evento esportivo, sem alimentar tensões políticas.
Nesta terça-feira (14), o técnico da Argentina, Lionel Scaloni, minimizou o contexto político e afirmou que se trata apenas de um jogo de futebol.
"É uma partida de futebol, só isso. Portanto, misturar as duas coisas seria uma loucura", afirmou. "Lembramos daquelas pessoas, sem dúvida, mas esta é uma partida de futebol. Não devemos nos confundir quanto aos tempos em que vivemos", acrescentou o treinador.
Malvinas: a rivalidade que marcou Argentina x InglaterraSemifinal da Copa do Mundo de 2026 reacende uma das maiores rivalidades do futebol mundial que transcende o esporte; entenda o conflitoMundo2026-07-15T09:00:00.000ZQuando Argentina e Inglaterra entrarem em campo nesta quarta-feira (15), pela semifinal da Copa do Mundo de 2026, o confronto carregará um peso histórico raro no esporte. Muito antes de Lionel Messi, Harry Kane ou da nova geração das duas seleções, o duelo passou a simbolizar uma rivalidade construída por uma guerra, disputas diplomáticas e um dos jogos mais emblemáticos da história das Copas do Mundo. 📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! e siga o canal do SBT News. Embora jogadores e dirigentes tenham reforçado que a partida deve ser encarada apenas como um evento esportivo, a disputa pelas Ilhas Malvinas, chamadas de Falkland Islands pelos britânicos, continua sendo um tema sensível nas relações entre Buenos Aires e Londres. Onde ficam as Ilhas Malvinas? As Ilhas Malvinas formam um arquipélago localizado no Oceano Atlântico Sul, a cerca de 500 quilômetros da costa da Patagônia argentina e a aproximadamente 13 mil quilômetros do Reino Unido. O território é composto por duas ilhas principais — Malvina Oriental e Malvina Ocidental, além de centenas de pequenas ilhas. Atualmente, possui cerca de 3,5 mil habitantes e é administrado pelo Reino Unido como um Território Britânico Ultramarino. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, franceses, espanhóis e britânicos estabeleceram diferentes ocupações nas ilhas. Após conquistar sua independência da Espanha, em 1816, a Argentina passou a considerar que herdou os direitos espanhóis sobre o arquipélago. Em 1833, porém, forças britânicas retomaram o controle das ilhas e expulsaram as autoridades argentinas instaladas no local. Desde então, o Reino Unido exerce administração contínua sobre o território. Os dois países utilizam argumentos distintos para defender sua posição. O Reino Unido sustenta sua soberania com base na administração contínua desde 1833 e no princípio da autodeterminação dos povos. Em 2013, um referendo realizado nas ilhas mostrou que 99,8% dos moradores votaram pela permanência como território britânico. A Argentina, por sua vez, afirma que a ocupação britânica foi ilegal e defende que a soberania lhe pertence desde a independência do país. Buenos Aires também cita resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU), que incentivam negociações entre os dois governos para uma solução pacífica da controvérsia. + A Guerra das Malvinas O episódio mais dramático dessa disputa ocorreu em 1982. Em 2 de abril daquele ano, a ditadura militar argentina ordenou a invasão das Malvinas com o objetivo de recuperar o território. A decisão também buscava fortalecer um governo enfraquecido por uma grave crise econômica e pelo crescente descontentamento popular. A resposta britânica foi imediata. A então primeira-ministra Margaret Thatcher enviou uma força-tarefa naval ao Atlântico Sul para retomar o arquipélago. Após 74 dias de conflito, as tropas argentinas se renderam em 14 de junho de 1982. Segundo dados amplamente aceitos, a guerra deixou 649 militares argentinos, 255 britânicos e três civis das ilhas mortos. A derrota acelerou o fim da ditadura militar na Argentina, enquanto a vitória fortaleceu politicamente o governo Thatcher no Reino Unido. O jogo de 1986 que entrou para a história Quatro anos depois da guerra, Argentina e Inglaterra se enfrentaram nas quartas de final da Copa do Mundo do México. A partida tornou-se um dos jogos mais famosos da história do futebol graças a Diego Maradona. Primeiro, o camisa 10 marcou o controverso gol conhecido como "La Mano de Dios" ("A Mão de Deus"), ao tocar na bola com a mão antes de balançar as redes. Poucos minutos depois, Maradona protagonizou o lance que muitos consideram o maior gol da história das Copas do Mundo, conhecido como o "Gol do Século". O argentino recebeu a bola ainda no campo de defesa, driblou cinco adversários e o goleiro Peter Shilton antes de balançar as redes. A Argentina venceu por 2 a 1 e conquistaria posteriormente o seu segundo título mundial. Para muitos argentinos, aquela vitória ganhou um significado simbólico por acontecer apenas quatro anos após a Guerra das Malvinas, embora o próprio Maradona tenha dito, em diferentes ocasiões, que o jogo representava uma espécie de "vingança esportiva", e não militar. Rivalidade apenas no esporte Quarenta anos depois daquele duelo histórico, Argentina e Inglaterra voltam a se enfrentar em uma Copa do Mundo, agora pela semifinal da edição de 2026. Jogadores, treinadores e até associações de veteranos da Guerra das Malvinas pediram que a partida seja tratada como um evento esportivo, sem alimentar tensões políticas. Nesta terça-feira (14), o técnico da Argentina, Lionel Scaloni, minimizou o contexto político e afirmou que se trata apenas de um jogo de futebol. "É uma partida de futebol, só isso. Portanto, misturar as duas coisas seria uma loucura", afirmou. "Lembramos daquelas pessoas, sem dúvida, mas esta é uma partida de futebol. Não devemos nos confundir quanto aos tempos em que vivemos", acrescentou o treinador. São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/mundo/malvinas-a-rivalidade-que-marcou-argentina-x-inglaterra
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