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Leilão recorde: T.Rex é vendido por US$ 50 milhões

Entenda o mercado milionário de venda de fósseis de dinossauros

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Guilherme Latorre
15/07/2026, 09:00 • Atualizado em 15/07/2026, 09:00
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T.Rex leiloado por US$ 50 milhões | Reprodução/Sotheby's

T.Rex leiloado por US$ 50 milhões | Reprodução/Sotheby's

Nesta terça-feira (14), a casa de leilões Sotheby's vendeu um dos fósseis mais impressionantes já descobertos de um tiranossauro rex. E por um valor recorde: US$ 50,1 milhões — mais do que o dobro do estimado e o equivalente a quase R$ 255 milhões.

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O fóssil, apelidado de Gus em homenagem ao dono da fazenda onde foi encontrado, tem 67 milhões de anos, 60% dos ossos recuperados e, de acordo com a leiloeira, é um dos mais completos já descobertos nos Estados Unidos.

O valor é o maior já pago pelo esqueleto de um dinossauro e o primeiro a ultrapassar a marca de US$ 50 milhões (aproximadamente R$ 254 milhões). O recorde anterior era o de um estegossauro chamado Apex, vendido em 2024 por US$ 44,6 milhões (pouco mais de R$ 226 milhões). Esse montante faz parte de uma longa e milionária lista de comércio do que restou de alguns dos maiores animais que já caminharam sobre a Terra.

Para termos uma ideia do caminho que Gus fez até chegar ao martelo do leilão: ele foi descoberto em 2021, em uma fazenda no estado de Dakota do Sul, e escavado durante três verões seguidos (quando o clima permite o trabalho de campo). Em seguida, passou por mais três anos no laboratório sendo preparado.

Foi, literalmente, a descoberta de uma vida para os coletores:

"Eu cruzei a estrada, subi, e foi a primeiríssima coisa em que coloquei os olhos no primeiro dia. Eu vi o metatarso saindo do chão", disse Cole Jacobs no vídeo divulgado pela Sotheby’s.

A descoberta também permitiu entender algumas características do dinossauro. Especialistas notaram que o crânio de Gus apresentava marcas de mordidas. Essas marcas, combinadas com a descoberta de costelas que haviam sido quebradas e cicatrizadas enquanto o animal ainda estava vivo, revelam que Gus teve uma vida cheia de perigos. São lesões que foram potencialmente sofridas durante batalhas com outros dinossauros ou em momentos de disputa enquanto ele se alimentava de carniça.

A identidade do comprador não foi revelada e, por consequência, nem o seu destino.

O Debate Científico e o Mercado de Fósseis

O comércio de fósseis de dinossauros é muito controverso dentro do meio científico. Mas é preciso dizer que existem, sim, pontos positivos.

A iniciativa privada tem mais dinheiro do que as instituições de pesquisa. Escavar fósseis é um processo árduo, caro e demorado em áreas remotas. Como o número de paleontólogos acadêmicos no mundo é limitado, sem o trabalho de empresas comerciais, muitos dinossauros importantes poderiam nunca ser descobertos ou retirados do solo. O mercado pode, portanto, levar à descoberta de espécimes cientificamente valiosos e inéditos.

Mas o ponto importante a se destacar é: onde fica a ciência?

Quando os fósseis viram itens de coleção, cobiçados por celebridades, bilionários e fundos de investimento, o acesso à pesquisa pode ser muito prejudicado. Falta transparência sobre para onde esses fósseis são enviados depois dos leilões, e coleções particulares, muitas vezes, se tornam inacessíveis aos cientistas.

Estima-se que existam hoje mais fósseis de dinossauros nas mãos de colecionadores privados do que em instituições de pesquisa no mundo. Isso ocorre porque valores como o pago para arrematar o T. rex Gus são completamente impraticáveis para os museus entrarem no páreo.

Com isso, o conhecimento fica restrito. Os paleontólogos não conseguem estudar, por exemplo, as variações das espécies que existiram na Terra e perdem o contexto geológico dos locais onde foram encontrados. Isso sem contar o fomento ao comércio ilegal.

Legislação e Casos no Brasil

Países como o Brasil e a Mongólia são alguns dos poucos no mundo que proíbem o comércio de fósseis de dinossauros. Aqui no Brasil, qualquer fóssil encontrado pertence ao Estado, não importa onde.

Claro que isso não é livre de falhas. O país já perdeu diversos exemplares que foram levados ilegalmente para o exterior, tanto por outros pesquisadores quanto pelo tráfico de fósseis.

Um exemplo foi o Ubirajara jubatus, um dinossauro de 110 milhões de anos que foi descoberto na região da Bacia do Araripe, no Ceará. O fóssil foi levado ilegalmente para um museu na Alemanha nos anos 1990 e só voltou ao Brasil em 2023. A repatriação é considerada um marco na paleontologia brasileira.

Já nos Estados Unidos, onde Gus foi descoberto, o fóssil pertence ao dono da terra onde foi escavado. Por isso o comércio é tão frequente. Existem lugares, inclusive, em que você pode pagar para escavar fósseis de animais invertebrados.

A Origem do Fascínio

Mas de onde vem esse interesse por fósseis de dinossauros?

Há séculos cientistas descrevem animais que hoje são conhecidos como dinossauros. Eles já foram, inclusive, fontes de lendas e mistérios durante a Idade Média. Mas só foram plenamente compreendidos, da forma como os conhecemos hoje, por volta de 1840, pelo biólogo e paleontólogo britânico Richard Owen. Foi ele quem cunhou o termo Dinosauria, que significa algo como “réptil terrível”.

Vários pesquisadores se debruçaram sobre o assunto e, hoje, coleções inteiras de museus são provenientes do trabalho de colecionadores privados. Uma das mais famosas é a da paleontóloga Mary Anning, que dedicou a vida e sustentou a própria família pesquisando e coletando fósseis na costa da Inglaterra.

O interesse permaneceu o mesmo por muito tempo, sem grandes solavancos. Curiosamente, foi só em 1993, com o lançamento do filme Jurassic Park, de Steven Spielberg, que os dinossauros finalmente voltaram aos grandes holofotes.

O Dr. Cary Woodruff, curador de paleontologia de vertebrados no Museu de Ciências Phillip e Patricia Frost, resumiu bem a situação em uma entrevista ao Museu Britânico de História Natural:

“Não muito tempo atrás, caçadores ricos perseguiam grandes felinos porque era um símbolo de prestígio ter um tapete de leão em casa. Quando [o filme] Tubarão foi lançado, pescadores queriam as mandíbulas de um grande tubarão-branco na parede. E quando Jurassic Park foi lançado, todo mundo queria um T. rex na sala de estar.”

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