Ataque em escola no Canadá: O que falha antes de um atentado acontecer?
Especialista aponta para medidas preventivas de segurança e avaliação comportamental de alunos


Camila Stucaluc
O relato do professor brasileiro Jarbas Noronha que passou horas escondido com seus alunos durante o ataque na escola Tumbler Ridge, no Canadá, na última terça-feira (10), expôs mais do que o trauma de uma comunidade. O episódio trouxe à tona uma questão estrutural: escolas estão, de fato, preparadas para enfrentar situações de violência extrema?
Embora o debate público costume se concentrar no controle de armas de fogo e na resposta policial, Sebastien Florens, especialista internacional em detecção de explosivos e segurança preventiva, alerta que a prevenção começa muito antes da chegada das autoridades. Segundo ele, o principal problema está na ausência de cultura técnica permanente de segurança dentro das instituições.
“Em muitos casos, protocolos existem no papel, mas não passam por validação prática contínua. Segurança é um processo, não um documento arquivado”, pontua. “Lockdowns, rotas de evacuação, comunicação interna e definição clara de responsabilidades precisam ser treinados regularmente. A reação humana sob estresse só melhora com repetição orientada”, acrescenta o especialista.
Ele destaca que professores e funcionários administrativos são parte essencial desse sistema de proteção. Isso porque, embora o episódio no Canadá tenha envolvido arma de fogo, medidas preventivas complementares, como monitoramento comportamental, controle de acesso e equipes especializadas em detecção, podem reduzir significativamente riscos em diferentes tipos de ameaça.
“Além da capacidade técnica de identificação, há um efeito dissuasivo importante. Ambientes com segurança visível reduzem oportunidades”, afirma Florens. Ele ainda aponta para outras camadas de proteção, como cães treinados para detecção de explosivos, empregados em diversos países como camada adicional de proteção em locais de grande circulação.
Ainda assim, o especialista ressalta que não há solução isolada capaz de eliminar completamente o risco. Ele reforça, contudo, que as escolas devem adotar reformas estruturais duradouras no setor de segurança, e não apenas respostas emergenciais após um ataque.
“A segurança eficaz é construída em camadas. Tecnologia, treinamento, protocolo e cultura institucional precisam atuar juntos”, diz. “Segurança preventiva não é alarmismo nem militarização do ambiente escolar. É gestão de risco baseada em evidência. O que está em jogo não é apenas a resposta a um ataque, mas a construção de um ambiente onde vulnerabilidades sejam identificadas antes que se transformem em tragédia”, completa.
O ataque
O ataque a tiros na escola Tumbler Ridge, no Canadá, ocorreu na última terça-feira (10). A autora dos disparos, identificada como Jesse Van Rootselaar, de 18 anos, matou primeiro a mãe, de 39 anos, e o meio-irmão, de 11, na casa da família. Em seguida, foi até a instituição, onde assassinou uma professora de 39 anos, três alunas de 12 anos e dois estudantes, de 12 e 13 anos, antes de tirar a própria vida.
A motivação do crime ainda não foi esclarecida. Segundo autoridades, Van Rootselaar estudou na Tumbler Ridge, mas deixou a instituição há cerca de quatro anos. O primeiro-ministro da Colúmbia Britânica, David Eby, disse ainda que a jovem era conhecida pela polícia, uma vez que os agentes chegaram a atender ocorrências na casa da família devido à reclamações relacionadas à saúde mental.
O ataque entra para a lista dos mais letais da história canadense. Em 2020, um homem matou 22 pessoas na Nova Escócia após 13 horas de ataques. Já em 1989, no pior atentado escolar do país, um atirador assassinou 14 estudantes mulheres na Escola Politécnica de Montreal antes de tirar a própria vida.








