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André Ventura é de extrema-direita? Especialistas analisam candidato à presidência de Portugal

Especialistas ouvidos pelo SBT News explicam diferenças de pensamento entre direita radical populista e extrema-direita

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Vicklin Moraes
20/01/2026, 00:54 • Atualizado em 20/01/2026, 00:54
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André Ventura, líder do Chega | Foto: reprodução/Tiago Petinga

André Ventura, líder do Chega | Foto: reprodução/Tiago Petinga

A ascensão de André Ventura, candidato à Presidência de Portugal e líder do partido Chega, recolocou no centro do debate político a classificação ideológica do movimento que ele representa.

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Pela primeira vez em 40 anos, Portugal decidirá a eleição presidencial em segundo turno. Para cientistas políticos e especialistas em Relações Internacionais ouvidos pelo SBT News, há amplo respaldo acadêmico para enquadrar Ventura no campo da direita radical populista, inserida naquilo que a literatura define como ultra-direita.

Segundo os especialistas, a literatura clássica da ciência política, especialmente a sistematizada por Cas Mudde, define a ultra-direita como uma categoria guarda-chuva que reúne dois subgrupos principais: a direita radical populista e a extrema-direita.

A distinção central entre essas correntes está na relação com a democracia liberal. Enquanto a extrema-direita rejeita abertamente o regime democrático e mantém vínculos ideológicos diretos com o fascismo e o nazismo históricos, a direita radical populista adota uma postura tensionadora, buscando esvaziar ou reconfigurar a democracia por dentro, sem ruptura formal com o sistema.

Para o professor de Relações Internacionais e coordenador do Observatório da Extrema Direita, David Magalhães, o discurso de Ventura se estrutura a partir de três elementos centrais. O primeiro é o autoritarismo, expresso na ênfase recorrente em ordem, segurança pública e controle social, além da construção simbólica de uma liderança forte e moralmente superior.

“O segundo elemento é o ultranacionalismo, ou nativismo”, afirma o professor. Segundo ele, esse nacionalismo está ancorado numa concepção específica de identidade portuguesa, fortemente associada ao cristianismo, sobretudo católico, e integrada a uma narrativa de defesa da chamada civilização ocidental.

“Na prática, isso se traduz na rejeição de minorias, especialmente imigrantes muçulmanos, árabes e africanos do Magreb”, afirma Magalhães.

O terceiro eixo apontado pelo especialista é o populismo, baseado na oposição entre um suposto povo puro e elites corrompidas. Trata-se de um discurso antissistema que ocupa papel central tanto na atuação do partido Chega quanto na imagem pública de André Ventura.

Segundo o professor, “esses três elementos, autoritarismo, nativismo e populismo, permitem compreender de forma consistente como o Chega e André Ventura se inserem no campo da direita radical populista”, além de evidenciar a conexão com uma onda global da ultra-direita.

André Ventura, líder do Chega | Foto: reprodução/AFP
André Ventura, líder do Chega | Foto: reprodução/AFP

Avaliação semelhante é feita por Ana Carolina Marson, professora da Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais da FESPSP. Para ela, embora exista debate acadêmico sobre nomenclaturas, a retórica de Ventura apresenta características recorrentes da extrema direita contemporânea, como a construção de inimigos internos, ataques a minorias e uma narrativa de salvação nacional.

“Ele trabalha muito bem essa divisão entre o povo virtuoso e as elites corruptas”, afirma Marson. Segundo a professora, embora o populismo não seja um fenômeno novo, há uma dimensão contemporânea marcada pelo uso intensivo das redes sociais, o que amplia o alcance e o impacto do discurso.

Já Luiz Felipe Osório, professor de Relações Internacionais da UFRRJ, afirma que o crescimento de Ventura deve ser compreendido no contexto da crise econômica e política que atravessa Portugal desde 2008. Para ele, a defesa de um Estado forte aparece sobretudo no plano moral e retórico, já que, do ponto de vista econômico, Ventura adota posições liberais combinadas com autoritarismo institucional.

“A polarização ideológica e a culpabilização dos imigrantes são estratégias que encontram eco numa população empobrecida”, afirma Osório, destacando que o estrangeiro passa a ser visto como ameaça ao emprego e à renda.

Na mesma linha, o cientista político Paulo Ramirez e professor da ESPM, avalia que Ventura pode ser classificado como um político de extrema direita principalmente por suas posições contrárias aos direitos humanos, pela defesa de políticas migratórias severas e por propostas de concentração de poder institucional.

Para Ramirez, o discurso populista surge em um contexto de perda de direitos trabalhistas, transformações sociais profundas e conflitos culturais.

“É nesse cenário que aparece o resgate de valores como Deus, pátria e família”, afirma. Segundo ele, esse neopopulismo, impulsionado pelas redes sociais, busca construir a imagem de um “nós” homogêneo e moralmente superior, em oposição a grupos vistos como ameaçadores.

Os especialistas destacam que o fenômeno Ventura se insere numa onda transnacional da direita radical, com paralelos com lideranças como Marine Le Pen, Giorgia Meloni, Viktor Orbán e Donald Trump. Apesar das semelhanças, o Chega é um partido recente, fundado em 2019, sem vínculos diretos com o salazarismo, adaptando seu discurso às crises contemporâneas.

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