10 anos do Brexit: Reino Unido ainda sente separação da UE
Uma década depois de escolher sair da UE, britânicos sentem impacto na economia e imigração


Manifestantes marcham em Londres para marcar o 10º aniversário do voto do Brexit | Foto: Reuters - 20.06.2026
Há dez anos, em 23 de junho de 2016, os britânicos responderam a uma única pergunta. Na cédula do referendo que ficaria conhecido como Brexit, aparecia uma questão direta, acompanhada de apenas duas opções: “O Reino Unido deve permanecer membro da União Europeia ou sair da União Europeia?”.
O resultado foi apertado. A saída venceu com 51,9% dos votos, contra 48,1% favoráveis à permanência. Mas aquele pleito histórico marcou apenas o início de um longo e complexo processo de negociação sobre os rumos das futuras relações entre Londres e Bruxelas. A separação formal só ocorreu em janeiro de 2020, e o acordo comercial entre as partes foi concluído apenas no fim daquele ano.
O Reino Unido integrou o bloco europeu por quase meio século. Embora mantivesse uma relação ambivalente com a integração continental — recusando-se a aderir à Zona do Euro e permanecendo fora do espaço Schengen —, o rompimento de uma parceria tão longa dificilmente deixaria de produzir instabilidade política e turbulência econômica. Uma década depois, os efeitos ainda são sentidos.
A prmessa central do Brexit era que o Reino Unido retomaria o controle do próprio destino. A aposta na nostalgia como ferramenta política está longe de ser novidade, mas continua extremamente eficaz. O filósofo George Santayana já alertava, no início do século XX, que “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. Mais recentemente, Donald Trump mobilizou uma lógica semelhante ao transformar o slogan “Make America Great Again” em um dos pilares de sua trajetória política.
No caso britânico, a ideia era recuperar parte do protagonismo internacional das décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, quando Winston Churchill ainda apresentava o país como uma potência global. A narrativa, porém, ignorava a gradual redução da influência britânica diante de um mundo cada vez mais multipolar.
Para os defensores da saída, a União Europeia havia se transformado em um obstáculo ao crescimento e à soberania nacional. Boris Johnson, principal rosto da campanha pró-Brexit e futuro primeiro-ministro responsável por concluir a retirada do bloco, afirmava que a União Europeia se tornava “cada vez mais centralizadora, intervencionista e antidemocrática”. Aqueles favoráveis ao “Vote Leave”, movimento que tentava impulsionar britânicos a voltar pela saída do bloco, reclamavam que a limitação era tanta que até no tamanho das garrafas de azeite o Reino Unido precisava seguir regras.

A mensagem encontrou terreno fértil. O país ainda lidava com os efeitos da crise financeira de 2008, anos de austeridade fiscal e a perda de empregos industriais bem remunerados.
Nesse contexto, a imigração tornou-se um dos temas centrais do debate. Entre os defensores do Brexit, a promessa de reduzir a entrada de estrangeiros ganhou força. Dados do governo britânico mostravam que, em 2016, cerca de 650 mil pessoas chegaram ao país com a intenção de permanecer por mais de um ano. Desse total, 284 mil eram cidadãos da União Europeia, 289 mil vinham de outros países e 77 mil eram britânicos retornando ao território nacional.
Os números posteriores, no entanto, frustraram parte das expectativas dos eleitores favoráveis à saída. Segundo o Observatório de Migração da Universidade de Oxford, desde a entrada em vigor do sistema migratório pós-Brexit, em 2021, a migração líquida anual para o Reino Unido tem permanecido muito acima dos níveis observados antes do referendo. Em 2023, ela se aproximou de 950 mil pessoas, um recorde histórico, impulsionado sobretudo pela imigração de cidadãos de fora da União Europeia.
Uma das peças mais emblemáticas da campanha pró-Brexit foi um ônibus vermelho que percorreu o país estampando uma promessa repetida por Boris Johnson: a de que a saída da União Europeia permitiria redirecionar 350 milhões de libras por semana, antes enviadas a Bruxelas, para o Serviço Nacional de Saúde (NHS). O slogan sintetizava a ideia de que o Reino Unido contribuía excessivamente para o bloco europeu. O valor, no entanto, foi amplamente contestado por especialistas, que argumentavam que o cálculo ignorava benefícios recebidos pelos britânicos, transformando-se em um dos principais símbolos das acusações de desinformação e promessas exageradas durante a campanha.
Dez anos depois, os resultados econômicos não confirmaram as promessas mais ambiciosas dos defensores do Brexit. O crescimento potencial da economia perdeu dinamismo, o comércio com o continente tornou-se mais burocrático e diversos estudos estimam que o PIB britânico seja hoje entre menor do que seria caso o país tivesse permanecido no bloco. Paralelamente, o Reino Unido atravessou um período de intensa instabilidade política, com sucessivas trocas de primeiros-ministros desde 2016 – com a renúncia de Keir Starmer, nesta segunda-feira (22), após apenas dois anos no cargo, o país caminha para o sétimo.
As mudanças também chegaram ao cotidiano. Viajar para países da União Europeia passou a exigir novas verificações de fronteira; morar ou trabalhar no continente tornou-se mais complicado e programas de intercâmbio perderam alcance.
Não à toa, os britânicos parecem se arrepender. De acordo com uma pesquisa do YouGov, 57% acham que foi um erro votar pela saída da UE, incluindo 23% de eleitores que votaram pela saída. Seis em cada dez britânicos consideram o Brexit um fracasso. E mais da metade da população, 55%, dizem apoiar o retorno ao bloco, embora esse movimento permaneça distante da agenda política dos principais partidos.
Se havia a expectativa de que o Brexit inauguraria uma onda de desintegração europeia, a década seguinte produziu o efeito inverso: a União Europeia continua atraindo candidatos à adesão. Moldávia e Ucrânia avançam em seus processos de aproximação, enquanto os países dos Balcãs Ocidentais seguem no horizonte de expansão do bloco. E até mesmo nações historicamente cautelosas em relação à integração europeia, como Islândia e Noruega, permanecem como referências frequentes no debate sobre o futuro da Europa.















