Vorcaro mandou mensagens a Moraes sobre "tentar salvar" Master no dia em que foi preso pela primeira vez, diz jornal
Detido novamente nesta semana, banqueiro foi alvo de prisão em novembro do ano passado, na primeira fase da operação Compliance Zero, da PF


SBT News
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mandou mensagens de texto via WhatsApp para o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na data em que foi preso pela primeira vez, em 17 de novembro de 2025, no âmbito da operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF).
As informações foram reveladas pelo jornal O Globo.
Os diálogos indicam relação de proximidade dos dois e que Vorcaro compartilhava com o magistrado detalhes sobre as negociações para tentar salvar o banco.
Em nota, Moraes diz que "não recebeu essas mensagens referidas na matéria" e que "trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal".

O banqueiro foi detido novamente na quarta (4), na terceira fase da força-tarefa, por suspeita de atrapalhar investigações, monitorar e ameaçar opositores, jornalistas e ex-funcionários e corromper e cooptar servidores públicos do Banco Central (BC) para favorecer interesses do Master.
Dados de um celular de Vorcaro apreendido pela PF mostram diversas mensagens enviadas pelo empresário a Moraes, das 7h19 às 20h48 de 17/11/2025. O empresário foi preso no raio-x do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, no fim daquela noite, quando tentava embarcar em voo particular para Malta, na Europa.
Segundo o jornal, Vorcaro e Moraes adotavam a seguinte estratégia na conversa: escreviam no bloco de notas do celular, tiravam prints da tela e, depois, enviavam as imagens como mensagens usando recurso de visualização única.
Apenas as imagens printadas pelo banqueiro, acessadas por peritos no celular dele, estão disponíveis. Por isso, a investigação não pôde verificar conteúdos enviados pelo magistrado.
"Alguma novidade? Conseguiu bloquear?", questionou Vorcaro às 17h26. Não é possível saber o contexto da mensagem.

Iniciada de manhã, é possível entender que a conversa é sobre Vorcaro informando a Moraes da tentativa de compra do Master pelo Grupo Fictor, uma das várias instituições liquidadas extrajudicialmente pelo Banco Central (BC) na esteira da investigação sobre fraudes financeiras bilionárias.
Ele não cita o Fictor, no entanto.
Vorcaro falou que estava "tentando antecipar os investidores": "Tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte. E aí eu irei pra lá pra tentar assinatura dos demais investidores estrangeiros".
Na sequência, as mensagens do banqueiro mencionaram o BRB, outra instituição financeira que tentou comprar o Master e teve operação negada pelo BC.

"De um outro lado, acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhes. Mas a turma do BRB me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. E que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas lá. Se vazar algo, será péssimo, mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo."
Depois, ele pediu a Moraes: "Se tiver alguma novidade, vamos falar". O ministro respondeu às 8h16, com imagem de visualização única — que não foi recuperada até o momento por investigadores.
Com aprofundamento das investigações e a descoberta de que a chamada "Turma" de Vorcaro conseguiu acessar ilegalmente dados da PF, do Ministério Público Federal (MPF), da Interpol e do FBI, a Polícia Federal apurou que o banqueiro obteve informações do inquérito sigiloso a partir de um desses acessos ilegais a sistemas da própria corporação.
Os prints dos textos escritos por Vorcaro no bloco de notas usado para conversar com o ministro do Supremo foram enviados à CPMI do INSS. O material em posse do Congresso, porém, não é suficiente para confirmar que se trata de mensagens enviadas a Alexandre de Moraes.
O SBT News teve acesso a prints dos blocos de notas de Vorcaro exatamente com as mensagens citadas pelo O Globo na troca de mensagens com o ministro.
O jornal O Globo, no entanto, conseguiu ter acesso ao chat dos dois — mas sem conseguir ver, assim como a investigação, as mensagens do ministro, que eram de visualização única.
Vorcaro: "Acho que pode inibir"
Vorcaro e Moraes voltaram a conversar no fim da tarde, às 17h22. O Fictor anunciou a intenção de comprar o Master pouco antes das 18h de 17 de novembro, véspera da liquidação extrajudicial do banco de Vorcaro. A primeira fase da Compliance Zero também foi tornada pública pela PF em 18/11.
O empresário escreveu: "Fiz uma correria aqui pra tentar salvar. Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação". Quatro minutos depois, ele perguntou ao ministro: "Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?".
O Fictor anunciou a compra do Banco Master em comunicado à imprensa cerca de 30 minutos depois do envio da mensagem.

Moraes respondeu minutos depois, com imagens de visualização única. Vorcaro voltou a enviar mensagem pedindo informações três horas mais tarde: "Alguma novidade?". O ministro respondeu com mais dois prints.
Na última comunicação com Moraes a que a PF teve acesso, às 20h48, Vorcaro disse, sem deixar específico o assunto tratado: "Foi. Seria melhor na sexta junto com os gringos, mas foi o que deu pra fazer dentro da situação. Acho que pode inibir".
Vorcaro avisou no mesmo texto: "Amanhã começam as batidas do Esteves. Tô indo assinar com os investidores de fora e estou online". A referência nominal é a André Esteves, banqueiro do BTG Pactual. Moraes não respondeu diretamente à mensagem e se limitou a reagir com um "joinha".
As mensagens aprofundam possíveis laços entre Vorcaro e o ministro do STF. A esposa do ministro, a advogada Viviane Barci de Moraes, manteve contrato milionário com o Banco Master iniciado em 2024, com pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões ao escritório dela.









