'Drowned Lake': terror brasileiro inspirado em tragédias reais ganha força após enchentes no RS
Jogo brasileiro exposto durante a gamescom latam transforma tragédias reais em uma narrativa imersiva


Vinícius Gobira
O terror nacional tem encontrado novas formas de dialogar com a realidade, e Drowned Lake é um dos exemplos mais marcantes dessa tendência. Em entrevista durante a gamescom latam, o game designer Gustavo Henrique Ventura revelou como o jogo nasceu, evoluiu e passou a carregar ainda mais significado após eventos recentes no Brasil.
O projeto surgiu de forma despretensiosa, ainda em 2022, durante uma game jam. Segundo Gustavo, a ideia inicial rapidamente chamou atenção e abriu portas para uma parceria com a publisher Critical Reflex.
A proposta sempre foi criar algo profundamente brasileiro, mas sem explicitar isso diretamente. O jogo se passa no interior do Rio Grande do Sul, e a identidade nacional aparece nos detalhes. Elementos como arquitetura, postes de luz e até orelhões ajudam o jogador a reconhecer o cenário.
Mais do que ambientação, Drowned Lake nasce com uma intenção clara de abordar tragédias que marcaram o país. O desenvolvedor cita como referência o Rompimento da barragem de Brumadinho, destacando que o jogo retrata uma região devastada após o rompimento de uma barragem.
Impacto das enchentes no RS mudou a sensibilidade do desenvolvimento
Embora o desenvolvimento tenha começado oficialmente em 2023, a equipe enfrentou uma mudança significativa na forma de enxergar o projeto após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.
Gustavo explica que a estrutura do jogo não foi alterada, mas a experiência pessoal impactou diretamente a forma como ele foi construído.
Elementos do cenário passaram a ser baseados em vivências reais. Algumas estruturas foram modeladas a partir de referências diretas, incluindo a casa do avô do desenvolvedor, que foi atingida pelas enchentes. Fotos tiradas durante o período serviram como base para criar objetos e cenários dentro do jogo.
Essa proximidade com a realidade trouxe mais sensibilidade e peso emocional para o projeto.
Terror, mistério e narrativa fragmentada: o que esperar da experiência
Drowned Lake se apoia em dois pilares principais. O primeiro é o terror, com foco em criar tensão constante durante a exploração de um ambiente marcado por destruição e sofrimento.
A ambientação não busca ser bonita ou confortável. Pelo contrário, o jogador é colocado em um espaço carregado de histórias difíceis, onde cada elemento reforça a sensação de insegurança.
O segundo pilar é a narrativa. Em vez de contar a história de forma direta, o jogo incentiva o jogador a montar o quebra-cabeça por conta própria. Itens encontrados no lago, documentos e objetos espalhados pelo cenário ajudam a reconstruir os acontecimentos e entender quem foram as vítimas e os responsáveis pela tragédia.
Gustavo compara essa experiência a um livro ou filme de mistério, onde o envolvimento vem justamente da descoberta.

Influências: do terror indie ao cinema found footage
Entre as principais referências está Darkwood, conhecido pela atmosfera opressiva e pela abordagem de sobrevivência com câmera isométrica.
Além dos games, o projeto também bebe da fonte do cinema, especialmente do estilo found footage. Um exemplo citado é The Blair Witch Project, que ajudou a popularizar o chamado terror analógico.
Essa mistura de influências contribui para criar uma identidade única, combinando elementos clássicos do horror com uma narrativa profundamente enraizada na realidade brasileira.
Preço acessível e foco no público brasileiro
Apesar de a precificação ser definida pela publisher, a equipe brasileira tem defendido um valor acessível para o público nacional.
A ideia é garantir que jogadores brasileiros, especialmente aqueles que se identificam com o contexto do jogo, possam ter acesso facilitado à experiência, principalmente em plataformas como a Steam.
Sobre uma possível versão em mídia física, Gustavo demonstra interesse, destacando o valor que esse formato tem para colecionadores. No entanto, ele explica que essa decisão depende de fatores como custo e estratégia da publisher.
Caso aconteça, é mais provável que esse tipo de lançamento venha em plataformas como consoles da Nintendo, onde esse modelo ainda é mais comum.
Um convite para além do terror
Mesmo sendo um jogo de terror, Drowned Lake busca alcançar um público mais amplo. Gustavo reforça que a experiência vai além do medo, focando principalmente nos personagens e na história.
Ele próprio afirma que não era fã do gênero antes de trabalhar no projeto, mas acabou se envolvendo profundamente com o jogo durante o desenvolvimento.
A proposta é simples: dar uma chance à experiência e se deixar envolver pelo mistério e pela narrativa.
Com lançamento ainda cercado de expectativa, o jogo surge como um dos projetos promissores do cenário indie nacional, unindo atmosfera, narrativa e relevância social em uma proposta única.









