Vitória democrata acende alerta para data centers e IA
Bancos temem ofensiva regulatória nos EUA; Goldman Sachs estima que cerca de 45% da capacidade de expansão planejada no país seja afetada

Inteligência artificial (IA) | Pexels
A vitória expressiva dos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, as chamadas midterms, inicialmente foi recebida com otimismo pelos investidores. A conquista da maioria na Câmara e no Senado foi interpretada como um possível freio a mudanças bruscas na política econômica do presidente Donald Trump, reduzindo parte das incertezas sobre os rumos do país.
Um dia depois da reação positiva, o resultado eleitoral passou a alimentar outra preocupação em Wall Street: o risco de uma ofensiva regulatória contra a expansão dos data centers e da infraestrutura necessária para o desenvolvimento da inteligência artificial (IA).
O receio ganhou força na quinta-feira (5), quando as bolsas de Nova York registraram fortes perdas, lideradas pelas empresas de tecnologia. O Nasdaq despencou 5,52%, entrando em território de correção, enquanto o S&P 500 recuou 4,36% e o Dow Jones caiu 3,44%. A onda de vendas também atingiu outros mercados, incluindo a Bolsa brasileira, que fechou em baixa de 0,82%.
A mudança de humor ocorreu depois de uma sessão de fortes ganhos na quarta-feira, 4. Naquele dia, o avanço democrata, chamado de "onda azul", impulsionou os índices americanos: o Dow Jones subiu 3,03%, o S&P 500 avançou 1,58% e o Nasdaq ganhou 1,44%. No Brasil, o Ibovespa interrompeu uma sequência de seis pregões de queda e avançou 1,23%, aos 167.563 pontos.
A avaliação inicial era de que a nova configuração do Congresso poderia dificultar iniciativas unilaterais de Trump e trazer maior previsibilidade à condução da política econômica. O problema, na avaliação dos investidores, é que o resultado também fortaleceu políticos que fizeram campanha defendendo regras mais rigorosas para os data centers, empreendimentos que se tornaram fundamentais para a expansão da IA.
A preocupação não é necessariamente com a aprovação de uma lei federal que impeça a construção dessas instalações. O risco mais imediato está nos governos estaduais e municipais, que têm poder para interferir no licenciamento dos projetos, estabelecer exigências ambientais e energéticas e até suspender temporariamente novas construções.
Em relatório sobre o resultado eleitoral, o Goldman Sachs chama a atenção justamente para essa diferença entre as esferas de governo. "No âmbito federal, o resultado tem menor probabilidade de alterar as perspectivas para a regulação de centros de dados e da inteligência artificial (IA), que ainda dependeria de apoio bipartidário para ser aprovada no Senado e superar um eventual veto presidencial", avalia o banco.
Já nos níveis estadual e municipal, a expectativa é de mudanças mais concretas. O Goldman estima que as vitórias democratas podem levar à adoção de moratórias temporárias para a construção de centros de dados, afetando aproximadamente 45% da expansão planejada da capacidade desses empreendimentos nos Estados Unidos. Apenas o Texas responde por cerca de 25% desse total.
O que os democratas podem mudar nos data centers?
O Texas é um dos principais focos de atenção dos investidores. A democrata Gina Hinojosa venceu a disputa pelo governo estadual, depois de fazer campanha com propostas para restringir a expansão dos centros de dados. Os democratas também conquistaram uma vaga na Comissão Ferroviária do Texas, órgão estadual envolvido na regulação de atividades relacionadas à energia.
Segundo análise do UBS BB, Hinojosa terá controle executivo e administrativo sobre as agências estaduais, o que lhe permitirá emitir determinações para suspender ou desacelerar processos de licenciamento e análise de instalações que aguardam aprovação.
A possibilidade de tornar essas restrições permanentes, porém, enfrenta um obstáculo político: os republicanos continuam controlando o Legislativo estadual. Para transformar eventuais medidas temporárias em regras definitivas, será necessária a aprovação de uma legislação.
Ainda assim, a combinação entre o resultado eleitoral e a insatisfação de parte da população com a expansão desses empreendimentos pode abrir espaço para mudanças.
O Goldman Sachs também destaca as vitórias democratas nos governos do Texas, da Geórgia e de Michigan, estados nos quais os novos governadores podem adotar moratórias condicionais, suspendendo novos projetos até a aprovação de regras mais restritivas.
Entre as medidas em discussão estão a eliminação de determinados incentivos fiscais, o endurecimento das exigências ambientais e a criação de regras mais rigorosas para o consumo de eletricidade e água. Também poderia haver maior facilidade para que governos municipais estabeleçam suas próprias moratórias.
O impacto potencial é relevante porque esses estados concentram uma parcela expressiva dos investimentos planejados para a construção de novos data centers. Na estimativa do Goldman Sachs, as regiões em que os democratas provavelmente ampliarão as restrições representam aproximadamente 45% da capacidade de expansão prevista para os Estados Unidos.
O movimento, contudo, não começou com as eleições. A resistência à instalação de novos empreendimentos já vinha crescendo entre comunidades locais, principalmente por causa da demanda elevada por recursos naturais e dos possíveis efeitos sobre as contas de energia.
De acordo com dados citados pelo UBS BB, desde janeiro de 2013, governos locais anunciaram 529 moratórias sobre a construção de data centers, com forte aceleração em 2026. No momento da elaboração do relatório, dibvulgado nesta semana, 415 dessas restrições continuavam em vigor.
Conta de luz e consumo de água estão no centro da disputa
Um dos principais pontos de atrito é a distribuição dos custos da expansão dos data centers. Essas instalações demandam grandes volumes de eletricidade, tanto para alimentar os equipamentos que processam informações quanto para manter os sistemas de refrigeração em funcionamento.
O temor é que a necessidade de ampliar a geração e a transmissão de energia para atender aos novos empreendimentos acabe sendo repassada aos demais consumidores, pressionando as contas de luz de famílias e empresas.
Essa discussão já chegou ao Congresso americano. Um exemplo é o Ratepayer Protection Act, projeto que prevê que reguladores estaduais de serviços públicos e concessionárias considerem regras para que grandes consumidores, como os centros de dados, arquem com os custos adicionais de geração e transmissão de eletricidade e das melhorias necessárias na rede.
A proposta foi aprovada com ampla maioria na Câmara dos Representantes, por 417 votos a 3, mas não conseguiu alcançar os 60 votos necessários no Senado. O texto recebeu 57 votos favoráveis e 43 contrários. Senadores democratas defendiam mecanismos mais rigorosos de fiscalização.
Para o UBS BB, a discussão pode ganhar força com a nova composição do Congresso. O banco destaca que propostas alternativas poderiam exigir que os centros de dados paguem pelas melhorias na rede elétrica, divulguem seu consumo de recursos e forneçam sua própria energia, inclusive recorrendo a fontes renováveis.
A questão também envolve o uso da água e as exigências ambientais para a instalação dos empreendimentos. No Texas, por exemplo, uma das prioridades da nova administração estadual é rever incentivos fiscais e tornar mais rigorosas as condições para a expansão dessas estruturas.
O Goldman Sachs avalia que as moratórias temporárias podem ser uma das primeiras consequências das mudanças políticas nos estados. O banco ressalta, porém, que os centros de dados não estiveram entre as principais prioridades dos eleitores na eleição e que, por isso, as restrições podem perder força nos próximos meses.
Por que isso preocupa tanto o mercado?
Os data centers são uma peça central do ciclo de investimentos em inteligência artificial. São essas instalações que abrigam os servidores, processadores e equipamentos necessários tanto para treinar modelos de IA quanto para executar as aplicações utilizadas por empresas e consumidores.
A construção dessas estruturas exige investimentos elevados e depende de uma série de condições, como disponibilidade de energia, acesso à água, terrenos, infraestrutura de transmissão e licenças ambientais. Qualquer obstáculo nesses processos pode atrasar projetos, elevar custos e comprometer a expansão da capacidade computacional.
É justamente essa perspectiva que preocupa os investidores. Se a construção de novos centros de dados ficar mais lenta ou mais cara, as grandes empresas de tecnologia poderão ter de rever seus cronogramas de investimento, o que afetaria também as companhias que fornecem os equipamentos e componentes utilizados nessas instalações.
O relatório da XP Investimentos destaca que o mercado já vinha acompanhando os riscos relacionados à infraestrutura de IA, mas avalia que o impacto das eleições pode ser mais relevante em um horizonte mais longo.
"Demanda de 2027 já em obra; risco maior em 2028", afirma a XP ao avaliar o segmento de semicondutores. Para os hyperscalers — grandes empresas de tecnologia que operam serviços em escala global e investem na construção de centros de dados —, a corretora também chama a atenção para a importância da capacidade já instalada: "Capacidade pronta vale mais; estados limitam obras".
A leitura da XP é que o impacto projetado sobre os investimentos no curto prazo ainda é limitado. Isso porque muitos projetos já estão em andamento e a construção de novos empreendimentos envolve prazos longos. As restrições estaduais, portanto, teriam maior potencial para afetar a capacidade de expansão a partir de 2028 do que a oferta prevista para 2027.
O UBS BB também considera que os centros de dados continuarão sendo construídos, embora reconheça que os atrasos já fazem parte da realidade dos projetos. Na avaliação do banco, uma restrição federal ampla é difícil de ser aprovada, especialmente porque a Casa Branca tem se posicionado contra medidas mais rigorosas para o setor.
O banco também observa que a expansão pode migrar para outras regiões do país, especialmente áreas centrais, onde há maior disponibilidade de energia e oportunidades de utilização de baterias para reduzir os picos de demanda. O acesso à infraestrutura de gasodutos também pode favorecer projetos em determinadas localidades.
As grandes empresas de tecnologia, por sua vez, já começaram a responder à resistência das comunidades. O UBS BB cita como exemplo a Microsoft, que publicou em janeiro seu compromisso com as comunidades onde instala centros de dados, o Data Center Community Pledge, estabelecendo diretrizes para esses empreendimentos.
Regulação da IA também entra no radar
Além das regras para a construção das instalações, os investidores acompanham a possibilidade de uma supervisão mais rigorosa sobre o desenvolvimento e a utilização da própria inteligência artificial.
O UBS BB destaca que senadores democratas apresentaram propostas para estabelecer uma supervisão federal obrigatória da tecnologia, como o Artificial Intelligence Risk Management and Security Act de 2026. Há também iniciativas mais restritivas, como o Ban Artificial Superintelligence Act, que prevê uma pausa no desenvolvimento de sistemas avançados de superinteligência.
Ainda não existe, porém, consenso entre democratas e republicanos sobre o modelo de regulação que deveria ser adotado. Enquanto parte dos parlamentares defende regras obrigatórias, a administração Trump tem priorizado uma abordagem voluntária, voltada à promoção da inovação e da segurança no desenvolvimento de IA.
Para os centros de dados, a discussão é relevante porque qualquer restrição à implementação e à utilização de modelos de inteligência artificial pode reduzir a necessidade de capacidade computacional destinada ao treinamento e à execução dessas tecnologias.
Na avaliação do UBS BB, a ausência de consenso bipartidário dificulta a aprovação de uma estrutura regulatória federal mais abrangente. Isso não elimina, entretanto, a possibilidade de avanços em legislações específicas, especialmente em temas relacionados à segurança e à proteção de dados.
Queda também reflete dúvidas sobre retorno dos investimentos em IA
Apesar do peso da discussão regulatória, a reação negativa de Wall Street não pode ser explicada exclusivamente pelo resultado das eleições. O mercado também vem demonstrando preocupação com o retorno dos investimentos bilionários que as empresas de tecnologia estão direcionando à inteligência artificial.
A questão é se o crescimento da demanda por IA será suficiente para justificar os gastos com semicondutores, servidores, energia e infraestrutura. Nesse cenário, a possibilidade de atrasos na construção de centros de dados acrescenta uma camada de incerteza a um ciclo de investimentos que já está sob escrutínio dos investidores.
Para Marcelo Lima, sócio da Valor Investimentos, a queda de quinta-feira refletiu justamente a combinação dessas duas preocupações.
"O dia começa sob o peso de Wall Street. Na quinta, as bolsas americanas tiveram a maior queda em um dia desde abril de 2025. A Nasdaq caiu 5,5%. Há dois motivos: a dúvida sobre o retorno dos gastos com inteligência artificial e o medo de regras mais duras para o setor depois da vitória democrata nas eleições legislativas", afirma.
Nesta sexta-feira (6), parte das perdas começou a ser recuperada. Segundo Lima, o Nasdaq registrava alta de aproximadamente 1,5% pela manhã, puxado pelas ações da Nvidia, Micron e AMD.
Para a XP Investimentos, o resultado das eleições não altera de forma significativa suas principais teses para as ações americanas. A corretora pondera que, embora o fator legislativo seja importante, ele não é determinante para o desempenho do mercado. "Lucros, juros e o ciclo de investimentos em IA seguem na vanguarda das preocupações do mercado", afirma o relatório.
A instituição também mantém uma visão construtiva para o S&P 500 e para a inteligência artificial, tratando o risco relacionado aos centros de dados como um fator a ser administrado, e não como uma mudança estrutural imediata na perspectiva para o setor.
A avaliação é que o efeito das eleições sobre a infraestrutura de IA dependerá, sobretudo, de como as promessas de campanha serão transformadas em medidas concretas nos estados. Até lá, os investidores terão de acompanhar não apenas a demanda por inteligência artificial e o retorno dos investimentos das grandes empresas de tecnologia, mas também a capacidade de construir a infraestrutura necessária para sustentar esse crescimento.















