Trump afastou investidores do dólar, dizem economistas em Davos
Para especialistas, interferência no Fed e riscos institucionais nos EUA ampliam busca por alternativas como ouro e moedas digitais


Exame.com
Para economistas reunidos no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tornou-se um fator de instabilidade para o dólar ao colocar em xeque a independência do Federal Reserve (Fed).
Segundo o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kenneth Rogoff, o movimento atual não representa o fim do dólar, mas um processo de enfraquecimento gradual que ganhou velocidade com Trump. "O dólar só colonizou o mundo todo depois da crise global e teve seu pico em 2015. Desde então, por várias medidas, ele tem caído. Trump acelerou a desdolarização", disse.
Rogoff destacou que mudanças desse tipo não acontecem de forma abrupta. "Não será o fim do mundo de um dia para o outro. Essas coisas levam tempo", afirmou. Ainda assim, ele vê sinais claros de desgaste institucional. "É uma das muitas coisas que indicam uma queda na confiança nas instituições americanas e que terão efeitos de longo prazo."
Segundo Rogoff, o uso do poder financeiro e militar dos EUA para influenciar sistemas como o SWIFT levou outros países a buscar alternativas. "Países como a China estão aprendendo a construir seus próprios sistemas." Para ele, isso também funciona como um alerta para a Europa. "Nunca vi os europeus tão bravos. É um wakeup call."
A avaliação predominante para os economistas é que, ao misturar política econômica com objetivos eleitorais, Trump acelera um processo já em curso de perda gradual de confiança na moeda americana.
"Parte da confiança no câmbio de um país vem da confiança de que a moeda continuará estável e de que a política econômica não será afetada pelo governo", afirmou Jeffry Frieden, professor de Harvard. "O que vemos agora é uma ameaça muito grande à independência do Fed, e isso contribui para a erosão da confiança no dólar."
Stablecoins podem ser alternativa
Para Kristin J. Forbes, professora no MIT's Sloan School of Management, a percepção de risco é reforçada pelo ambiente inflacionário nos Estados Unidos.
"Uma das maiores preocupações dos americanos hoje é a inflação, e Trump, com uma possível interferência no Fed, está indo contra isso", disse.
Segundo ela, o avanço tecnológico também amplia o leque de alternativas. "A tecnologia está criando opções muito animadoras, como as stablecoins. O que não sabemos ainda é qual será adotada."
Nesse contexto, manter reservas em dólar passou a ser visto como um risco de alto custo. "As pessoas não querem mais pagar caro para ter reservas em dólar", afirmou Forbes.
Dimon defende o Fed
Mais cedo em Davos, o CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, reforçou a importância da autonomia do banco central americano. "Todos que eu conheço, inclusive o presidente Trump, dizem que devemos ter um Fed independente — isso é crítico", afirmou.
A declaração ocorre no momento em que a Suprema Corte dos EUA analisa a tentativa de Trump de demitir a diretora do Fed Lisa Cook, em um caso considerado decisivo para definir até onde vai à proteção institucional do banco central.
Dólar segue central, mas confiança se fragmenta
Apesar das críticas, os próprios economistas reconhecem que o dólar continua sem um substituto claro.
Ele ainda domina as transações cambiais globais e os sistemas de pagamento internacionais. O que está em curso, segundo eles, não é uma substituição direta, mas uma marginalização progressiva em regiões específicas e uma diversificação maior de reservas, sobretudo em direção ao ouro e a arranjos bilaterais.
"O dólar era bom para todo mundo", disse Rogoff. "E, no curto prazo, não é como se você estivesse correndo para o euro. O que acontece é que você procura outros ativos, como ouro, para colocar seu dinheiro."
Em Davos, a leitura é que o debate sobre o futuro do dólar deixou de ser apenas econômico e passou a ser institucional.
Para os especialistas, enquanto persistirem dúvidas sobre a independência do Fed e a previsibilidade da política americana, a confiança na moeda dos Estados Unidos continuará sob pressão — ainda que sua hegemonia permaneça intacta no curto prazo.









