"Não contamos com desabastecimento de diesel", diz presidente da Petrobras
Magda Chambriard afirma que estatal e governo federal atuam com subsídios, importação e aumento da produção para conter riscos de alta do diesel


Exame.com
Em meio à escalada de tensões no Oriente Médio e à volatilidade no preço do petróleo, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirma em entrevista exclusiva à EXAME que o Brasil não deve enfrentar falta de diesel, e que há uma estratégia coordenada com o governo federal para evitar impactos mais severos no bolso do consumidor.
“Não estamos contando com desabastecimento. A Petrobras é capaz de fornecer e garantir que esse desabastecimento não ocorrerá, é claro, com algum tipo de importação complementar”, diz a presidente.
A avaliação ocorre em um cenário global ainda instável. Segundo Chambriard, o conflito envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel agravou uma cadeia de eventos que já vinha pressionando o mercado desde a guerra entre Rússia e Ucrânia, elevando custos, desorganizando cadeias produtivas e pressionando preços.
Apesar disso, o Brasil ocupa hoje uma posição mais confortável do que em crises anteriores. “Na década de 70, o Brasil importava petróleo. Hoje é um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, e a Petrobras responde por cerca de 70% do diesel produzido internamente”, afirma.
Estratégia para evitar falta de diesel
Para garantir o abastecimento, a companhia aposta em três frentes: aumento da capacidade de refino, importações complementares e ampliação da produção nacional no médio prazo.
Segundo a presidente, há projetos para elevar a participação da Petrobras no fornecimento de diesel no país de 70% para 85%, além de estudos para atingir até 100% da demanda nacional em cinco anos.
“Estamos estudando como é que a gente faz face à sensibilidade geopolítica que esse produto apresentou agora, que é sobre a nossa capacidade de fornecer, sim, 100% do diesel consumido em território nacional”, afirma.
Governo amplia subsídios e mercado começa a aderir
Além da atuação da Petrobras, o governo federal tem adotado medidas para conter o impacto da alta internacional no mercado doméstico, especialmente por meio de subsídios ao diesel importado. Uma das principais ações foi a ampliação do programa de subvenção, que passou a oferecer um incentivo maior por litro importado, como forma de evitar repasses imediatos ao consumidor.
Nesse contexto, a Vibra Energia, maior distribuidora de combustíveis do país, que comprou a BR Distribuidora da Petrobras em 2019, anunciou que pretende aderir ao programa já em abril.
A entrada da Vibra ocorre poucos dias após o governo reforçar o pacote de subsídios, em meio à pressão internacional sobre os preços de energia. Até o momento, no entanto, a distribuidora é a única entre as grandes do setor a confirmar adesão imediata.
O avanço da medida também enfrenta questionamentos. Uma decisão recente da Justiça Federal suspendeu, para cinco petroleiras, a cobrança de um imposto sobre exportação de petróleo, outro instrumento do pacote, o que pode reduzir o alcance das ações adotadas pelo governo.
Política de preços busca estabilidade
Outro pilar da estratégia é a política de preços da Petrobras, que a presidente chama de “estratégia de preço”, a qual é baseada no não repasse imediato da volatilidade internacional.
“A estratégia de preço da Petrobras é baseada no não repasse da volatilidade dos preços dos combustíveis ao consumidor final”, afirma Chambriard.
A estatal, segundo a presidente, abandonou reajustes frequentes e passou a trabalhar com médias e tendências, numa tentativa de reduzir a pressão inflacionária em um país altamente dependente do transporte rodoviário.
“Se o preço estiver subindo, a gente sobe. Se estiver descendo, a gente desce, mas num intervalo razoável para garantir estabilidade”, diz a presidente.
Pressão está fora da refinaria
Apesar dos esforços para conter os preços na origem, a presidente chamou atenção para o avanço das margens na distribuição e revenda.
Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), segundo ela, mostram que essas margens chegaram a subir mais de 150% em um curto período, o que ajuda a explicar por que o consumidor final nem sempre percebe os efeitos dos subsídios.
"A última vez que nós aumentamos o diesel fazia 400 dias. Aumentamos 38 centavos, o governo subsidiou 32 centavos e, contando com a mistura de biodiesel, deveria chegar tão somente 2 centavos ao consumidor final. Mais do que isso é aumento de margem da distribuição e revenda".
Combustível como ativo estratégico
Para Chambriard, a atuação da Petrobras vai além do resultado financeiro e envolve também um papel estratégico para o país, especialmente em momentos de crise.
“Nós não vamos passar a imagem para a sociedade de estar nos aproveitando de momentos delicados de crise e de impacto inflacionário", diz a presidente. “Que o brasileiro enxergue como uma empresa parceira do desenvolvimento nacional e parceiro do seu bolso.”
A combinação entre subsídios, política de preços e aumento da produção, segundo ela, busca equilibrar esse papel: garantir abastecimento, conter a inflação e preservar a imagem da estatal como agente de estabilidade econômica.









