MDIC: acordo entre Mercosul e Índia não deve avançar em 2026
Ministro destaca complexidade na conciliação de interesses; declaração ocorre após acordo entre ApexBrasil e indústria indiana

Ministro Márcio Elias Rosa durante coletiva | Foto: Júlio César Silva/MDIC
A ampliação do acordo de preferências tarifárias entre Mercosul e Índia dificilmente será concluída ainda em 2026, afirmou nesta quinta-feira (27) o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa.
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O governo brasileiro pretende aumentar significativamente o alcance do entendimento atual, limitado a cerca de 450 linhas tarifárias, mas considera que a negociação exigirá mais tempo para conciliar interesses dos dois lados.
“Realisticamente falando, eu acho que é pouco provável que [seja concluída] nesse ano [...] porque essa é uma discussão demorada, não é simples”, disse Elias Rosa.
Segundo o ministro, Brasil, Mercosul e Índia já possuem algum grau de integração produtiva, mas uma expansão do acordo precisa levar em consideração questões consideradas sensíveis pelas partes.
Entre elas estão a segurança alimentar, tratada como prioridade pelo governo indiano, e o interesse brasileiro em aumentar a agregação de valor à produção nacional. “Nós precisamos sentar e discutir por onde nós vamos expandir”, afirmou.
As declarações foram dadas após a assinatura de um memorando de entendimento entre a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e a Confederação das Indústrias Indianas (CII), em Brasília. O documento cria uma estrutura de cooperação para troca de informações de mercado, promoção de feiras, internacionalização de pequenas e médias empresas e desenvolvimento de projetos voltados à atração de investimentos e à facilitação de negócios entre os dois países.
A delegação indiana presente no encontro reuniu representantes de companhias como UPL e Kirloskar Brothers, além da CII e do Export-Import Bank of India. A agenda em Brasília também inclui contatos com entidades empresariais brasileiras e órgãos do governo para apresentar oportunidades de concessões, infraestrutura e investimentos.
Negociação continua nesta semana
Apesar de considerar improvável a conclusão da ampliação do acordo ainda neste ano, Elias Rosa afirmou que as discussões continuam imediatamente. Segundo ele, estão previstas reuniões técnicas e políticas, inclusive uma conversa nesta sexta-feira (28) entre a secretária de Comércio Exterior do MDIC, Tatiana Prazeres, e representantes indianos.
A pauta inclui convergência regulatória, adequação de padrões em setores como o farmacêutico e a própria ampliação do acordo entre Mercosul e Índia. O ministro ponderou, porém, que essas reuniões ainda não deverão resultar em decisões definitivas e servirão principalmente para esclarecer as posições de cada lado.
A tentativa de ampliar o acordo faz parte da estratégia do governo Lula (PT) de diversificar os destinos das exportações brasileiras em meio ao esforço para reduzir a dependência de mercados específicos, especialmente após as barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos.
A Índia ganhou peso nessa estratégia pelo tamanho e pelo ritmo de expansão de sua economia, que cresceu 7,7% em 2025, quando o país alcançou um Produto Interno Bruto (PIB) nominal de US$ 4,1 trilhões e se consolidou como a quinta maior economia do mundo. Com cerca de 1,5 bilhão de habitantes, o mercado indiano registrou ainda consumo interno de US$ 2,9 trilhões e figurou como o oitavo maior importador mundial.
Segundo dados do MDIC, a corrente de comércio entre Brasil e Índia alcançou o recorde histórico de US$ 15,2 bilhões em 2025, resultado de US$ 6,9 bilhões em exportações brasileiras e US$ 8,4 bilhões em importações de produtos indianos, o que deixou um déficit de US$ 1,5 bilhão para o Brasil.
Além disso, as vendas brasileiras ao mercado indiano cresceram, em média, 9,4% ao ano entre 2021 e 2025, acima da expansão média de 5,6% das exportações totais brasileiras no mesmo período.
Apesar desse avanço, o Brasil ainda ocupa uma fatia pequena do mercado indiano, aparecendo como o 26º maior fornecedor do país, com participação de apenas 0,8% em 2024. Em sentido contrário, a Índia já ocupava em 2025 a décima posição entre os principais destinos das exportações brasileiras, o que, na avaliação do governo, demonstra tanto o avanço recente da relação quanto o espaço existente para ampliar as vendas.
A pauta brasileira de exportações é concentrada em poucos produtos de pouco valor agregado. Óleos brutos de petróleo lideraram as vendas à Índia em 2025, com US$ 1,94 bilhão e participação de 28,3%.
Em seguida, aparecem
- açúcares e melaços, com US$ 1,08 bilhão (15,7%);
- gorduras e óleos vegetais, com US$ 965,4 milhões (14,1%);
- minério de ferro, com US$ 441,9 milhões (6,4%);
- algodão em bruto, com US$ 411,3 milhões (6,0%).
A ApexBrasil identificou novas 378 oportunidades para produtos brasileiros no mercado indiano e mantém dez projetos setoriais estratégicos voltados ao país, envolvendo segmentos que vão de máquinas, equipamentos médicos e calçados a alimentos, produtos agropecuários e outras atividades industriais.
Do lado das importações, o Brasil comprou principalmente produtos industriais e de maior valor agregado, reforçando a diferença de perfil entre parte relevante das vendas brasileiras e os produtos adquiridos da Índia.
Os compostos químicos lideraram a pauta, com US$ 1,47 bilhão e participação de 17,6%, seguidos por:
- combustíveis de petróleo, com US$ 1,11 bilhão (13,3%);
- medicamentos, com US$ 568,8 milhões (6,8%);
- defensivos agrícolas, com US$ 543,5 milhões (6,5%);
- partes de veículos, comUS$ 308,4 milhões (3,7%).
Farmacêuticos, energia e fertilizantes
Elias Rosa disse que o encontro desta hoje revelou interesse indiano em ampliar investimentos no Brasil em áreas como indústria farmacêutica, bioenergia, biocombustíveis, fertilizantes e dispositivos médicos.
Segundo o ministro, a maior aproximação entre empresas dos dois países pode avançar paralelamente à negociação tarifária, mesmo que a revisão do acordo Mercosul-Índia leve mais tempo para ser concluída.
A cooperação também envolve minerais críticos, tema que ganhou espaço na agenda bilateral durante a visita do presidente Lula à Índia em fevereiro, quando os dois países assinaram um memorando de entendimento sobre o setor. Elias Rosa afirmou que o governo brasileiro pretende ampliar parcerias para a exploração desses recursos com diferentes países, sem privilegiar um parceiro em detrimento de outro.
O ministro ressaltou, porém, que a política brasileira não deve se restringir à extração e exportação das matérias-primas.
“É preciso que haja mais do que a simples exploração dos minerais críticos, é preciso que haja adensamento de algum valor, agregação de algum valor. Essa é a política que o Brasil precisa seguir e que o governo federal já definiu como prioritária também”, declarou














