Economia

Ex-BRB admite que diretoria ignorou alertas sobre Master

À PF, Paulo Henrique Costa diz que atraso de parecer sobre compra de carteiras do Master era "formalidade" e admite reuniões informais da diretoria

Avatar de Marcela Guimarães
Marcela Guimarães
Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB |  Lúcio Bernardo Jr/Agência Brasília

Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB | Lúcio Bernardo Jr/Agência Brasília

Em depoimento à Polícia Federal (PF) em 15 de outubro, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), admitiu que a diretoria do banco, responsável por aprovar as compras de carteiras de crédito do Banco Master, às vezes se reunia de maneira informal, “numa sala de reunião e não com uma diretoria instalada formalmente”.

Em relatório da Operação Compliance Zero, a PF apontou que a diretoria e a presidência do BRB aprovaram as operações sem respeitar pareceres técnicos e alertas de risco. Os investigadores suspeitam que a diretoria agia de forma irregular para favorecer o Master, com a compra de carteiras de crédito consignado sem lastro ou inexistentes, num movimento que antecedeu a tentativa de compra do banco pelo BRB, entre 2024 e 2025.

Durante o depoimento, a delegada Janaína Palazzo questionou Costa sobre o descumprimento das normas internas do banco, que exigiam parecer de risco, de precificação e nota executiva antes da aprovação da diretoria. Segundo o laudo pericial citado pela delegada, 22 operações foram pagas sem parecer, 25 pareceres foram assinados depois da data do pagamento e houve 34 casos de pareceres posteriores. Cerca de R$ 7 bilhões teriam sido aprovados sem a instrução completa dos processos.

SBT News Logo

Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT,Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung, LG e Roku.

Siga no Google Discover

A delegada afirmou ainda que outros diretores negaram a irregularidade nas oitivas, mas depois admitiram que, em duas das três votações eletrônicas, houve deliberação sem parecer.

Costa respondeu que “a investigação busca uma perfeição que não existe” e atribuiu os atrasos de pareceres técnicos a questões burocráticas.

“Todas as decisões da diretoria do BRB são colegiadas. Em todas as decisões, a diretoria do BRB sentou e discutiu o assunto. Então, se em algum momento — e tá lá evidenciado que aconteceu — algum parecer chegou depois, é por razão operacional burocrática, de assinatura ou qualquer coisa do tipo”, afirmou.

O ex-presidente argumentou ainda que os pareceres eram emitidos pela mesma área que propunha os negócios:

“O que justifica a área que propõe o negócio se posicionar contra o negócio que ela tá propondo? Ou seja, é uma questão de fato de burocracia, de assinatura ou de alguma coisa assim da proposta”.

Limites e relatórios de liquidez

Os bancos precisam manter uma quantidade mínima de recursos disponíveis, a liquidez, para pagar saques e compromissos. A política de risco do BRB fixava limites internos para isso, e relatórios sobre o enquadramento a esses limites eram enviados por e-mail à diretoria.

Questionado pela delegada, Costa confirmou que recebia os relatórios.

“Eu recebia o reporte, mas o que eu tô querendo falar com a senhora é que, na dinâmica de um banco, reportes e alertas são normais. (...) A política de risco não é um negócio simplesmente escrito em pedra e tal. E de novo, é até importante dizer isso: alerta não é violação”, argumentou.

Segundo o ex-presidente, foram 19 alertas e “talvez uma ou duas violações”. Ele classificou o descumprimento como “uma decisão de negócio”, já que a captação do banco crescia e a liquidez seria recomposta rapidamente.

“A gente tinha um planejamento, que isso tá demonstrado, de aumento de liquidez, inclusive acompanhado pelo Banco Central, porque a gente estava crescendo, batendo recordes de captação. Então você ter uma sequência de alertas, que são 19 alertas e talvez uma ou duas violações, sendo que você sabe que vai recompor essa liquidez de maneira muito rápida, não é um problema”, afirmou.

Costa disse ainda que as violações foram comunicadas ao Conselho de Administração, que, em ata de 28 de março, autorizou o banco a permanecer fora do limite: “Ele tá dizendo: ‘eu permito que você fique com esse limite descumprido’”.

Últimas notícias