Economia

Dólar volta a fechar acima de R$ 5: o que está por trás da virada?

Dólar sobe 0,58% e volta a R$ 5 após 11 dias abaixo do nível simbólico

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Dólar volta a fechar acima de R$ 5: o que está por trás da virada?

O dólar voltou a encerrar acima do patamar de R$ 5 e reacendeu o debate sobre os rumos da moeda em meio a um cenário global ainda instável diante da guerra no Irã.

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Nesta quinta-feira (23), a moeda americana firmou alta frente ao real, avançando 0,58%, cotada a R$ 5,003, voltando a ficar acima do nível simbólico 11 dias depois de ter recuado abaixo de R$ 5 pela primeira vez em mais de dois anos — quando, em 13 de abril, caiu 0,29%, a R$ 4,9969, pela primeira vez.

Ao longo da sessão, o dólar oscilou entre a mínima de R$ 4,94 e a máxima de R$ 5,017, refletindo um pregão marcado por volatilidade e mudanças de direção, especialmente no fim da tarde.

A dinâmica do câmbio no Brasil seguiu, em grande parte, influenciada por fatores externos, mas também encontrou suporte em fundamentos domésticos. Segundo Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank e especialista em câmbio, o comportamento do real ao longo do dia mostrou uma relativa resiliência.

"A gente viu o real hoje praticamente o dia todo ganhando força frente ao dólar, enquanto outras moedas emergentes estavam de lado ou até se desvalorizando. Isso mostra um movimento de entrada de fluxo especulativo no Brasil, muito relacionado à nossa atratividade em juros", afirma.

Quartaroli destaca que a manutenção de taxas elevadas por mais tempo, diante das sinalizações do Banco Central e da persistência inflacionária, tem sustentado esse fluxo.

"Existe essa expectativa de juros altos por mais tempo, e isso favorece o ingresso de capital. É o que tem sustentado o comportamento do dólar no Brasil", diz.

Ainda assim, o cenário mudou no fim da sessão. A moeda americana ganhou força, acompanhando a deterioração do ambiente externo, especialmente com as incertezas ligadas ao conflito no Oriente Médio.

"No fim da tarde, vimos uma desaceleração da queda e o dólar ganhando força por conta da guerra. Ainda há muitas incertezas, não se sabe se o cessar-fogo vai se sustentar ou se haverá uma resolução próxima. Isso traz volatilidade para a moeda", diz a economista.

A piora do sentimento ocorreu após a imprensa israelense repercutir a suposta saída do presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Ghalibaf, das negociações diplomáticas com os EUA. Considerado uma figura mais moderada dentro do regime iraniano, seu afastamento reduz as perspectivas de um acordo entre Washington e Teerã.

Mais cedo, Ghalibaf afirmou que um cessar-fogo completo só faria sentido se não houvesse violação do cerco marítimo e do que chamou de “sequestro da economia mundial”.

Em publicação nas redes sociais, o líder iraniano também condicionou a trégua ao fim das ações militares israelenses em todas as frentes. “A reabertura do Estreito de Ormuz não é possível com uma violação flagrante do cessar-fogo”, escreveu, acrescentando que os adversários não alcançarão seus objetivos por meio de pressão militar ou intimidação.

O cenário também se agravou após novas declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou ter ordenado à Marinha americana que “atire e destrua qualquer embarcação” que esteja lançando minas no Estreito de Ormuz. Segundo Trump, não deve haver hesitação na resposta.

Trump também determinou a intensificação das operações de limpeza de minas na região e pressionou o Irã a reabrir a rota marítima, considerada estratégica para o transporte global de petróleo. O estreito está praticamente bloqueado desde o início do conflito, no fim de fevereiro.

Na mesma linha, Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, aponta que o avanço do dólar esteve diretamente ligado ao aumento da aversão ao risco global. "O dólar passou a subir ao longo da sessão, superando o nível de R$ 5,00, em linha com a deterioração do ambiente externo diante da escalada das tensões no Oriente Médio", afirma.

Shahini ressalta que a alta do petróleo elevou o prêmio de risco global, pressionando expectativas de inflação e juros. O tipo Brent, referência mundial, subiu 4,29%, com o barril a US$ 106,34. Já o WIT, mais usado nos Estados Unidos, subiu 4,36%, a US$ 96,99.

"Houve também abertura das Treasuries, com alta nos yields, o que fortaleceu a moeda americana globalmente. O movimento refletiu uma recomposição de posições defensivas, com o câmbio reagindo diretamente ao aumento da aversão a risco", diz.

Dólar perde maior parte dos ganhos com a guerra

Dados compilados pelo Financial Times mostram que o dólar vive um momento de inflexão no cenário global. No início do conflito no Oriente Médio até o fim de março, a moeda americana se fortaleceu de forma generalizada, levando todas as principais divisas globais a registrar perdas frente ao dólar.

Nesse período, moedas como o rand sul-africano e o won sul-coreano acumularam quedas mais acentuadas, enquanto euro, libra e dólar canadense tiveram recuos mais moderados.

O movimento, porém, se inverteu em abril. Com o alívio parcial das tensões e a crescente expectativa de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), o dólar perdeu força, e abriu espaço para uma recuperação das moedas globais.

O real brasileiro se destacou nesse cenário. Após cair cerca de 1% até o fim de março, acumulou valorização superior a 4% em abril, figurando entre os melhores desempenhos. A coroa norueguesa seguiu trajetória semelhante, enquanto o iene japonês foi a única exceção relevante, mantendo desvalorização.

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