Economia

Construtoras ganham R$ 10 tri no mundo; brasileira é top 100

Chinesas concentram quase metade das vendas, e MRV aparece na 92ª posição

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MRV aparece entre as 100 maiores do mundo | Germano Lüders - Exame

MRV aparece entre as 100 maiores do mundo | Germano Lüders - Exame

Quase US$ 2 trilhões, o equivalente a cerca de R$ 10 trilhões. Foi quanto as 100 maiores construtoras de capital aberto do mundo faturaram em 2025, valor 0,4% abaixo do registrado no ano anterior. Enquanto isso, o valor dessas empresas na bolsa subiu 12% no mesmo período.

Nesse grupo dominado por gigantes chinesas, europeias e americanas, só uma brasileira aparece: a MRV, na 92ª posição.

Os números são da nona edição do relatório Global Powers of Construction, da Deloitte. O estudo ranqueia as construtoras listadas em bolsa que têm parcela relevante da receita vinda de construção civil e infraestrutura.

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O retrato é de um setor travado no curto prazo e promissor no longo. A consultoria projeta para o mercado global de construção uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 5,9% até 2030.

O valor de mercado somado das 100 empresas passou de US$ 797,4 bilhões em 2024 para US$ 892,7 bilhões em 2025. Segundo o relatório, o avanço reflete uma melhora no sentimento dos investidores, apesar de um ambiente operacional ainda difícil.

Esse ambiente inclui incerteza macroeconômica, restrições de financiamento e gargalos nas cadeias de suprimento. Pesaram ainda os efeitos cambiais, a normalização depois de anos fortes e a demanda mais fraca no segmento residencial.

“Os resultados variaram significativamente entre regiões e modelos de negócios em 2025, refletindo diferenças nas condições de mercado, nos níveis de diversificação e na exposição a segmentos mais resilientes ou mais cíclicos da indústria da construção”, afirmou Iván Rubio, líder de Engenharia e Construção da Deloitte Espanha.

A valorização veio da Europa, que compensou com folga a perda das americanas. As construtoras europeias ganharam cerca de US$ 104 bilhões em valor de mercado no ano. Já as americanas perderam aproximadamente US$ 29 bilhões, pressionadas pelas incorporadoras residenciais.

As empresas sediadas na China continuam no topo e respondem por 48,5% das vendas do ranking, o equivalente a cerca de US$ 957 bilhões. Essa receita, porém, caiu 5,5% em 2025, um sinal da desaceleração da atividade no país.

A líder global segue sendo a China State Construction Engineering Corporation (CSCEC), com receita de cerca de US$ 289,7 bilhões. Ela forma o pódio com outras duas estatais chinesas, a China Railway Group e a China Railway Construction Corporation. Juntas, as três concentram cerca de 30% do faturamento do ranking.

Nos Estados Unidos, as vendas recuaram 0,9%, reflexo de um mercado residencial mais moderado. Na Europa, o movimento foi o oposto: a receita agregada cresceu cerca de 9% em moeda local, puxada por grupos espanhóis e franceses.

O continente europeu também é o que mais aparece no ranking, com 40 das 100 empresas. Na sequência vêm Japão e Estados Unidos, com 14 companhias cada.

Onde o Brasil entra na conta

A MRV faturou US$ 1,951 bilhão em 2025, alta de 16,7% em dólares, um dos maiores avanços do ranking.

A Deloitte destaca o Brasil como um dos principais mercados de investimento em infraestrutura da América Latina, com ênfase em concessões aeroportuárias e projetos de energia.

“O Brasil está particularmente bem-posicionado para capturar esse ciclo de crescimento, apoiado por uma carteira relevante de investimentos e pela necessidade de modernização de ativos estratégicos em saneamento, transporte, logística, energia e infraestrutura digital”, afirmou Fernanda Tauffenbach, sócia de Strategy, Risk & Transactions da Deloitte Brasil.

Para ela, o gargalo não está na demanda. “O próximo desafio será acelerar a capacidade de execução dos projetos, combinando disciplina de capital, inovação, gestão de riscos e tecnologia para transformar investimentos em ativos operacionais e geradores de valor para a economia e para a sociedade”, disse.

O relatório estima que o mercado de construção da América Latina valia US$ 346,5 bilhões em 2025 e deve chegar a US$ 471,9 bilhões em 2035. Só no setor elétrico, a necessidade de investimento na região deve somar US$ 577 bilhões até 2030.

“Em conjunto, essas tendências estão criando novas oportunidades ao longo da cadeia de valor da construção e reforçando a posição do Brasil como um mercado estratégico de infraestrutura na América Latina”, afirmou Gabriela Bitu, líder da indústria de Construção da Deloitte Brasil.

Cidades, energia e IA sustentam a projeção

A aposta de longo prazo se apoia sobretudo na urbanização. Hoje, cerca de 50% da população mundial vive em áreas urbanas. Até 2050, quase dois terços da populacional mundial viverá em cidades.

Para a Deloitte, esse movimento funciona como um multiplicador da demanda por construção: quanto mais as cidades crescem, mais complexa e cara fica a infraestrutura que elas exigem.

Dois outros vetores entram na conta. A transição energética está transformando a infraestrutura global de energia. A corrida por data centers para inteligência artificial, por sua vez, exige muita potência elétrica e grandes obras físicas.

No curto prazo, o cenário é mais modesto. A produção global de construção deve crescer 1,5% em 2026, depois de recuar 0,2% em 2025. Juros longos ainda elevados seguem adiando decisões de investimento privado.

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Diversificar e sair de casa

Entre as 30 maiores do ranking, duas estratégias ganharam peso em 2025. As atividades fora da construção, como imobiliário, concessões e serviços industriais, responderam por 26,7% da receita. As vendas no exterior somaram 24,7%, ante 21,3% em 2024.

Algumas companhias foram além e entraram em segmentos sem relação direta com obras, como mídia e serviços financeiros. A francesa Bouygues, por exemplo, mantém negócios de telecomunicações e televisão.

Os grupos europeus lideram a internacionalização, com 67% da receita obtida fora dos países de origem. A espanhola ACS é o caso extremo: 91,8% do faturamento vem do exterior. Chinesas e americanas, por outro lado, seguem concentradas nos mercados domésticos.

“A análise sugere que tanto a diversificação quanto a internacionalização estão gerando valor”, afirmou Jean-Louis Rassineux, líder de Industrial Products & Construction da Deloitte Global. “Alguns dos grupos de construção com melhor desempenho são justamente aqueles que conseguem combinar essas duas estratégias com sucesso.”

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