Eleições

Vorcaro, Argentina e ataques pessoais marcam debate na TV

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) começaram duelo focados em propostas de governo, mas, logo em seguida, passaram a trocar ofensas

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Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) em debate da Globo | Globo/ Manoella Mello

Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) em debate da Globo | Globo/ Manoella Mello

O último debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, transmitido pela TV Globo nesta sexta-feira (23), foi marcado por trocas de farpas pessoais, embates sobre a situação econômica — inclusive na Argentina — e, principalmente, a relação de ambos com escândalos e pessoas investigadas em apurações da Justiça. Na prática, os dois presidenciáveis começaram o duelo focados em propostas de governo, mas, logo em seguida, passaram a trocar ofensas.

Leia abaixo alguns dos principais assuntos que marcaram o duelo:

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Caso Vorcaro, o uísque de R$ 500 mil e o filme 'Dark Horse'

Um dos momentos mais tensos do debate envolveu a relação dos candidatos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master. Flávio Bolsonaro questionou Lula sobre uma suposta garrafa de uísque avaliada em R$ 500 mil presenteada por Vorcaro. O presidente rebateu com ironia, declarando que a bebida "deve ter ido para a sua casa", numa referência à residência de Flávio.

Na sequência, Lula acusou Flávio de manter proximidade com o ex-banqueiro e declarou: "o que você não se conforma é que você criou um banqueiro e eu fiz ele prisioneiro". O petista citou também investigações da Polícia Federal sobre o financiamento de R$ 134 milhões negociado junto a Vorcaro para a produção do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL). Sobre isso, o senador negou possuir fotos ou relações impróprias com o empresário e afirmou que a Justiça já apura as responsabilidades, ao passo que Lula sustentou haver "uma quadrilha à solta no país".

Disputa pela Ilha Comprida e o caso Richarlison

A disputa pelos direitos de ocupação de uma área da União na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), também virou combustível de confronto. Lula questionou o senador sobre como teria ocorrido a transferência da posse que envolve o jogador de futebol Richarlison e o advogado Willer Tomaz. Neste tema, o presidente apontou disparidade de prazos na Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e acusou Tomaz de ser sócio de Flávio.

Flávio Bolsonaro rebateu afirmando que "a ilha nunca foi do Richarlison" e que a controvérsia jurídica já foi deliberada pela Justiça. O candidato do PL ironizou o atleta ao fazer uma fala direcionada ao atacante brasileiro.

"Com todo respeito, craque, você está tomando volta do seu empresário. Comprou terreno do MST", disse Flávio.

Em vídeo recente, o atleta alegou ter investido cerca de R$ 10 milhões no local e ter aguardado quase um ano por manifestações oficiais antes da transferência para a empresa ligada a Tomaz, em caso que é acompanhado pelo Ministério Público Federal.

Segurança pública, 'saidinhas' e o caso da menina Ana Clara

No bloco de segurança pública, Flávio cobrou o presidente por seu posicionamento contra o fim do benefício da "saidinha" de detentos e criticou a postura do governo petista tanto em relação à redução da maioridade penal quanto à classificação de facções criminosas (como PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas.

Lula respondeu trazendo ao debate a presença de Cristiane, mãe da menina Ana Clara — morta aos 5 anos em 2021 em uma comunidade de Niterói (RJ) —, acusando Flávio de atuar para adiar o julgamento do policial militar acusado do disparo. O senador prestou solidariedade à mãe da vítima no estúdio, mas sustentou que confia na inocência do agente e atribuiu a violência urbana à entrada ilegal de fuzis pelas fronteiras do país.

Economia, crise na Argentina e "parcelamento de pizza"

A discussão sobre a pauta econômica de ambos os candidatos também foi outro tema que gerou fortes divergências, principalmente em relação ao cenário internacional e ao custo de vida doméstico. Lula questionou a proximidade de Flávio com o presidente argentino Javier Milei, apontando que a pobreza na Argentina atingiu 32,3% e cobrando do adversário garantias sobre a valorização real do salário mínimo.

Flávio defendeu as reformas de Milei, alegando que o líder argentino teve de corrigir equívocos deixados por "governos de esquerda". Em contrapartida, o candidato do PL responsabilizou o governo federal pelo endividamento das famílias brasileiras e pela perda do poder de compra, afirmando que a população passou a "parcelar até pizza no iFood em seis vezes". Além disso, o senador comprometeu-se com o reajuste do piso salarial acima da inflação e defendeu a tarifa zero no transporte público aos fins de semana.

Política externa, agronegócio e a disputa por mercados

No campo das relações internacionais e do comércio exterior, Lula acusou o adversário de ter ficado "lambendo" o presidente americano Donald Trump para impor tarifas ao Brasil. Sobre este tópico, o petista afirmou que não se intimida com barreiras comerciais e destacou que sua gestão abriu 700 novos mercados para produtos brasileiros, além de ter ampliado os aportes para a agricultura familiar e o agronegócio por meio do BNDES e do Banco do Brasil.

Ao abordar o combate à fome, Lula atacou Flávio ao declarar que o senador "não sabe o que é fome" por viver em condomínio fechado. O candidato do PL, por sua vez, criticou a carga tributária do governo e defendeu que o agronegócio necessita de maior segurança jurídica e incentivos para produzir.

Provocações digitais, "nove dedos" e a memória da facada

O debate também contou com ataques pessoais e discussões sobre estratégias de comunicação. Flávio ironizou, por exemplo, os pedidos constantes do adversário petista para que os telespectadores fizessem buscas na internet sobre as realizações do governo.

"Lula, quem governa o Brasil é você ou o Google?", ironizou.

A provocação ocorreu no contexto das ações digitais articuladas pelo deputado André Janones para impulsionar termos negativos contra o senador.

Ao criticar a política fiscal, porém, Flávio afirmou que o governo Lula dá, por um lado, e "tira com os nove dedos", de outro. Lula reagiu classificando a declaração como uma agressão desrespeitosa e lembrou ter perdido o dedo em um acidente de trabalho na juventude, o que levou o senador a reconhecer o erro e pedir desculpas públicas no ar.

Por fim, ao defender investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS), Flávio relembrou o atendimento prestado a seu pai, Jair Bolsonaro, na Santa Casa de Juiz de Fora (MG) após o atentado à facada em 2018. Ao citar esse episódio, Flávio voltou a culpar um "militante do PSOL" pelo ataque.

Licença-maternidade e o passado de Flávio

Pressionado por Lula a explicar posicionamentos do seu passado político, Flávio admitiu, por exemplo, que errou ao votar contra o aumento da licença-maternidade de servidoras do Rio de Janeiro. O candidato do PL disse que, na época, acreditava que a ampliação do benefício poderia dificultar a contratação de mulheres. O senador afirmou ter mudado de posição e defendeu a importância da presença da mãe nos primeiros meses de vida dos filhos.

"Isso faz bastante tempo, e na época eu votei acreditando que isso poderia dificultar que as mulheres conseguissem emprego. Eu estava errado", disse. "Hoje, depois que eu casei e tive duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância da mãe estar perto do filho, agora até mais de 180 dias, se possível."

Na réplica, Lula criticou a resposta e afirmou que Flávio teve a oportunidade de apoiar a ampliação da licença, mas votou contra. O presidente também questionou a mudança de posição durante a campanha eleitoral.

'Tigrinho' e as bets

O embate sobre a liberação e o funcionamento dos jogos de azar e das apostas virtuais no Brasil também veio à tona em um dos momentos do debate. Flávio foi quem mencionou o assunto inicialmente.

"O atual presidente tem dois filhos que fizeram muito mal para o país, que é o Lulinha e o Tigrinho. Ele é o pai do Tigrinho, ele é o pai do cassino online. Ele liberou e, chegando perto da eleição, ele vai lá e cancela achando que vai enganar você", declarou Flávio.

Em resposta imediata, Lula reagiu de forma incisiva, negando a autoria da liberação e atribuindo a responsabilidade da expansão das plataformas à família Bolsonaro.

"O cinismo chega a uma coisa absurda. O Tigrinho foi criado por vocês em 2022. Não só o seu pai é pai do Tigrinho como você é o irmão. O Tigrinho foi seu pai que criou", rebateu o presidente.

Milícia x narcoterroristas

O encerramento do debate eleitoral também guardou um confronto direto entre os candidatos. Isso porque Lula afirmou, em sua mensagem final, que o eleitor precisará escolher entre manter a democracia ou ter "um miliciano governando este país". A declaração levou a emissora a conceder um minuto de direito de resposta a Flávio, que negou as acusações e rebateu o adversário.

Em sua fala, o parlamentar acusou Lula de insistir em ligá-lo a crimes que não cometeu e assegurou que nunca foi alvo de investigação por vínculos com milicianos. O senador declarou que, caso eleito, vai atuar com rigor contra o crime organizado. Prometeu combater as milícias, classificá-las como organizações narcoterroristas, além de retomar áreas controladas por criminosos. Segundo o candidato, o objetivo é devolver a soberania à população.

"Quem vai andar com medo na rua são marginais", complementou o candidato do PL.

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