Economia

Como as midterms nos EUA podem afetar seus investimentos

Eleição nesta terça pode mudar o equilíbrio de poder no Congresso americano, afetar juros, dólar e setores da Bolsa

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Eleições de meio de mandato nos EUA podem influenciar o mercado financeiro e os investimentos de brasileiros no exterior. | Patrick B. Ruddy/Official White House Photo

Eleições de meio de mandato nos EUA podem influenciar o mercado financeiro e os investimentos de brasileiros no exterior. | Patrick B. Ruddy/Official White House Photo

Depois da eleição presidencial brasileira, os investidores têm outro compromisso político no radar: as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, conhecidas como midterms, marcadas para esta terça-feira (3). Embora a Presidência não esteja em disputa, o resultado pode alterar a composição do Congresso americano e, consequentemente, a capacidade de Donald Trump de avançar com sua agenda econômica nos dois últimos anos de governo.

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A principal questão para os mercados está na possibilidade de os democratas conquistarem a maioria em uma ou nas duas Casas legislativas, hoje controladas pelos republicanos. Uma mudança de comando poderia dificultar a aprovação de novos cortes de impostos, pacotes de gastos e outras medidas defendidas por Trump. Ao mesmo tempo, aumentaria a fiscalização sobre o Executivo e a possibilidade de impasses políticos.

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De 'pato manco' a 'maldição': o teste de Trump nas midterms

Para os investidores, a disputa importa porque as decisões do Congresso sobre orçamento, tributação e regulamentação podem afetar as perspectivas de crescimento, inflação, juros e lucros das empresas americanas. Dependendo do resultado, diferentes setores da Bolsa podem ganhar ou perder atratividade, enquanto os títulos públicos americanos e o dólar também podem reagir.

O efeito não fica restrito aos Estados Unidos. Os brasileiros que investem em ações americanas diretamente, por meio dos Brazilian Depositary Receipts Patrocinados, os BDRs, os fundos de índice, ETFs, ou fundos internacionais estão expostos tanto às oscilações dos ativos quanto às variações do câmbio.

Isso significa que uma valorização da Bolsa americana não necessariamente se traduzirá em ganhos para quem mede seu patrimônio em reais.

Na avaliação de Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o investidor brasileiro deve acompanhar principalmente três indicadores: o comportamento do dólar, os juros dos títulos públicos americanos e a reação das bolsas.

"Isso porque o resultado eleitoral pode mudar as expectativas sobre gastos públicos, impostos e inflação nos Estados Unidos", afirma Lima.

O que muda se os democratas conquistarem o Congresso?

As eleições de meio de mandato nos EUA acontecem na metade do mandato presidencial de quatro anos. Neste ano, os americanos escolherão os ocupantes das 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e de 35 das 100 vagas do Senado. Também haverá eleições para governadores em 36 estados.

Atualmente, os republicanos têm 218 deputados na Câmara, contra 214 democratas, além de um independente alinhado aos republicanos e duas cadeiras vagas. Para assumir o controle da Casa, os democratas precisam chegar a 218 representantes.

No Senado, os republicanos contam com 53 cadeiras. Os democratas têm 45 senadores, além de dois independentes que integram seu grupo parlamentar. A oposição precisa alcançar 51 cadeiras para conquistar a maioria. Um empate em 50 a 50 favoreceria os republicanos, já que o vice-presidente JD Vance tem o voto de desempate.

A disputa ocorre em um momento de desgaste político de Trump. Uma pesquisa Reuters/Ipsos concluída em 26 de outubro apontou preferência de 47% dos eleitores registrados pelos democratas, ante 36% pelos republicanos, quando questionados sobre qual partido escolheriam para o Congresso. A aprovação do presidente estava em 32% entre os adultos entrevistados.

O histórico também é desfavorável ao partido que ocupa a Casa Branca. Desde a Segunda Guerra Mundial, a legenda do presidente perdeu, em média, 26 cadeiras na Câmara e quatro no Senado nas eleições de meio de mandato. Em 2018, durante o primeiro governo Trump, os republicanos perderam 41 cadeiras na Câmara, que passou ao controle democrata.

Para os mercados, porém, o efeito de uma eventual vitória da oposição depende de qual Casa mudar de comando.

Se os democratas conquistarem apenas a Câmara, poderão dificultar a aprovação de projetos do governo e controlar as comissões parlamentares, ampliando a fiscalização sobre o Executivo. Se conquistarem o Senado, terão maior influência sobre as indicações presidenciais para cargos importantes, incluindo autoridades do governo, juízes federais e integrantes do Judiciário.

Uma vitória nas duas Casas representaria um obstáculo legislativo ainda maior para Trump. Isso não significa, entretanto, que os democratas poderiam simplesmente impor sua própria agenda. O presidente mantém o poder de veto, cuja derrubada exige dois terços dos votos em ambas as Casas.

Na avaliação do analista da Ouro Preto Investimentos, uma vitória democrata na Câmara já é um cenário bastante esperado pelo mercado. Uma conquista do Senado, por outro lado, poderia provocar uma reação mais forte por ser menos antecipada.

"Além de dificultar a aprovação de propostas do governo, eles passariam a ter maior influência sobre as nomeações para cargos importantes. Como esse resultado é menos esperado, poderia provocar uma reação mais forte dos mercados no primeiro momento", afirma Lima.

Já para para o dólar, não há uma relação direta entre o resultado eleitoral e a direção da moeda, de acordo com Lima. A reação dependerá de como os investidores avaliarem os efeitos de cada cenário sobre as contas públicas, a inflação e os juros americanos.

Treasuries podem ganhar com Congresso dividido

Um dos principais canais de transmissão das midterms para o mercado financeiro é o fiscal. Se os democratas conquistarem espaço no Congresso, Trump terá mais dificuldade para aprovar medidas de redução de impostos e ampliação de despesas. A perspectiva de menor expansão fiscal pode reduzir as preocupações com o endividamento americano e a inflação, favorecendo os títulos públicos de longo prazo, conhecidos como Treasuries.

Isso acontece porque os juros dos títulos negociados no mercado refletem, entre outros fatores, as expectativas para inflação, crescimento e endividamento do governo.

Se os investidores passarem a esperar uma trajetória mais controlada das contas públicas, os rendimentos exigidos para emprestar dinheiro ao Tesouro americano podem recuar. Quando os juros caem, os preços dos títulos já emitidos tendem a subir.

O movimento, contudo, não é garantido. Um Congresso dividido também pode ampliar os conflitos entre Executivo e Legislativo, dificultando negociações orçamentárias e aumentando o risco de paralisações do governo e disputas sobre o teto da dívida.

Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos, chama atenção justamente para o risco fiscal e recomenda cautela com títulos de vencimentos mais longos diante da possibilidade de maior volatilidade.

"O maior risco está na dívida pública. O investidor deve evitar títulos longos neste momento, já que vai ter mais volatilidade. Os democratas são menos fiscalistas que os republicanos. Também existe risco regulatório para empresas de tech, IA [inteligência artificial] e petróleo. Pode ser que a atual correção dos mercados seja ligada às midterms. Índice Nasdaq cai 5% em 30 dias. Os democratas veem com certa hostilidade o setor de tecnologia, que se envolveu mais com o governo Trump a partir da participação de Peter Thiel e Elon Musk em diferentes momentos dos dois mandatos de Donald Trump", afirma Passero.

Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, também vê nos títulos americanos um possível beneficiário de uma vitória democrata, desde que o resultado leve o mercado a projetar menor expansão dos gastos públicos.

"Se os democratas conquistarem apenas a Câmara, Trump terá mais dificuldade para aprovar novos gastos e mudanças tributárias. Isso pode reduzir expectativas de expansão fiscal e favorecer os títulos públicos americanos, caso os juros de longo prazo caiam. Para as bolsas, o efeito pode ser positivo pela maior previsibilidade, mas haverá risco de disputas sobre o orçamento", diz Murad.

O consultor também pondera que, se os democratas conquistarem apenas o Senado, o governo terá mais dificuldades para aprovar nomeações e determinados projetos. O principal impacto poderá aparecer nas expectativas regulatórias, especialmente em setores como bancos, tecnologia e energia.

Em outro cenário, se os democratas conquistarem Câmara e Senado, Trump terá sua agenda legislativa mais limitada. Uma possível redução das expectativas de gastos públicos poderá beneficiar os títulos americanos. Entretanto, conflitos políticos mais intensos também poderão gerar volatilidade nas bolsas e no dólar.

"Portanto, não existe um vencedor automaticamente melhor para o mercado. Tudo dependerá dos efeitos sobre crescimento, inflação e juros", afirma Murad.

Quais setores da Bolsa podem ganhar ou perder?

Além dos títulos públicos, o resultado das eleições pode mudar as expectativas para setores específicos da Bolsa americana. Segundo os especialistas, uma eventual manutenção do controle republicano tende a favorecer empresas que se beneficiam de políticas de desregulamentação, incentivos e cortes tributários.

Nesse grupo estão bancos, companhias de petróleo e gás e empresas ligadas à defesa. Negócios domésticos e de menor porte, especialmente os mais dependentes da economia americana, também podem se beneficiar da continuidade de estímulos fiscais.

Já um avanço democrata poderia favorecer setores ligados à energia renovável, saúde e infraestrutura, dependendo das negociações sobre subsídios, programas públicos e regulamentação ambiental. Em contrapartida, bancos, farmacêuticas e empresas de energia tradicional poderiam enfrentar maior incerteza regulatória.

Os analistas também destacam que a tecnologia merece atenção especial. O setor pode sofrer com uma eventual ampliação da pressão sobre grandes empresas, principalmente em temas de concorrência, regulação e inteligência artificial.

Passero avalia, por exemplo, que a relação entre figuras importantes do setor de tecnologia e o governo Trump pode tornar as empresas mais vulneráveis a uma mudança no equilíbrio político. "Uma maioria consistente democrata pode afetar negativamente o setor de tech americano, que depende de muito capex e que está suscetível à regulação", disse.

A avaliação, porém, não é unânime quanto à origem desse risco. Para Enrico Cozzolino, CEO e estrategista da Zermatt Partners, a pressão regulatória sobre as grandes empresas de tecnologia não é uma pauta exclusiva dos democratas.

"Para quem investe em índices amplos, como S&P 500, o efeito tende a ser passageiro. A sensibilidade maior está nos setores mais dependentes de decisões do Congresso. Saúde e farmacêuticas costumam reagir a qualquer sinal sobre controle de preços de medicamentos. Energia tradicional e renováveis se movem conforme a perspectiva de incentivos e regulação ambiental", afirma Cozzolino.

"Bancos são sensíveis à agenda de regulação financeira. Empresas de defesa e infraestrutura dependem de orçamento. Big techs podem sentir o tema de regulação e antitruste, que tem apoio em ambos os partidos. Quem tem BDRs precisa lembrar que sente, ao mesmo tempo, o movimento da ação lá fora e a variação do câmbio aqui".

A recomendação, portanto, é observar a exposição setorial da carteira, mas sem presumir que uma mudança na composição do Congresso provocará automaticamente uma reviravolta nos resultados das empresas.

Dólar pode oscilar, mas o retorno em reais depende também do Brasil

Para o investidor brasileiro, existe uma segunda variável importante além do desempenho das ações e dos títulos americanos: o câmbio.

Uma valorização de uma ação negociada nos Estados Unidos pode não se transformar em ganho na mesma proporção quando o investimento é convertido para reais. Se o dólar cair frente à moeda brasileira, parte do retorno obtido no exterior pode ser reduzida ou até anulada.

"Para o brasileiro, o efeito é direto. Quem possui US$ 100 mil investidos, com dólar a R$ 5,50, tem R$ 550 mil. Se o dólar cair para R$ 5,00, esse patrimônio passa a valer R$ 500 mil, mesmo que os investimentos permaneçam estáveis", diz Murad. "Por isso, defendo que o investidor acompanhe o câmbio, avalie mecanismos de proteção quando necessário e diversifique também em ativos de outros países e moedas".

O consultor da Wiser Asset também ressalta que o investidor precisa considerar os dois componentes do retorno e não apenas a valorização da Bolsa americana. "Quem investe em ações americanas, ETFs, BDRs ou fundos internacionais pode ser afetado de duas maneiras: pela valorização ou queda dos ativos e pela oscilação do dólar".

A direção da moeda americana após as eleições, entretanto, é incerta. Um Congresso dividido pode reduzir as expectativas de expansão fiscal e de juros futuros, diminuindo a atratividade do dólar. Por outro lado, um impasse político mais intenso pode aumentar a procura pela moeda como proteção em momentos de incerteza.

Passero tem uma leitura diferente sobre o peso das eleições na trajetória cambial. Para o sócio da Jaguaretê Investimentos, fatores externos e problemas estruturais de outras economias podem ter influência maior do que a disputa política americana.

"O dólar é a camisa menos suja da vez, não deve ter um recuo muito consistente em função das eleições. O euro tem problemas próprios, o iene tem seus desafios, a China está em desaceleração, as moedas globais enfrentam um problema generalizado de excesso de dívida pública, desglobalização e aumento de tensões geopolíticas. Nesse cenário a política interna americana pode não ter um peso tão relevante na dinâmica do dólar frente às principais moedas", afirma.

Cozzolino também ressalta que o câmbio brasileiro não depende apenas do cenário americano.

"Um Congresso que freie a expansão fiscal tende a reduzir a pressão sobre os juros americanos, o que, na margem, pode enfraquecer o dólar no mundo. Mas impasse político e incerteza também podem levar investidores a buscar proteção, e o dólar historicamente se beneficia disso. Não há uma resposta automática. Para o brasileiro, o ponto central é que o retorno em reais é a soma do desempenho do ativo lá fora com a variação do câmbio", lembra o CEO e estrategista da Zermatt Partners.

"Se uma ação sobe 10% em dólar e o dólar cai 5% contra o real, o ganho em reais fica perto de 5%. Mas o câmbio aqui não depende só dos EUA: o risco fiscal e o cenário doméstico pesam tanto ou mais. Por isso, eu não trataria o investimento no exterior como aposta cambial, e sim como diversificação de longo prazo, que protege justamente nos momentos de estresse local", acrescenta.

O que o histórico mostra sobre a Bolsa americana depois das midterms?

Apesar das incertezas em torno da disputa, o histórico das eleições de meio de mandato mostra que a Bolsa americana teve desempenho positivo nos 12 meses seguintes a todas as 19 eleições de midterms realizadas desde 1950, segundo levantamento da Avenue Insights. A alta média do S&P 500 nesse período foi de 15,6%.

O JP Morgan também aponta retornos positivos em todas as eleições analisadas desde 1950, com ganho médio de aproximadamente 15%. Nos anos de midterms, o quarto trimestre registrou retorno médio de 6,6%.

Uma das explicações para esse comportamento é que a incerteza política costuma pressionar os ativos antes da votação. Quando o resultado é conhecido, os investidores passam a ter maior visibilidade sobre a composição do Congresso e sobre as possibilidades de aprovação da agenda econômica. Com isso, o foco tende a retornar aos fundamentos das empresas, como lucros, crescimento e juros.

A Avenue ressalta que o controle partidário do Congresso, isoladamente, não parece determinar o desempenho de longo prazo das ações. O que pesa mais é a redução da incerteza e a trajetória dos resultados corporativos e da economia.

O JP Morgan também destaca fatores que, em sua avaliação, podem sustentar os ativos de risco: expectativa de crescimento dos lucros corporativos de aproximadamente 37% nos próximos 12 meses, expansão de cerca de 2% do PIB americano até 2027 e continuidade dos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial.

A instituição também avalia que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) poderá entregar menos aperto monetário do que o mercado espera atualmente, o que ajudaria a aliviar a pressão sobre a renda fixa e as taxas de desconto utilizadas para avaliar as empresas.

Para Cozzolino, a tendência histórica de valorização após as eleições reforça a importância de não confundir volatilidade eleitoral com uma mudança estrutural na perspectiva de investimento.

"O primeiro ponto é não tomar decisões de carteira com base em aposta eleitoral. Eleições de meio de mandato costumam gerar volatilidade no curto prazo, mas o que define o retorno no médio prazo são lucros das empresas, inflação e a trajetória de juros do Fed", diz.

Fed e política monetária continuam no radar

Mesmo com a eleição no horizonte, a política monetária americana continua sendo um dos principais fatores para os mercados. Na última quarta-feira, 28, o Fed manteve os juros entre 3,75% e 4% ao ano. O presidente da instituição, Kevin Warsh, afirmou que a política não teve influência na decisão.

"A política não teve nenhum papel na decisão", afirmou Warsh, ao ser questionado sobre as eleições de 3 de novembro. Segundo a autoridade monetária, não houve qualquer menção à disputa política durante os dois dias de reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto.

O dirigente também evitou antecipar os próximos passos do banco central. Após a decisão, o mercado aumentou a expectativa de uma alta de 0,25 ponto percentual em dezembro. Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, a probabilidade passou de 78,3% para 82,6%.

Como posicionar a carteira diante da eleição?

Apesar das diferenças de interpretação sobre o dólar, a tecnologia e os efeitos de cada resultado, os analistas convergem em um ponto: não é recomendável concentrar decisões de investimento em uma aposta sobre quem vencerá as eleições.

Para Murad, ETFs podem ser uma alternativa para distribuir os recursos entre diferentes empresas e setores, reduzindo a dependência do desempenho de uma companhia específica. "Por isso, prefiro a diversificação por meio de ETFs, como os que acompanham o S&P 500, em vez de concentrar o patrimônio em poucas empresas".

Cozzolino, por sua vez, defende que a diversificação internacional deve ser encarada como uma estratégia de longo prazo, e não como uma aposta no resultado político americano. "Meu conselho é que o investidor tenha uma carteira equilibrada o suficiente para atravessar qualquer resultado, em vez de concentrar a aposta em um desfecho", afirma.

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