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Moradora de um condomínio no Belenzinho (SP) junto ao seu marido e as suas quatro filhas, a autônoma já deixou de pagar a mensalidade do prédio para não atrasar outras contas, como escola e plano de saúde.
“Nós vivemos um momento super delicado economicamente falando. O custo de vida fica cada vez mais caro e, quando a gente é CLT, não recebe aumento na mesma proporção da inflação. Então temos que fazer escolhas”, diz.
Num passado, uma dessas escolhas foi deixar de pagar o cartão de crédito. “Mas foi a pior coisa que eu já fiz”, relembra. Hoje, os juros do rotativo ficam acima dos 400% ao ano. Já o os juros por atraso na cota de condomínio são normalmente convencionados (limitados por Lei) a 1% ao mês + 2% de multa (aproximadamente 14,2% ao ano).
Na matematica da contenção de danos, é essa conta que deixa de ser paga. Ainda mais porque ela representa uma boa fatia da receita do condomínio: em torno de 25%, segundo um estudo realizado pela Pontual Garantidora, empresa de antecipação de crédito condominial.
“É uma realidade. Nas conversas com clientes e moradores, percebemos que, quando alguém deixa de pagar o condomínio, geralmente já comprometeu outras partes do orçamento, como cartão de crédito, aluguel, parcelas do carro ou outros financiamentos”, afirma Léo Mack, cofundador e diretor de operações da uCondo, empresa de tecnologia para gestão de condomínios.
Sendo assim, diante de um imprevisto financeiro, o consumidor prioriza quitar faturas com encargos elevados. O boleto do prédio passa a atuar, na prática, como uma "linha de crédito informal" de baixo custo para a família, aponta o levantamento. É a chamada “inadimplência estratégica”.
“Isso é sintoma clássico de um cenário de juros altos combinado com renda pressionada pela inflação. Quando o orçamento não fecha, o consumidor passa a hierarquizar dívidas — mas nem sempre da forma mais racional”, diz Davi Duarte, gestor de Expansão e economista da Mhydas Planejamento Financeiro.
“O dado de que o condomínio já compromete 25% da renda é revelador: é uma despesa fixa, recorrente e de difícil corte (diferente de outras contas que dá para renegociar ou cortar), então quando o aperto vem, é natural que apareça na lista de ‘o que atrasar primeiro’ — mesmo sendo, paradoxalmente, uma das dívidas mais baratas do mercado”, complementa.
Renda comprometida
De acordo com o levantamento do Censo Condominial 2025/26, da uCondo, o Brasil possui 327.248 condomínios ativos. O Sudeste é a região que concentra o maior número, com, 178.483 (55%), seguido pelo Sul, com 84.303 (26%) e pelo Nordeste com 40.774 (13%). Na sequência aparecem o Centro-Oeste, com 17.582 (5%), e o Norte, com 3.803 (1%).
Em relação à taxa condominial, o levantamento mostrou que, entre o 1º semestre de 2022 e o 1º semestre de 2026, a média da taxa condominial no Brasil subiu de R$ 413 para R$ 538 — um avanço contínuo, semestre a semestre, que totaliza R$ 125 (+30,27% no período desde o início da série histórica).
“A taxa do condomínio se tornou mais uma conta dentro do orçamento pressionado das famílias. Mas, diferentemente de outras despesas que podem eventualmente ser adiadas, a arrecadação da taxa está diretamente ligada à capacidade do condomínio de se manter em funcionamento”, comenta Mack.
“Complica ainda mais o fato de ser uma estrutura compartilhada. Ou seja, mesmo aqueles que conseguem pagar saem prejudicados”, destaca.
Mas o estudo da Pontual Garantidora mostra que a taxa condominial pode pesar ainda mas. Em Niterói (RJ), por exemplo, a cota médica do condomínio é R$ 1.150. Com um rendimento médio familiar de R$ 4.200, ela representa 27,38% do comprometimento da renda.
Em São Paulo (SP), a cota média do condomínio é de R$ 980, enquanto o rendimento médio familiar é de R$ 3.800. Com isso, o comprometimento da renda é de 25,79%. Já em Santos (SP), a cota gira em torno de R$ 920. Considerando um rendimento de R$ 3.650 o comprometimento da renda é de 25,21%.
Já em Balneário Camboriú (SC), esse número é de R$ 890, com uma renda média de R$ 3.550 o comprometimento alcança 25,07%. Por fim, em Porto Alegre (RS) a cota média é de R$ 750, enquanto o rendimento médio é de R$ 3.300, resultando em um comprometimento da renda de 22,73%.
Brasil bate recorde de inadimplência e atraso nos condomínios
A inadimplência, que já pesa sobre o orçamento das famílias brasileiras, também se tornou um problema cada vez mais relevante para os condomínios. No primeiro semestre de 2026, 12,50% das taxas condominiais estavam em atraso há mais de 30 dias, segundo o levantamento da uCondo.
De acordo com a base da companhia, a inadimplência da taxa condominial acima de 30 dias já vinha em uma trajetória de alta anual. Depois de registrar 9,72% no primeiro semestre de 2022 e 8,65% no segundo, o indicador passou a 9,14% no primeiro semestre de 2023 e 9,92% no segundo. Em 2024, ficou em 9,99% e 9,83%, respectivamente. A partir de 2025, o percentual subiu para 11,95% no primeiro semestre e 11,66% no segundo.
O avanço acompanha um cenário mais amplo de dificuldade financeira entre os consumidores. Em setembro de 2025, 30,5% das famílias brasileiras tinham contas em atraso, o maior nível da série histórica iniciada em 2010, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Entre os consumidores inadimplentes, 13% disseram não ter condições de quitar as dívidas atrasadas.
Quando o problema chega ao condomínio, porém, o impacto deixa de ser apenas individual. O atraso no pagamento das taxas reduz o dinheiro disponível no caixa e pode dificultar despesas recorrentes, obras, manutenção e outros serviços necessários para o funcionamento do empreendimento.
E o aumento da inadimplência condominial não ficou restrito a uma região do país. O recorte regional mostra que o Norte registra o maior índice de inadimplência, com 19,09%. Na sequência aparecem o Nordeste, com 12,71%, e o Sudeste, com 12,28%. Já o Sul apresenta taxa de 11,61%, enquanto o Centro-Oeste tem o menor percentual entre as regiões analisadas, com 8,52%.
Para Mack, a diferença entre as regiões reflete um cenário econômico que pressiona de maneira desigual o orçamento das famílias.
“Quando a renda fica mais comprometida e o custo do crédito aumenta, despesas recorrentes passam a disputar espaço no orçamento doméstico. Em regiões onde essa pressão financeira é maior, o impacto tende a aparecer também no pagamento das taxas condominiais. Os dados mostram justamente como esse movimento não ocorre de forma uniforme no país.”
Mas o levantamento da Pontual Garantidora aponta para um cenário ainda mais desafiador entre os condomínios atendidos pela empresa. Segundo Guto Germano, sócio-diretor da Pontual Garantidora, a companhia trabalha atualmente com mais de mil condomínios, nos quais a média de impontualidade e inadimplência chega a 22%.
Considerando apenas os pagamentos que ultrapassam 30 dias de atraso, o índice fica em torno de 16%.
A diferença entre os indicadores está no tempo de atraso. Segundo ele, os pagamentos que ainda não passaram de 30 dias entram na categoria de impontualidade, enquanto os atrasos mais longos são considerados inadimplência. “Eu falo que pontualidade é do zero aos 30 dias. Depois do 21º vira inadimplência. Então, até o 21º, 22% não pagam”, comenta.
Para os condomínios, o problema não termina no morador que deixa de pagar. A conta precisa ser absorvida pelo orçamento do empreendimento, o que pode aumentar a pressão sobre os demais condôminos que mantêm os pagamentos em dia.
“Então, se eu tenho lá uma inadimplência de 16%, na média, eu tenho que colocar na planilha orçamentária, que é feita todo ano na assembleia ordinária, 16% a mais. Eu tenho que carregar isso daí, 16% a mais, para ratear isso, ou seja, ser pago entre os adimplentes”, afirma Germano.
Na prática, portanto, o atraso de parte dos moradores pode elevar o custo para quem paga em dia.“Então, com certeza, a inadimplência de um é paga pelo adimplente”, diz o executivo.
"O condômino não deixa de pagar o condomínio por má-fé, mas por uma escolha matemática de sobrevivência. O problema é que o condomínio não é uma instituição financeira e não possui margem de lucro para absorver esse calote temporário”, pontua. “A inadimplência de poucas unidades gera um rombo imediato nas contas, empurrando o síndico a aprovar rateios extras e repassar a conta para os vizinhos que pagam em dia.”
O perigo de deixar de pagar o condomínio
O atraso na taxa condominial pode parecer, à primeira vista, uma forma de ganhar fôlego no orçamento. Na prática, porém, a estratégia pode sair cara. Segundo Germano, existe uma falsa percepção de que deixar de pagar o condomínio não traz consequências mais graves. “Muitas pessoas entram num erro dizendo: ‘Não vou pagar o condomínio, porque não dá nada’. E não existe isso, ele pode até perder o imóvel.”
A dívida de condomínio tem uma característica jurídica específica, conhecida como propter rem, expressão em latim que indica uma obrigação vinculada ao próprio imóvel. Por isso, segundo Germano, o débito não desaparece caso o proprietário simplesmente deixe de pagar e tente negociar posteriormente.
Além do valor original, a dívida pode crescer com a incidência de juros, multa e outros custos caso a cobrança avance. “Ele vai pagar juros, multa do condomínio e mais os encargos extrajudiciais e advocatícios. Se vier para a Justiça, ainda tem as despesas judiciárias”, afirma. E, ainda, se a cobrança chegar à fase de execução e não houver pagamento, o imóvel pode ser levado a leilão.
O impacto da inadimplência, no entanto, não fica restrito a quem deixou de pagar. Como o condomínio funciona, na prática, como uma divisão das despesas comuns entre as unidades, a falta de pagamento de um morador afeta o caixa disponível para bancar os custos do empreendimento.
“O condomínio nada mais é que uma divisão de despesas. Ele tem um CNPJ, mas não é uma empresa; é uma divisão de despesas”, explica Germano. Entre os gastos estão contas de água, luz e gás, além de serviços terceirizados e mão de obra.
Para ilustrar o efeito, o executivo usa um exemplo hipotético: um condomínio com dez unidades e R$ 100 mil em despesas mensais. Se um dos moradores deixa de pagar, 10% da receita prevista desaparece. A administração terá então de encontrar uma forma de cobrir esse buraco.
A persistência de uma parcela relevante dos débitos interfere diretamente na previsibilidade financeira do condomínio. Despesas como limpeza, manutenção, segurança, consumo de água e energia, contratos terceirizados e serviços obrigatórios continuam existindo independentemente das taxas estarem sendo pagas ou não.
“Quando a arrecadação fica abaixo do previsto, o condomínio precisa administrar uma diferença entre o orçamento planejado e o dinheiro efetivamente disponível”, aponta Mack.
O resultado é um ciclo em que o aperto financeiro do morador pode se transformar em um problema coletivo: enquanto uma família posterga a despesa, o condomínio precisa manter suas contas em dia — e uma possibilidade é aumentar o rateio entre os demais moradores.
“Não é sempre, mas há alguns meses eu precisei fazer essa escolha, de qual boleto eu ia pagar. Eu fui fazer a conta, sentei com meu marido e comecei a conversar: ‘Escola não dá para atrasar, porque os juros da mensalidade da escola são mais altos, inclusive, do que os do condomínio. Então começamos a colocar na ponta do lápis qual conta teria menos impacto”, conta Alves. “Então, quando o calo aperta é uma das contas que a gente deixa atrasar. O cartão de crédito, por exemplo, não dá para deixar”.
Entretanto, o levantamento da uCondo mostra um ponto positivo. Considerando o segundo semestre de 2025, quando a inadimplência após 30 dias estava em 11,66%, o monitoramento até julho de 2026 mostra que o percentual caiu para 9,74%, ou seja, parte das dívidas foram pagas; a diferença foi de 1,92 ponto percentual (p.p.). De acordo com os cálculos da uCondo, isso representa uma recuperação posterior de 16,46% dos débitos.
Brasileiro atrasa condomínio para pagar cartão de créditoJuros de condomínio atrasado são menores que os do rotativo do cartão, mas 'manobra' exige cuidadosEconomia2026-09-14T20:38:22.810ZAs brincadeiras que circulam na internet sobre “sortear um boleto no fim do mês para pagar” já virou a realidade de alguns brasileiros – e é o caso de Tabata Alves. . A estratégia? Ficar inadimplemente em débitos com juros mais baixos e pagar aqueles com juros mais altos. 📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! e siga o canal do SBT News. Moradora de um condomínio no Belenzinho (SP) junto ao seu marido e as suas quatro filhas, a autônoma já deixou de pagar a mensalidade do prédio para não atrasar outras contas, como escola e plano de saúde. “Nós vivemos um momento super delicado economicamente falando. O custo de vida fica cada vez mais caro e, quando a gente é CLT, não recebe aumento na mesma proporção da inflação. Então temos que fazer escolhas”, diz. Num passado, uma dessas escolhas foi deixar de pagar o cartão de crédito. “Mas foi a pior coisa que eu já fiz”, relembra. Hoje, os juros do rotativo ficam acima dos 400% ao ano. Já o os juros por atraso na cota de condomínio são normalmente convencionados (limitados por Lei) a 1% ao mês + 2% de multa (aproximadamente 14,2% ao ano). Na matematica da contenção de danos, é essa conta que deixa de ser paga. Ainda mais porque ela representa uma boa fatia da receita do condomínio: em torno de 25%, segundo um estudo realizado pela Pontual Garantidora, empresa de antecipação de crédito condominial. “É uma realidade. Nas conversas com clientes e moradores, percebemos que, quando alguém deixa de pagar o condomínio, geralmente já comprometeu outras partes do orçamento, como cartão de crédito, aluguel, parcelas do carro ou outros financiamentos”, afirma Léo Mack, cofundador e diretor de operações da uCondo, empresa de tecnologia para gestão de condomínios. Sendo assim, diante de um imprevisto financeiro, o consumidor prioriza quitar faturas com encargos elevados. O boleto do prédio passa a atuar, na prática, como uma "linha de crédito informal" de baixo custo para a família, aponta o levantamento. É a chamada “inadimplência estratégica”. “Isso é sintoma clássico de um cenário de juros altos combinado com renda pressionada pela inflação. Quando o orçamento não fecha, o consumidor passa a hierarquizar dívidas — mas nem sempre da forma mais racional”, diz Davi Duarte, gestor de Expansão e economista da Mhydas Planejamento Financeiro. “O dado de que o condomínio já compromete 25% da renda é revelador: é uma despesa fixa, recorrente e de difícil corte (diferente de outras contas que dá para renegociar ou cortar), então quando o aperto vem, é natural que apareça na lista de ‘o que atrasar primeiro’ — mesmo sendo, paradoxalmente, uma das dívidas mais baratas do mercado”, complementa. Renda comprometida De acordo com o levantamento do Censo Condominial 2025/26, da uCondo, o Brasil possui 327.248 condomínios ativos. O Sudeste é a região que concentra o maior número, com, 178.483 (55%), seguido pelo Sul, com 84.303 (26%) e pelo Nordeste com 40.774 (13%). Na sequência aparecem o Centro-Oeste, com 17.582 (5%), e o Norte, com 3.803 (1%). Em relação à taxa condominial, o levantamento mostrou que, entre o 1º semestre de 2022 e o 1º semestre de 2026, a média da taxa condominial no Brasil subiu de R$ 413 para R$ 538 — um avanço contínuo, semestre a semestre, que totaliza R$ 125 (+30,27% no período desde o início da série histórica). “A taxa do condomínio se tornou mais uma conta dentro do orçamento pressionado das famílias. Mas, diferentemente de outras despesas que podem eventualmente ser adiadas, a arrecadação da taxa está diretamente ligada à capacidade do condomínio de se manter em funcionamento”, comenta Mack. “Complica ainda mais o fato de ser uma estrutura compartilhada. Ou seja, mesmo aqueles que conseguem pagar saem prejudicados”, destaca. Mas o estudo da Pontual Garantidora mostra que a taxa condominial pode pesar ainda mas. Em Niterói (RJ), por exemplo, a cota médica do condomínio é R$ 1.150. Com um rendimento médio familiar de R$ 4.200, ela representa 27,38% do comprometimento da renda. Em São Paulo (SP), a cota média do condomínio é de R$ 980, enquanto o rendimento médio familiar é de R$ 3.800. Com isso, o comprometimento da renda é de 25,79%. Já em Santos (SP), a cota gira em torno de R$ 920. Considerando um rendimento de R$ 3.650 o comprometimento da renda é de 25,21%. Já em Balneário Camboriú (SC), esse número é de R$ 890, com uma renda média de R$ 3.550 o comprometimento alcança 25,07%. Por fim, em Porto Alegre (RS) a cota média é de R$ 750, enquanto o rendimento médio é de R$ 3.300, resultando em um comprometimento da renda de 22,73%. Brasil bate recorde de inadimplência e atraso nos condomínios A inadimplência, que já pesa sobre o orçamento das famílias brasileiras, também se tornou um problema cada vez mais relevante para os condomínios. No primeiro semestre de 2026, 12,50% das taxas condominiais estavam em atraso há mais de 30 dias, segundo o levantamento da uCondo. De acordo com a base da companhia, a inadimplência da taxa condominial acima de 30 dias já vinha em uma trajetória de alta anual. Depois de registrar 9,72% no primeiro semestre de 2022 e 8,65% no segundo, o indicador passou a 9,14% no primeiro semestre de 2023 e 9,92% no segundo. Em 2024, ficou em 9,99% e 9,83%, respectivamente. A partir de 2025, o percentual subiu para 11,95% no primeiro semestre e 11,66% no segundo. O avanço acompanha um cenário mais amplo de dificuldade financeira entre os consumidores. Em setembro de 2025, 30,5% das famílias brasileiras tinham contas em atraso, o maior nível da série histórica iniciada em 2010, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Entre os consumidores inadimplentes, 13% disseram não ter condições de quitar as dívidas atrasadas. Quando o problema chega ao condomínio, porém, o impacto deixa de ser apenas individual. O atraso no pagamento das taxas reduz o dinheiro disponível no caixa e pode dificultar despesas recorrentes, obras, manutenção e outros serviços necessários para o funcionamento do empreendimento. E o aumento da inadimplência condominial não ficou restrito a uma região do país. O recorte regional mostra que o Norte registra o maior índice de inadimplência, com 19,09%. Na sequência aparecem o Nordeste, com 12,71%, e o Sudeste, com 12,28%. Já o Sul apresenta taxa de 11,61%, enquanto o Centro-Oeste tem o menor percentual entre as regiões analisadas, com 8,52%. Para Mack, a diferença entre as regiões reflete um cenário econômico que pressiona de maneira desigual o orçamento das famílias. “Quando a renda fica mais comprometida e o custo do crédito aumenta, despesas recorrentes passam a disputar espaço no orçamento doméstico. Em regiões onde essa pressão financeira é maior, o impacto tende a aparecer também no pagamento das taxas condominiais. Os dados mostram justamente como esse movimento não ocorre de forma uniforme no país.” Mas o levantamento da Pontual Garantidora aponta para um cenário ainda mais desafiador entre os condomínios atendidos pela empresa. Segundo Guto Germano, sócio-diretor da Pontual Garantidora, a companhia trabalha atualmente com mais de mil condomínios, nos quais a média de impontualidade e inadimplência chega a 22%. Considerando apenas os pagamentos que ultrapassam 30 dias de atraso, o índice fica em torno de 16%. A diferença entre os indicadores está no tempo de atraso. Segundo ele, os pagamentos que ainda não passaram de 30 dias entram na categoria de impontualidade, enquanto os atrasos mais longos são considerados inadimplência. “Eu falo que pontualidade é do zero aos 30 dias. Depois do 21º vira inadimplência. Então, até o 21º, 22% não pagam”, comenta. Para os condomínios, o problema não termina no morador que deixa de pagar. A conta precisa ser absorvida pelo orçamento do empreendimento, o que pode aumentar a pressão sobre os demais condôminos que mantêm os pagamentos em dia. “Então, se eu tenho lá uma inadimplência de 16%, na média, eu tenho que colocar na planilha orçamentária, que é feita todo ano na assembleia ordinária, 16% a mais. Eu tenho que carregar isso daí, 16% a mais, para ratear isso, ou seja, ser pago entre os adimplentes”, afirma Germano. Na prática, portanto, o atraso de parte dos moradores pode elevar o custo para quem paga em dia.“Então, com certeza, a inadimplência de um é paga pelo adimplente”, diz o executivo. "O condômino não deixa de pagar o condomínio por má-fé, mas por uma escolha matemática de sobrevivência. O problema é que o condomínio não é uma instituição financeira e não possui margem de lucro para absorver esse calote temporário”, pontua. “A inadimplência de poucas unidades gera um rombo imediato nas contas, empurrando o síndico a aprovar rateios extras e repassar a conta para os vizinhos que pagam em dia.” O perigo de deixar de pagar o condomínio O atraso na taxa condominial pode parecer, à primeira vista, uma forma de ganhar fôlego no orçamento. Na prática, porém, a estratégia pode sair cara. Segundo Germano, existe uma falsa percepção de que deixar de pagar o condomínio não traz consequências mais graves. “Muitas pessoas entram num erro dizendo: ‘Não vou pagar o condomínio, porque não dá nada’. E não existe isso, ele pode até perder o imóvel.” A dívida de condomínio tem uma característica jurídica específica, conhecida como propter rem, expressão em latim que indica uma obrigação vinculada ao próprio imóvel. Por isso, segundo Germano, o débito não desaparece caso o proprietário simplesmente deixe de pagar e tente negociar posteriormente. Além do valor original, a dívida pode crescer com a incidência de juros, multa e outros custos caso a cobrança avance. “Ele vai pagar juros, multa do condomínio e mais os encargos extrajudiciais e advocatícios. Se vier para a Justiça, ainda tem as despesas judiciárias”, afirma. E, ainda, se a cobrança chegar à fase de execução e não houver pagamento, o imóvel pode ser levado a leilão. O impacto da inadimplência, no entanto, não fica restrito a quem deixou de pagar. Como o condomínio funciona, na prática, como uma divisão das despesas comuns entre as unidades, a falta de pagamento de um morador afeta o caixa disponível para bancar os custos do empreendimento. “O condomínio nada mais é que uma divisão de despesas. Ele tem um CNPJ, mas não é uma empresa; é uma divisão de despesas”, explica Germano. Entre os gastos estão contas de água, luz e gás, além de serviços terceirizados e mão de obra. Para ilustrar o efeito, o executivo usa um exemplo hipotético: um condomínio com dez unidades e R$ 100 mil em despesas mensais. Se um dos moradores deixa de pagar, 10% da receita prevista desaparece. A administração terá então de encontrar uma forma de cobrir esse buraco. A persistência de uma parcela relevante dos débitos interfere diretamente na previsibilidade financeira do condomínio. Despesas como limpeza, manutenção, segurança, consumo de água e energia, contratos terceirizados e serviços obrigatórios continuam existindo independentemente das taxas estarem sendo pagas ou não. “Quando a arrecadação fica abaixo do previsto, o condomínio precisa administrar uma diferença entre o orçamento planejado e o dinheiro efetivamente disponível”, aponta Mack. O resultado é um ciclo em que o aperto financeiro do morador pode se transformar em um problema coletivo: enquanto uma família posterga a despesa, o condomínio precisa manter suas contas em dia — e uma possibilidade é aumentar o rateio entre os demais moradores. “Não é sempre, mas há alguns meses eu precisei fazer essa escolha, de qual boleto eu ia pagar. Eu fui fazer a conta, sentei com meu marido e comecei a conversar: ‘Escola não dá para atrasar, porque os juros da mensalidade da escola são mais altos, inclusive, do que os do condomínio. Então começamos a colocar na ponta do lápis qual conta teria menos impacto”, conta Alves. “Então, quando o calo aperta é uma das contas que a gente deixa atrasar. O cartão de crédito, por exemplo, não dá para deixar”. Entretanto, o levantamento da uCondo mostra um ponto positivo. Considerando o segundo semestre de 2025, quando a inadimplência após 30 dias estava em 11,66%, o monitoramento até julho de 2026 mostra que o percentual caiu para 9,74%, ou seja, parte das dívidas foram pagas; a diferença foi de 1,92 ponto percentual (p.p.). De acordo com os cálculos da uCondo, isso representa uma recuperação posterior de 16,46% dos débitos.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/economia/brasileiro-atrasa-condominio-para-pagar-cartao-de-credito