Economia

“Brasil sai em vantagem”, avalia ex-diretor da OMC sobre tarifaço de Trump

Apesar de Brasil ficar com taxas menores, Roberto Azevêdo ressalta que "haverá um impacto global e ele não vai ser pequeno"

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Lara Curcino, Jésus Mosquéra
04/04/2025, 21:32 • Atualizado em 04/04/2025, 23:10
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O embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), afirmou nesta sexta-feira (4) que o Brasil “saiu em vantagem” após o anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, da taxação à mercadoria de diversos países.

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A medida foi divulgada por Trump na quarta (2). As tarifas vão de 10% (aplicadas ao Brasil e a outros 20 países) a até 49% (destinadas ao Cambodja). O anúncio provocou reação de diversas nações e da economia global.

“Como o Brasil foi selecionado para receber uma tarifa adicional de 10% apenas, ele sai em vantagem em comparação com outros fornecedores que coloquem produtos que estejam competindo com o produto brasileiro no mercado americano. Ali dentro do mercado americano nós perdemos competitividade com relação ao produto fabricado nos Estados Unidos, mas ganhamos competitividade ou mantivemos com relação aos outros fornecedores. Mundo afora muda muito, vai depender das medidas de retaliação que outros países adotem”, ponderou ele, em entrevista ao programa Poder Expresso, do SBT News.

A China foi o primeiro país a anunciar retaliação aos Estados Unidos. O governo de Xi Jinping comunicou nesta sexta que aplicaria tarifas de 34% ao mercado americano, mesmo valor em que foi taxado por Trump. O embate entre os dois países resultou na disparada do dólar e no derretimento da bolsa de valores de diversas nações, incluindo a brasileira.

Na análise de Azevêdo, esse é apenas o começo das consequências econômicas do “tarifaço” de Donald Trump. Ele defende que o saldo ao redor do mundo será negativo, apesar de um resultado benéfico para o Brasil no primeiro momento.

“A inflação mundial vai crescer, a economia global deve desacelerar. E essas coisas não são boas. De uma maneira geral, haverá um impacto e ele não vai ser pequeno. [...] O efeito líquido é negativo. Agora, haverá ganhos pontuais. Como eu disse, alguns produtos brasileiros podem se beneficiar entrando em mercados que vão fechar para o produto americano. Se a China, por exemplo, parar de comprar soja, milho, carne ou ferro dos Estados Unidos, então o Brasil evidentemente vai ganhar, os produtores brasileiros que colocam esse produto no mercado vão se beneficiar”, pontuou o embaixador.

O ex-diretor-geral da OMC destacou que a estratégia de Trump com o “tarifaço” é arrecadar mais dinheiro para diminuir o cenário de déficit fiscal “bastante significativo” em que se encontra o governo americano.

“O presidente Trump disse várias vezes que espera que trilhões de dólares entrem nos cofres do tesouro em função dessas tarifas mais altas. Outra coisa que ele gosta de reiterar é o fato de que essas tarifas vão promover a reindustrialização dos Estados Unidos. Vão trazer fábricas, plantas produtivas para dentro do território nacional americano, até para evitar que as tarifas sejam cobradas. Como ele fala: se é “made in de USA” [feito nos EUA], não vai pagar imposto”, detalhou.

Tarifaço e a OMC

Roberto Azevêdo declarou ainda que a medida anunciada por Trump viola as principais regras da Organização Mundial do Comércio e demonstra que a OMC perdeu a relevância que tinha antes.

“Os Estados Unidos acabaram de pegar o livro de regras da OMC e jogar no lixo. Todas essas medidas são uma violação patente das regras principais da OMC, inclusive o fato de que você não pode adotar tarifas diferentes para o país A, B, C ou D. Tem que adotar tarifa igual para todo mundo. Espero que os outros países tomem cuidado para não fazer a mesma coisa, para tentar preservar o máximo possível das regras internacionais, porque são normas que oferecem estabilidade [econômica]. O investidor precisa de estabilidade. Perder esse sistema completamente vai ser um baque extraordinário na economia mundial".

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