BC aponta recuo nos empréstimos, mas alta do crédito público
Ata do Copom aponta queda dos empréstimos sujeitos a Selic e avanço do crédito com apoio público, em movimento interpretado por analistas como recado ao governo
Caio Barcellos
Prédio do Banco Central em Brasília | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil - 26.10.2023
O Banco Central incluiu na ata de setembro do Comitê de Política Monetária (Copom) uma análise sobre o comportamento do crédito no Brasil, na qual aponta que os empréstimos de longo prazo estão perdendo força, enquanto os financiamentos imobiliários e as operações para empresas com apoio de fundos garantidores continuam crescendo.
A avaliação consta do documento divulgado nesta terça-feira (22), que detalha as discussões da reunião realizada nos dias 15 e 16 de setembro, quando o Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros, a Selic, de 14% para 13,75% ao ano.
Segundo o Copom, a desaceleração dos financiamentos de prazo mais longo demonstra que os juros elevados estão produzindo efeitos sobre a economia, uma vez que essas operações costumam reagir mais intensamente às mudanças na Selic.
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"A evolução do mercado de crédito bancário com recursos livres também é consistente com um quadro de desaceleração do crescimento, em meio a uma política monetária restritiva [...] Por outro lado, os créditos com recursos direcionados mantiveram trajetória de expansão para pessoas físicas, na linha do crédito imobiliário, e para empresas, sustentados pelas operações com fundos garantidores", afirma a ata.
O crédito livre reúne operações cujas taxas são negociadas entre banco e clientes, como empréstimos pessoais e financiamentos empresariais. Já o direcionado utiliza recursos destinados a finalidades específicas, incluindo financiamentos habitacionais e operações vinculadas a programas públicos.
O que dizem os dados
As publicações mais recentes do BC mostram que as duas modalidades de financiamento realmente apresentam comportamentos diferentes, mesmo diante da desaceleração da atividade econômica e da manutenção dos juros em patamares elevados.
Em julho, o saldo do crédito com recursos livres recuou 0,1% em relação a junho, enquanto o crédito direcionado avançou 0,8% no mesmo período. No total, os empréstimos concedidos pelo sistema financeiro somaram aproximadamente R$ 7,4 trilhões, com crescimento de 9,5% em 12 meses.
Os dados de crédito referentes a agosto de 2026 serão divulgados pelo BC na próxima terça-feira (29), conforme o calendário oficial da autarquia.
A diferença também aparece nos financiamentos imobiliários para pessoas físicas, cujo saldo alcançou R$ 1,415 trilhão em julho, após crescimento de 1,4% em relação ao mês anterior e de 13,7% na comparação com o mesmo período de 2025.
No segmento empresarial, o BC observou que os juros elevados estão afetando principalmente os empréstimos de longo prazo, enquanto os financiamentos com apoio de fundos garantidores continuam em expansão, o que evidencia diferenças na resposta das modalidades de crédito à política monetária.
Especialistas veem possível recado
Para a consultoria Warren Rena, a inclusão da análise sobre o crédito é inédita e pode representar uma manifestação do BC a respeito de políticas governamentais que sustentam a concessão de financiamentos, mesmo quando os juros elevados deveriam contribuir para desacelerar a demanda.
“Vale lembrar que [o crédito imobiliário e as operações empresariais apoiadas por fundos garantidores] em muitos casos estão associados às políticas públicas. Aqui, pode ser entendido como uma manifestação do BC em relação a políticas de governo que reduzem a eficiência desse canal de transmissão”, avalia a análise assinada por Luis Felipe Vital, Cecília Mazzoni e Felipe Figueiró.
Isso ocorre porque a elevação da Selic tende a encarecer os empréstimos, desestimular o consumo e os investimentos e, consequentemente, reduzir a pressão inflacionária sobre os preços. Quando determinadas modalidades continuam crescendo por contar com fontes específicas de recursos ou garantias, parte desse efeito pode ser atenuada.
Na ata, o Copom não atribui diretamente a expansão do crédito direcionado a uma medida específica do governo nem defende a redução dessas operações, mas reforça “a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas”.
BC aponta recuo nos empréstimos, mas alta do crédito públicoAta do Copom aponta queda dos empréstimos sujeitos a Selic e avanço do crédito com apoio público, em movimento interpretado por analistas como recado ao governoEconomia2026-09-22T13:09:31.478ZO Banco Central incluiu na ata de setembro do Comitê de Política Monetária (Copom) uma análise sobre o comportamento do crédito no Brasil, na qual aponta que os empréstimos de longo prazo estão perdendo força, enquanto os financiamentos imobiliários e as operações para empresas com apoio de fundos garantidores continuam crescendo. A avaliação consta do documento divulgado nesta terça-feira (22), que detalha as discussões da reunião realizada nos dias 15 e 16 de setembro, quando o Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros, a Selic, de 14% para 13,75% ao ano. Segundo o Copom, a desaceleração dos financiamentos de prazo mais longo demonstra que os juros elevados estão produzindo efeitos sobre a economia, uma vez que essas operações costumam reagir mais intensamente às mudanças na Selic. "A evolução do mercado de crédito bancário com recursos livres também é consistente com um quadro de desaceleração do crescimento, em meio a uma política monetária restritiva [...] Por outro lado, os créditos com recursos direcionados mantiveram trajetória de expansão para pessoas físicas, na linha do crédito imobiliário, e para empresas, sustentados pelas operações com fundos garantidores", afirma a ata. O crédito livre reúne operações cujas taxas são negociadas entre banco e clientes, como empréstimos pessoais e financiamentos empresariais. Já o direcionado utiliza recursos destinados a finalidades específicas, incluindo financiamentos habitacionais e operações vinculadas a programas públicos. O que dizem os dados As publicações mais recentes do BC mostram que as duas modalidades de financiamento realmente apresentam comportamentos diferentes, mesmo diante da desaceleração da atividade econômica e da manutenção dos juros em patamares elevados. Em julho, o saldo do crédito com recursos livres recuou 0,1% em relação a junho, enquanto o crédito direcionado avançou 0,8% no mesmo período. No total, os empréstimos concedidos pelo sistema financeiro somaram aproximadamente R$ 7,4 trilhões, com crescimento de 9,5% em 12 meses. Os dados de crédito referentes a agosto de 2026 serão divulgados pelo BC na próxima terça-feira (29), conforme o calendário oficial da autarquia. A diferença também aparece nos financiamentos imobiliários para pessoas físicas, cujo saldo alcançou R$ 1,415 trilhão em julho, após crescimento de 1,4% em relação ao mês anterior e de 13,7% na comparação com o mesmo período de 2025. No segmento empresarial, o BC observou que os juros elevados estão afetando principalmente os empréstimos de longo prazo, enquanto os financiamentos com apoio de fundos garantidores continuam em expansão, o que evidencia diferenças na resposta das modalidades de crédito à política monetária. Especialistas veem possível recado Para a consultoria Warren Rena, a inclusão da análise sobre o crédito é inédita e pode representar uma manifestação do BC a respeito de políticas governamentais que sustentam a concessão de financiamentos, mesmo quando os juros elevados deveriam contribuir para desacelerar a demanda. “Vale lembrar que [o crédito imobiliário e as operações empresariais apoiadas por fundos garantidores] em muitos casos estão associados às políticas públicas. Aqui, pode ser entendido como uma manifestação do BC em relação a políticas de governo que reduzem a eficiência desse canal de transmissão”, avalia a análise assinada por Luis Felipe Vital, Cecília Mazzoni e Felipe Figueiró. Isso ocorre porque a elevação da Selic tende a encarecer os empréstimos, desestimular o consumo e os investimentos e, consequentemente, reduzir a pressão inflacionária sobre os preços. Quando determinadas modalidades continuam crescendo por contar com fontes específicas de recursos ou garantias, parte desse efeito pode ser atenuada. Na ata, o Copom não atribui diretamente a expansão do crédito direcionado a uma medida específica do governo nem defende a redução dessas operações, mas reforça “a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas”.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/economia/bc-aponta-recuo-nos-emprestimos-mas-alta-do-credito-publico
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