“Eles teriam tudo para se odiar e não fazem isso”, diz Gianecchini sobre peça ‘Um Dia Muito Especial’
Espetáculo estreia no Rio de Janeiro no dia 27 e adapta clássico italiano para falar sobre empatia em tempos de intolerância


Luccas Balacci
Em um dia marcante em Roma, dois personagens que representam lados opostos de um regime autoritário se encontram e mudam a própria história. Esse é o ponto de partida de "Um Dia Muito Especial", espetáculo estrelado por Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall, que estreia no Teatro Claro Mais RJ, em Copacabana, no dia 27 de fevereiro.
Inspirada em clássico do cinema italiano de 1977, a peça se passa em 6 de maio de 1938, durante a visita de Adolf Hitler à Itália fascista. Enquanto a multidão celebra o encontro e a aliança política nas ruas – sem imaginar o que viria nos anos seguintes –, dois vizinhos permanecem em casa, em um silêncio que desperta o diálogo central da trama.
Ao SBT News, Gianecchini fala sobre o pano de fundo da montagem, o desafio de adaptar o clássico do cinema para o palco e, principalmente, sobre a mensagem de escuta e humanidade que atravessa o tempo. A montagem tem direção de Alexandre Reinecke e tradução de Célia Tolentino. Confira a entrevista:
Como você apresentaria a peça para quem não sabe nada sobre a história?
Essa peça é em cima de um filme italiano, de 1977, feito pelo Marcello Mastroianni e a Sophia Loren. Um filme que fez muito sucesso lá atrás e até hoje reverbera muito. Se passa num dia que aconteceu de verdade. A história é fictícia, mas esse dia é real, é um dia onde, na Itália fascista, eles recebem o Hitler com todas as honras e todo mundo vai para a rua, menos esses dois personagens.
Ele é antifascista, perseguido pelo fascismo porque é um homem gay, acabou de ser demitido. E ela é uma mulher fascista, criada nesse sistema, mas que não vai porque tem muitos afazeres. A mulher no fascismo era muito apagada, não tinha existência, vivia para cuidar dos seis filhos. Esses dois personagens acabam se encontrando e vivem nesse dia um encontro que transforma a vida deles.
A peça é mais um retrato histórico ou existe uma mensagem para o presente?
Eu acho que é mais que um retrato de um tempo. A gente precisa continuar falando sobre isso, com certeza, mas mais que tudo, para mim, a peça não é exatamente sobre isso. Ela está situada nesse sistema, mas é um pano de fundo. A história é sobre a humanidade. Eles teriam tudo para se odiar de cara, de se estranhar. E eles não fazem isso. Eles param para se ouvir. E se permitem serem transformados a partir desse não julgamento.O que mais te toca nessa história?
É ouvir, sem julgar tanto, e só estabelecer o diálogo. Isso que é bonito. Quando a gente não se permite ouvir o outro, a gente fica muito congelado numa ideia. A gente nunca tem uma verdade absoluta. A gente tem a nossa opinião, a nossa crença, mas a verdade tem sempre vários olhares sobre ela. É olhar para o outro como um ser humano, não como uma ameaça. Mesmo que você não concorde, você pode trocar afeto. Eles encontram o território do não julgamento.

Como foi o desafio de levar para o palco uma história tão marcada pelo cinema?
No cinema, você conta no olhar. Você vê as transformações acontecendo nos olhares. No palco, você não conta com o olhar, porque ninguém enxerga o seu olhar. Você conta a história com o corpo inteiro, com a voz. Tudo é muito mais expressivo. É um desafio trazer aquilo que era bem pequenininho no cinema e ampliar num palco.
E o que o público pode esperar da montagem?
Eu gosto muito do teatro que faz pensar, mas gosto muito que seja leve também. Não que seja imposto à força. A gente vai sentindo a humanidade dos personagens de uma forma leve, tem música, eles vão meio que se apaixonando e vivem um amor platônico. Por isso que a gente acha que vale a pena trazer essa discussão para o dia de hoje. Acho que muita gente sai de lá com esse olhar: que bonito que é olhar para o ser humano.
Um Dia Muito Especial - Rio de Janeiro
Direção: Alexandre Reinecke
Elenco: Reynaldo Gianecchini, Maria Casadevall e Carolina Stofella
Temporada: 27 de fevereiro a 29 de março de 2026
- 27/2 a 8/3: sextas, às 20h; sábados e domingos, às 17h
- 13/3 a 29/3: sextas, às 20h; sábados, às 20h30; domingos, às 19h30
Local: Teatro Claro Mais RJ – Shopping Cidade Copacabana Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana – Rio de Janeiro
Ingressos: de R$ 60 a R$ 200
Duração: 75 minutos
Classificação: 12 anos









