Brasil

Volume do Cantareira atinge menor nível em quase 10 anos e há risco de desabastecimento em SP, diz especialista

Principal reservatório da Grande São Paulo opera abaixo de 20%; para presidente da SP Águas, sistema é mais resiliente do que em crise hídrica de 2014

O volume do Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, caiu para 19,4% da capacidade nesta sexta-feira (16) – o menor nível registrado em quase 10 anos, segundo dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Especialistas alertam que a situação é crítica e pode levar ao desabastecimento de água em 2026.

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O último registro semelhante ocorreu em fevereiro de 2016, quando o reservatório operava com 19,3% – já no fim da crise hídrica iniciada em 2014. O Cantareira abastece cerca de 9 milhões de pessoas na Grande São Paulo e também contribui para o fornecimento de água em Campinas e nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí.

Com o volume abaixo de 20% desde o dia 8 de janeiro, o sistema segue na Faixa de Restrição. Atualmente, a Sabesp é autorizada a retirar até 23 metros cúbicos por segundo (m³/s) dos reservatórios. Se o volume do Cantareira permanecer como está, a quantidade de água disponibilizada para a população deve ser reduzida.

Cantareira está com volume abaixo de 20% desde o dia 8 de janeiro | Reprodução/Sabesp
Cantareira está com volume abaixo de 20% desde o dia 8 de janeiro | Reprodução/Sabesp

Segundo o coordenador do Instituto Água e Saneamento (IAS), Eduardo Caetano, a gestão de demanda noturna – quando a Sabesp "corta" a água durante a noite –, por exemplo, deve durar cada vez mais.

Criadas pelo governo estadual, as faixas de operação definem medidas que vão de ações preventivas até procedimentos emergenciais, dependendo da gravidade da situação hídrica. A cada faixa (de um total de sete), há um incremento na restrição da demanda de água. Atualmente, o Sistema Integrado Metropolitano (SIM) está na Faixa 3.

Por que os reservatórios não se recuperam?

De acordo com especialistas, a recuperação dos mananciais tem sido prejudicada por meses de chuvas abaixo da média e por altas temperaturas, que secam o solo e dificultam a recomposição das represas.

"A gente vem de meses com chuvas bem abaixo da média e isso seca os solos e prejudica muito os mananciais. Para a recuperação dos mananciais, são necessárias muito mais chuvas do que essas grandes pancadas. É preciso chover por mais tempo, constante, para que o solo possa encharcar e o nível das represas começar a subir", explica Caetano.

Além disso, um relatório do IAS aponta que a captação de água aumentou mesmo com o regime de chuvas desfavorável, atingindo em 2025 o limite do que é possível retirar dos mananciais. "Mesmo no quadro das baixas chuvas, a gente aumentou a retirada dos mananciais, o que pode ter acelerado que o nível abaixasse", afirma o coordenador do IAS.

Situação crítica de reservatórios pode causar falta d'água em SP | Pedro França/Agência Senado
Situação crítica de reservatórios pode causar falta d'água em SP | Pedro França/Agência Senado

Há risco real de desabastecimento?

Segundo Caetano, embora o sistema de abastecimento seja mais robusto do que em 2014 – quando foi necessário usar o chamado "volume morto" –, o risco de desabastecimento é real e exige cuidados imediatos.

A hidróloga Adriana Cuartas, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), reforça que o cenário é preocupante, especialmente porque São Paulo já está na metade da estação chuvosa.

"Não há expectativa de aumento dos níveis dos reservatórios de uma maneira considerável. Com chuvas abaixo da média, altas temperaturas e a situação atual, os reservatórios não vão se recuperar, principalmente porque entraríamos em uma estação seca, a partir de abril, com níveis de reservatórios muito críticos", alerta.

Para ela, medidas mais duras, como racionamento programado por regiões, podem ser necessárias para preservar os níveis atuais.

O que dizem os órgãos responsáveis?

A diretora-presidente da Agência de Águas do Estado de São Paulo (SP Águas), Camila Viana, afirma que o órgão monitora diariamente os volumes dos reservatórios e que uma curva de segurança foi criada para evitar que o Sistema Integrado Metropolitano (SIM) fique abaixo de 30% até setembro, fim do período seco.

Segundo ela, o sistema é hoje mais resiliente do que em 2014, mas as mudanças climáticas tornam o cenário cada vez mais desafiador. Para além das medidas de gestão, Camila afirma que a participação da sociedade é fundamental, com mudanças de hábitos não apenas nos momentos críticos.

"Não é mudança só para agora, o que é extremamente importante. A relação com o recurso hídrico tem que ser mais consciente", afirma.

Ao SBT News, a Sabesp informou que segue as determinações dos órgãos reguladores e que a redução da pressão noturna, adotada desde agosto, atende a deliberação da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) e tem como objetivo preservar os reservatórios.

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