Brasil

Uma pessoa desaparece no Brasil a casa seis minutos

Na maior cidade do país, famílias convivem com a dor do sumiço e contam com redes de apoio e ações da polícia para reencontrar seus parentes

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Simone Queiroz, Victor Ferreira, Ailton Silva
11/02/2026, 01:36 • Atualizado em 11/02/2026, 01:36
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Quase 12 milhões de pessoas vivem em São Paulo. Em meio a essa imensidão de gente, ruas e histórias, encontrar alguém que desapareceu pode parecer impossível. Na maior cidade do país, todos os dias, em média, sete pessoas desaparecem — 7 por dia.

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Pessoas simplesmente somem. Algumas nasceram na capital paulista outras vieram de diferentes partes do Brasil em busca de oportunidades. Entre essas histórias está a de Aparecida, que há dois anos passou a integrar o movimento Mães da Sé, que reúne parentes e amigos de desaparecidos.

O grupo foi criado há 30 anos, após o desaparecimento de Fabiana Espiridião, que tinha 13 anos na época. A luta da mãe se transformou na luta de tantas outras famílias atravessadas pela mesma dor. Desde então, com ações e pressões do movimento, mais de cinco mil pessoas já foram reencontradas. São crianças, adultos, mães, pais, filhos, maridos e esposas. O sonho de Aparecida é que o filho dela, Thiago, entre nessa estatística.

Na escadaria da Catedral da Sé, Aparecida recriou um pouco do lar que ruiu. As fotos de José Thiago Honório da Silva, hoje com 24 anos, parecem preencher sua ausência.

“Eu brinquei com ele até a porta do banheiro, aí foi tomar banho. Foi o último momento nosso, foi descontraído, e aí não vi mais ele”, relembra Aparecida da Silva, mãe de Thiago.

O desaparecimento aconteceu no dia 23 de setembro de 2023. Desde então, Aparecida vive cercada de dúvidas.

“Eu mesma, quando eu ponho uma comida pra comer, eu pensava: o que ele tá comendo? Será que ele tá comendo a mesma coisa que eu? Me dava nem vontade de comer”, conta.

Thiago é esquizofrênico, mas tinha acompanhamento médico e tomava corretamente as medicações.

“É pior do que se você perdesse um pai, uma mãe, um filho que morreu e você enterrou. Eu não sei o que é pior, não sei dizer o tamanho da minha aflição. É insuportável, porque você não tem mais vida”, desabafa Aparecida.

Desaparecer, sumir, deixar de ser visto. Sinônimos para uma das piores dores que o ser humano pode enfrentar. Para cada desaparecido, há muitos que buscam, sofrem e imaginam milhões de possibilidades. Vivem mergulhados no silêncio da falta de informação. Em todo o Brasil, no ano passado, 84.760 pessoas desapareceram, o que representa 232 casos por dia.

A menor parte dos desaparecimentos é voluntária. Neste contexto, o foco está nos casos que são fruto da ação de terceiros. Entre eles, novas motivações têm se tornado cada vez mais frequentes.

“Atualmente, a gente tem visto crescer aquilo de atrair a pessoa para um suposto trabalho em outro estado ou fora do país, e quando chega lá é surpreendida por um trabalho escravo ou vai para a prostituição”, explica Ivalda Aleixo, diretora do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa, o DHPP.

O DHPP de São Paulo conta com uma delegacia especializada na busca por desaparecidos. Segundo a diretora, ninguém precisa nem deve esperar 24 horas para comunicar um desaparecimento.

“Quanto antes, para nós, policiais, é muito melhor. A chance de encontrar é muito maior. A gente pede: saiu alguma coisa da rotina, do normal? Não quer ir a uma delegacia? Procure uma delegacia eletrônica, relate o desaparecimento. Nós vamos entrar em contato e já vamos pedir informações”, orienta Ivalda Aleixo.

O Brasil tem um Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, que ainda não reúne dados de todos os estados por incompatibilidades técnicas. Quanto maior a quantidade de informações em um só sistema, maior a possibilidade de cruzamento de dados e, consequentemente, de sucesso na busca. A ferramenta também conta com um banco de DNA, que pode facilitar a identificação de pessoas procuradas e encontradas.

“É muito importante. Ele permite identificar. A gente tem aquela escova de dente que a pessoa usava, a escova de cabelo, o fio de cabelo. Enfim, a gente tem em casa muito material genético. Esse material genético e o dos familiares é coletado, processado e entra nesse banco. Isso vai ajudar na identificação de pessoas que eu não sei quem são”, explica Isabel Figueiredo, diretora do Sistema Único de Segurança Pública.

Das quase 85 mil pessoas que desapareceram no país no ano passado, 56.688 foram encontradas. O número de reencontros pode ser ainda maior, já que muitas famílias não comunicam o retorno às autoridades.

“Não é incomum a gente entrar em contato com a família e a família dizer: ‘ah, já tá aqui’. Então é importante comunicar a polícia e dar baixa no boletim de ocorrência se essa pessoa retornou”, reforça Isabel Figueiredo.

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