Um em cada quatro alunos na América Latina já sofreu bullying, aponta Unicef
A aparência é o principal alvo, seguida por raça e sexualidade. Entre meninas, predomina a exclusão social; entre meninos, a agressão física é mais comum

Juliana Tourinho
Para Lucas e Malu, a escola deixou de ser um espaço de aprendizado e passou a ser um ambiente de hostilidade. Lucas mudou de colégio depois de sofrer ofensas por causa da orientação sexual. Malu, que é cadeirante, enfrenta diariamente o preconceito velado.
“A escola ia fazer um acampamento e vários meninos da outra sala disseram que tinham medo ou receio de dormir no mesmo quarto que eu, por medo de eu assediar eles, obviamente tendo a ver com minha orientação sexual e a homofobia”, contou Lucas Iglesis.
Malu relata que o preconceito aparece, muitas vezes, em forma de olhares e julgamentos silenciosos. “A questão de olhares, né? Ah, tá na cadeira de rodas, é doente. Tem que estar no hospital”, disse a estudante de 16 anos.
O caso dos dois reflete uma realidade em toda a América Latina. Um relatório do Unicef e da Organização Pan-Americana da Saúde revela que uma em cada quatro crianças na região já sofreu bullying. A aparência é o principal alvo, seguida por raça e sexualidade. Entre as meninas, predomina a exclusão social. Já entre os meninos, a agressão física é mais comum.
Com o avanço das redes sociais, o problema não termina quando toca o sinal da escola. O ciberbullying faz com que as vítimas sejam atacadas 24 horas por dia.
“É muito angustiante pensarmos que, por exemplo, ele sofre bullying na sala de aula, bullying na hora do intervalo e, quando chega em casa, bullying virtual”, explica o professor Benjamim Horta.
As consequências vão muito além da sala de aula. Crianças e adolescentes vítimas de bullying têm mais risco de desenvolver depressão, ansiedade, isolamento e até pensamentos suicidas.
O relatório também faz um alerta: as respostas das instituições ainda são insuficientes. Na região onde foi feita a pesquisa, apenas Brasil, Argentina e Colômbia exigem que as escolas adotem medidas de prevenção contra o bullying. Em uma escola da capital paulista, professores realizam rodas de conversa com os alunos.
“Esses conflitos precisam ser tematizados para que os estudantes reflitam sobre eles, possam se colocar no lugar do outro, desenvolver compaixão, empatia e responsabilidade”, afirma a professora Celina Fernandes.
Apesar das iniciativas, para quem viveu o trauma, as marcas permanecem.
“É algo que você carrega com você permanentemente. É um modo de pensar, de como se defender, que faz com que você acabe se privando de muitas experiências ou de se sentir confortável em um lugar”, desabafa Lucas.









