SP pode mudar nome da rua Peixoto Gomide; político matou a filha em 1906
Proposta que avançou na Câmara Municipal busca reparar homenagem a senador e renomear via com nome da vítima


Larissa Alves
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Municipal de São Paulo aprovou um projeto de lei que propõe mudar o nome da Rua Peixoto Gomide, nos Jardins, região central da capital, para Rua Sophia Gomide. A proposta busca homenagear Sophia, morta pelo próprio pai, o então senador paulista Francisco de Assis Peixoto Gomide Júnior, em 1906.
O parecer foi aprovado em reunião da comissão na última quarta-feira (11). Agora, o texto segue para votação no plenário da Câmara.
O projeto é de autoria da vereadora Silvia Ferraro, da Bancada Feminista do PSOL, e tem como coautora a vereadora Luna Zarattini (PT). Segundo as parlamentares, a mudança pretende reparar uma homenagem concedida ao político, que dá nome à rua desde 1914, denominação aprovada pela própria Câmara anos após o crime.
De acordo com a justificativa do projeto, Sophia Gomide foi assassinada pelo pai dentro da casa da família, em janeiro de 1906. Após matar a filha, Peixoto Gomide cometeu suicídio.
A proposta argumenta que a alteração do nome da via representa uma reparação histórica à vítima e integra um movimento de revisão de homenagens públicas concedidas a pessoas envolvidas em episódios de violência contra mulheres.
Reparação e feminicídio
A iniciativa foi inspirada no artigo “Vias sujas de sangue: A lei não impede que ruas sejam nomeadas em memória de criminosos que violentaram mulheres”, da historiadora e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Maíra Rosin.
Ela questiona a permanência de nomes de homens que cometeram feminicídios em espaços públicos. "Mudar o nome da Rua Peixoto Gomide é o primeiro passo pra gente reparar alguns erros que a cidade cometeu junto dessas mulheres. A gente tá vendo um monte de feminicídios sendo noticiado todos os dias e isso é só um reflexo do quanto a lei estava sendo omissa com a morte dessas mulheres. Então, quando a gente deixa a cidade ter nomes de feminicidas em ruas, a gente não só está endossando que isso está tudo bem, como a gente está violentando novamente essas mulheres. É como se elas morressem e fossem violentadas novamente, porque elas não têm memórias, elas não têm história”, afirma.
O Brasil registou 1.568 feminicídios em 2025. O número representa um aumento de quase 5% em relação a 2024. Em janeiro deste ano, 27 mulheres foram vítimas de feminicídio em São Paulo. Esse é o maior número desde 2018, quando o crime passou a ser contabilizado pela Secretaria de Segurança Pública.
Outros projetos semelhantes tramitam na Câmara Municipal e discutem a possibilidade de alterar nomes de ruas que homenageiam homens envolvidos em crimes contra mulheres. Entre os casos citados está o do advogado Moacir Piza, que matou Nenê Romano.
De acordo com o projeto apresentado à Câmara, também inspirado no artigo de Maíra Rosin, “a rua Moacir Piza rememora o advogado e jornalista que teve morte similar à de Gomide: assassinou a amante, Romilda Machiaverni, com cinco tiros dentro de um carro na avenida Angélica, cometendo suicídio logo em seguida. A Câmara optou por homenagear Piza por sua contribuição à cidade. Machiaverni não foi lembrada”.
Se aprovado em plenário, o projeto que altera o nome da Rua Peixoto Gomide ainda precisará ser sancionado pelo prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, para entrar em vigor.
Ainda não há uma data pra votação.
O crime
Segundo relata o artigo publicado pela pesquisadora Maíra Rosin, no dia 23 de julho de 2021, o crime ocorreu em 20 de janeiro de 1906. Naquele dia, o então presidente do Senado do Estado de São Paulo deixou a mesa de almoço e seguiu para a sala de estar da casa da família.
No local, encontrou a filha, Sophia, sentada em uma poltrona enquanto fazia um bordado. Ele se aproximou, apontou um revólver para a cabeça da jovem e disparou. Sophia morreu imediatamente.
Em seguida, o político foi até um cômodo ao lado, sentou-se ao piano e atirou contra o próprio ouvido. A cena foi presenciada por familiares, que acompanharam tudo em desespero.
Ainda segundo o artigo, os jornais da época atribuíram o crime a “uma alucinação, cujos sintomas já dias antes haviam se manifestado brandamente”.
Os velórios aconteceram na cena do crime e o sepultamento foi realizado com honras. Sophia, que se casaria na semana seguinte, foi velada em seu vestido de noiva.









