Sobrevivente do acidente com Césio 137 morre em Goiânia
Lucimar das Neves Ferreira, irmão de Leide das Neves, tinha 14 anos na época do acidente radioativo; causa da morte não foi divulgada

Lucimar das Neves Ferreira | Divulgação
Lucimar das Neves Ferreira, um dos sobreviventes do acidente com o Césio-137 ocorrido em Goiânia, foi encontrado morto no último sábado (25), na Cidade Satélite, em Aparecida de Goiânia. A informação foi divulgada pela Associação das Vítimas do Césio-137, que não informou a causa da morte.
📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! Clique aqui e siga o canal do SBT News.
Lucimar tinha 14 anos na época do acidente radioativo. Ele era irmão de Leide das Neves, criança que morreu semanas após entrar em contato com o pó e ingerir partículas radioativas.
Pelas redes sociais, o presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, Marcelo Santos Neves, lamentou a morte de Lucimar, dizendo que a notícia faz reviver as lembranças dos dias mais difíceis enfrentados pelas vítimas e familiares da tragédia. Segundo ele, Lucimar vinha enfrentando uma luta contra o alcoolismo.
“Ele era uma pessoa do meu convívio. A gente se entristece, porque com uma perda dessa, tudo relembra aqueles dias difíceis. Que Deus conforte os familiares e amigos, porque não é fácil uma perda dessa proporção. Dona Lourdes [mãe de Lucimar] vinha lutando contra o alcoolismo do Lucimar. Para ela, agora precisamos dar o máximo de apoio”, disse Marcelo.
Relembre
O acidente com o Césio-137 aconteceu em setembro de 1987, em Goiânia, capital de Goiás. Naquele mês, dois catadores entraram no edifício que abrigava o antigo Instituto Radiológico de Goiânia em busca de algo para vender como sucata. Nos escombros, a dupla encontrou uma peça de chumbo, de cerca de 98 kgs.
O que eles não sabiam é que tal peça pertencia a um aparelho de radioterapia abandonado. A fonte, com radioatividade de 50.9 Tbq (1375 Ci), continha cloreto de césio, composto químico tóxico em pó de alta solubilidade.
A dupla vendeu a peça para Devair Alves Ferreira, dono de um um ferro-velho no Setor Central de Goiânia. Sem noção do perigo, ele pediu para dois funcionários removerem o chumbo que envolvia a fonte radioativa. À noite, ao passar pelo pátio do estabelecimento, percebeu um intenso brilho azul vindo do interior da cápsula. Encantado, levou a peça para casa, onde mostrou o pó para familiares.
Dias depois, Devair e sua esposa, Maria Gabriela, começaram a apresentar sintomas típicos de radiação, como diarreia, náuseas, tontura, vômito e queda de cabelo. Em seguida, Ivo Ferreira, irmão de Devair, também começou a passar mal, assim como sua esposa, Lourdes, e seus filhos, Leide, de seis anos, e Lucimar, de 14.
Foi somente 17 dias depois da abertura da cápsula no ferro-velho que a contaminação foi identificada. A responsável por informar as autoridades foi Maria Gabriela, que, desconfiada de que o pó brilhante era o causador dos problemas de saúde da família, levou a peça à Vigilância Sanitária. Paulo Roberto Monteiro, diretor da unidade na época, contatou o físico Walter Mendes, que confirmou o material tóxico.
A notícia obrigou as autoridades a agirem rápido para conter a disseminação da radiação no estado. Como a fonte foi manuseada por semanas, diversos locais precisaram ser interditados e, inclusive, demolidos. Os contaminados foram internados em alas isoladas do Hospital de Goiânia e os casos mais graves foram encaminhados para o Hospital Naval do Rio de Janeiro.

Ao todo, o acidente radioativo provocou quatro mortes diretas, incluindo a de Leide, uma das mais marcantes da época. Outras dezenas de óbitos ocorreram nos anos seguintes, em decorrência da radiação.
As vítimas diretas foram:
- Maria Gabriela Ferreira (esposa de Devair): ela adoeceu cerca de três dias após ter contato com a substância, morrendo em 23 de outubro de 1987, cerca de um mês após a exposição, aos 37 anos.
- Israel Batista dos Santos (funcionário de Devair que trabalhou na remoção do chumbo da fonte): ele foi internado no Hospital Naval Marcílio Dias e morreu seis dias depois, em 27 de outubro de 1987, aos 22 anos.
- Admilson Alves de Souza (funcionário de Devair que manipulou a fonte): ele morreu em 28 de outubro de 1987, no Hospital Naval Marcílio Dias, aos 18 anos.
- Leide das Neves Ferreira (sobrinha de Devair que ingeriu a substância): foi a vítima com a maior dose de contaminação radioativa pelo Césio 137. Ela morreu, em 23 de outubro de 1987, por hemorragia de múltiplos órgãos no Hospital Naval Marcílio Dias.
Maria e Leide foram enterradas no Cemitério Parque, em Goiânia, em um caixão especial de 700 quilos, revestido com chumbo para evitar a propagação da radiação. Posteriormente, os túmulos foram concretados.
O acidente radioativo foi classificado como nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares, que vai de zero a sete. No campo cível, a principal condenação institucional foi imposta à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), fixada em R$ 1 milhão por danos difusos. Cinco médicos ligados ao Instituto Radiológico onde a fonte foi retirada também foram condenados, mas cumpriram a pena em liberdade.
Em relação aos rejeitos radioativos, itens como roupas, móveis e escombros de casas foram armazenados em um depósito no município de Abadia de Goiás, região metropolitana de Goiânia. Ao todo, 6 mil toneladas de rejeitos foram distribuídos em contêineres de chumbo, isolados em morros artificiais de concreto. Todo o material, monitorado pela CNEN, ficará isolado por menos 300 anos, contados a partir da data do acidente, para que a radiação atinja níveis seguros.















