Brasil

Refugiados venezuelanos constroem nova vida no Brasil e mantêm cautela sobre retorno ao país de origem

Cerca de 500 mil venezuelanos vivem no Brasil, buscando segurança, trabalho e acesso a serviços básicos enquanto avaliam o futuro da Venezuela

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Victor Ferreira, Magdalena Bonfiglioli
06/01/2026, 01:00 • Atualizado em 06/01/2026, 01:00
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Dos refugiados venezuelanos espalhados pelo mundo, cerca de 500 mil estão no Brasil, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). É nesse grupo de meio milhão que está Nelson, arquiteto que cria sozinho o filho de 11 anos. Ele veio para o Brasil para fugir da miséria vivida no país de origem.

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Nelson conta que, na Venezuela, faltava comida para alimentar o filho e até combustível. “Fazia fila de um dia inteiro para encher meio tanque. Eu dependo de um medicamento, como a insulina, e não encontrava. Realmente é algo prioritário na vida”, relata.

Em São Paulo, Nelson e o filho encontraram abrigo em um programa de moradia transitória oferecido pela prefeitura. No Brasil, ele também conseguiu emprego e acesso a serviços públicos.

“Aqui no Brasil encontrei ajuda, apoio, um sistema social bastante bom. Sistema de saúde que ajuda, dá medicação, dá atenção médica para meu filho, para mim, poder colocar todas as vacinas em dia”, afirma.

Adriana Nathali Camargo e o marido estão no Brasil há 10 anos. Todos os dias, ela prepara a arepa, comida típica da Venezuela, mantendo viva a cultura do país natal. “Sinto que muita coisa daquilo que vivi já não existe mais. Tenho muita saudade da minha cultura em si”, diz.

Questionada se pensa em retornar à Venezuela, Adriana afirma que, no momento, não. “Estou criando raízes pelo tempo que já tenho aqui, 10 anos. A gente se acostuma. O Brasil é muito bom, gosto do que estou vivendo aqui. A Venezuela está ruim nesse momento, precisa de tempo para se arrumar e eu quero dar uma vida boa para meu filho”, explica.

O analista de relações internacionais Uriã Fanceli afirma que as próximas semanas podem definir como será o fluxo migratório entre Brasil e Venezuela. Segundo ele, a possível queda do governo de Nicolás Maduro, por si só, não provoca uma saída em massa da população.

“O que empurra é o dia seguinte: o vácuo de poder, a disputa dentro das Forças Armadas, os acertos de contas, os grupos criminosos, as falhas na distribuição de comida, de combustível, de energia, o medo de que essa transição vire um conflito aberto”, analisa.

Fanceli explica ainda que, se houver uma transição rápida, minimamente coordenada e com garantia de segurança, a tendência pode ser de freio na saída ou até de retorno gradual. Mas, se a instabilidade se arrastar por semanas ou meses, a lógica pode mudar completamente, levando famílias que estavam esperando para ver a situação a deixar o país de uma vez.

A palavra-chave entre os refugiados tem sido cautela. Adriana afirma que, se um dia a situação mudar, a saudade pode falar mais alto. “Eu gosto do Brasil e sinto que cada vez mais pertenço a esse país, mas a Venezuela é minha e eu espero voltar um dia, mesmo que seja de visita”, diz.

As famílias guardam no coração suas memórias. Samuel, o filho de Nelson, apesar de tão novo, tem os pés no chão. Questionado se quer voltar, responde que não. “A situação lá está muito ruim. A economia, tudo está ruim. Então eu não pretendo voltar agora”, afirma. Ele conta que sente saudade da avó que ficou na Venezuela e que, às vezes, o pai manda dinheiro para ajudá-la. Ao ser perguntado se um dia poderá trazer a avó para o Brasil, responde: “No próximo ano”.

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