Brasil

MPF reitera culpa de ex-agentes da ditadura pela morte de Carlos Marighella

Ação demanda a perda de aposentadorias, a devolução das indenizações do Estado e compensações por danos morais coletivos

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Murillo Otavio
Carlos Marighella, dirigente da ALN e deputado federal pelo PCB | Reprodução/ Aperj

Carlos Marighella, dirigente da ALN e deputado federal pelo PCB | Reprodução/ Aperj

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação na Justiça de São Paulo, nesta segunda-feira (9), para responsabilizar 37 ex-agentes da ditadura militar pela morte de Carlos Marighella, um dos principais líderes da resistência ao governo autoritário nas décadas de 1960 e 1970.

O MPF solicita a responsabilização civil dos ex-agentes pela execução, incluindo a perda de aposentadorias, a restituição dos gastos do Estado com indenizações às famílias da vítima e o pagamento de compensações por danos morais coletivos causados pela repressão política. No caso de réus falecidos, os herdeiros deverão assumir as reparações.

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Carlos Marighella foi um dos principais oposicionistas da ditadura no Brasil. Ao todo, ele foi preso quatro vezes e sofreu espancamentos e torturas em todas as ocasiões que foi detido. Militante social, Marighella fundou a Aliança Libertadora Nacional (ALN), organização de resistência armada.

Em 4 de novembro de 1969, em São Paulo, ele foi morto em uma operação do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). A equipe do Dops armou uma emboscada, surpreendeu o militante desarmado e, embora pudesse tê-lo preso, decidiu executá-lo.

Alguns dos ex-agentes já figuram em duas ações civis públicas anteriores, que o MPF ajuizou em março e agosto, relacionadas a casos de prisão ilegal, tortura, morte e desaparecimento forçado de outros 34 militantes políticos perseguidos na ditadura.

A nova ação ainda busca o cumprimento de medidas de preservação do passado e esclarecimento dos fatos ocorridos na ditadura. Para isso, o MPF quer que o Estado de São Paulo e a União, também réus, sejam obrigados a realizar um ato público de desagravo à memória de Marighella e a incluir informações sobre o caso em espaços de memória dedicados ao período.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) afirmou que os crimes de violação de direitos humanos são imprescritíveis e que a Lei da Anistia não pode barrar processos. O Brasil deve cumprir essas decisões, pois aceitou a jurisdição da CIDH. Para Ana Letícia Absy, procuradora da República, a Lei da Anistia, criada para proteger os poderosos, ainda cumpre esse objetivo.

Chilenos sendo presos durante a ditadura militar
Chilenos sendo presos durante a ditadura militar

Quem são culpados?

Um dos réus é o ex-delegado Sérgio Paranhos Fleury, que comandou a operação da morte de Carlos Marighella. Outro listado é o ex-integrante do Instituto Médico Legal (IML) Abeylard de Queiroz Orsini. Esse último foi um dos autores do laudo necroscópico que omitiu as verdadeiras circunstâncias da morte de Marighella para endossar a versão oficial de que o militante havia reagido à prisão.

O relatório do IML omitiu sinais de execução sumária, como a proximidade dos tiros e lesões de defesa da vítima. O IML de São Paulo frequentemente forjava laudos para encobrir crimes e proteger os agentes de repressão durante a ditadura.

Além dos citados acima, a ação inclui os seguintes ex-agentes do Dops:

  • Adusindo Uribe;
  • Alcides Paranhos Junior;
  • Alfeu Forte;
  • Amador Navarro Parra;
  • Antônio Pereira Gomes;
  • Carlos Alberto Augusto;
  • Clarismundo da Silva Filho;
  • Djalma Oliveira da Silva;
  • Edsel Magnotti;
  • Fabio Lessa de Souza Camargo;
  • Francisco Guimarães do Nascimento;
  • Gumercindo João de Oliveira;
  • Henrique de Castro Perrone Filho;
  • Ivahir Freitas Garcia;
  • Izidoro Tescarollo;
  • João Carlos Tralli;
  • João Ribeiro Carvalho Netto;
  • Joaquim Ferreira da Silva Filho;
  • Luiz Antônio Mariano;
  • Luiz Gonzaga Xavier;
  • Luiz Hena;
  • Luiz Zampolo;
  • Mario Rocco Sobrinho;
  • Natal Tuglia;
  • Orlando Rosante;
  • Oswaldo Machado de Oliveira;
  • Paulo Guilherme de Oliveira Peres;
  • Raul Nogueira de Lima;
  • Roberto Guimarães;
  • Rubens Cardoso de Mello Tucunduva;
  • Rubens Pacheco de Souza;
  • Tokioshy Nakahara;
  • Valmor Trevisan;
  • Walter Francisco;
  • Wanderval Vieira de Souza.

Quem foi Carlos Marighella?

Carlos Marighella, nascido em 5 de dezembro de 1911, foi um militante e líder da resistência contra a ditadura militar no Brasil. Com formação política, Marighella tornou-se um importante teórico da guerrilha e organizou ações de combate ao regime autoritário, incluindo sequestros e atentados.

Durante a ditadura militar que começou em 1964, Marighella destacou-se por seu papel no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e na Ação Libertadora Nacional (ALN). Ele acreditava que a luta armada era necessária para enfrentar a repressão e a falta de liberdade imposta pelo regime militar. Seu ativismo tornou-o um símbolo de resistência contra a opressão.

Marighella foi assassinado em 4 de novembro de 1969, em uma emboscada armada pelos agentes da ditadura. Sua morte se tornou um marco na luta pela democracia e ele é lembrado como um herói da resistência política no Brasil.

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