Entenda as polêmicas do projeto que permitirá mudanças urbanísticas drásticas em Brasília
Proposta foi aprovada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal e, agora, irá para sanção do governador Ibaneis Rocha

Samir Mello
Desde 1987, Brasília é reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco devido às suas características inovadoras e de vanguarda na história da arquitetura e do urbanismo mundial, ao lado de outros monumentos, como a Muralha da China, as pirâmides do Egito e a Acrópole de Atenas. No entanto, o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB), projeto que foi aprovado na última quarta-feira (19) na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), ameaça alterar profundamente os aspectos urbanísticos únicos da capital.
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O PPCUB, projeto de autoria do Governo do Distrito Federal, permitirá mudanças profundas em diversas áreas da cidade. Entre elas, a desconstituição de lotes, mesmo em área de relevante interesse ecológico, no Noroeste; a construção de comércios varejistas e lojas de materiais de construção no Setor de Embaixadas Norte e Sul; a construção de prédios mais altos (os hotéis de três andares poderão chegar a 12) no Setor Hoteleiro Norte e Sul; e a liberação para lojas, restaurantes e um camping no gramado que fica no fim do Eixão Sul (perto do viaduto da L4 Sul).
“O Conselho de Arquitetura e Urbanismo se preocupa com a forte possibilidade de Brasília perder sua condição de patrimônio tombado, porque estará alterando sua história. Que memória queremos preservar para nossas crianças? A Arquitetura conta a história do povo. Não é à toa que os monumentos históricos, aqueles mais significativos, são os primeiros a serem destruídos nas guerras”, posicionou-se a instituição.
“As mudanças, no que se referem a alteração de usos, índices de ocupação e afetação de áreas de interesse ecológico e demais desrespeitos ao projeto urbanístico de Lúcio Costa, inclusive ao estudo posterior do mestre urbanista ‘Brasília Revisitada’, estão descaracterizando a capital federal, alterando a morfologia urbana da cidade e comprometendo a saúde e bem-estar da população a partir do momento em que as áreas verdes são agredidas pela criação de lotes que abrigarão construções, cuja permissão, por si só, dificilmente guardará respeito pelo meio ambiente, a começar pela ocupação de espaços que pertencem à natureza”, continuou.
Sobre o risco de Brasília perder seu status como patrimônio tombado, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh) afirmou ao SBT News que é inexistente. “O PPCUB é uma definição contida na Lei Orgânica do Distrito Federal (LODF) desde os anos 1990 e uma obrigação do GDF fazer, exatamente para garantir a preservação”.
Colcha de retalhos
Além disso, a Seduh defende que o PPCUB permitirá uma gestão mais eficiente do Centro Urbanístico de Brasília. “O projeto traz uma organização ao que hoje é uma colcha de retalhos de mais de 1mil normas urbanísticas, muitas delas defasadas e que não dialogam com a realidade da cidade. Foi possível reunir em uma única norma tudo o que era necessário para garantir clareza e segurança jurídica a todos que habitam ou de alguma forma dialogam com a área tombada”, defende a Secretaria.
A Seduh acrescenta que o projeto foi endossado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e aprovado pelo Conselho de Planejamento Territorial e Urbano do Distrito Federal. “Além disso, a proposta foi discutida em oito audiências públicas realizadas pelo GDF e outras cinco promovidas pela CLDF. Todas essas fases de discussão e aprovação por diferentes setores e instâncias colaboraram para tornar o debate sobre o PPCUB amplamente democrático”.
Interesses
A questão ambiental e o status de Brasília como patrimônio cultural da humanidade não são as únicas preocupações com a aprovação do projeto. O deputado Fábio Félix (PSOL), uma das principais figuras de oposição ao PPCUB, defende que a medida acarretará a exclusão de parte da população de espaços da cidade, favorecendo a especulação imobiliária e o interesse de empresários.
“Eu fui o deputado que mais apresentou emendas de melhorias ao projeto. O Eixo Monumental é um dos locais que sofrerão impactos dessas mudanças. Uma das emendas que apresentei, e que foi rejeitada pela base do governo, foi para que a ocupação de novas edificações naquelas áreas obedeçam os princípios do Estado democrático de Direito, da laicidade e estejam vinculadas ao absoluto respeito aos direitos humanos, aos direitos sociais e individuais, vedando-se qualquer tipo de discriminação”, defendeu.
“Ou seja, uma tentativa de evitar qualquer tipo de destinação segregacionista e impedir que a especulação imobiliária e o interesse de empresários se sobreponham ao direito à cidade da população brasiliense (...). O projeto que foi aprovado hoje (quarta, 19) é uma enorme descaracterização do Centro Urbanístico e uma grande privatização de Brasília, em que o GDF entrega, para diferentes setores do empresariado, espaços que deveriam ser preservados e com prioridade de uso para interesse público”, concluiu Fábio Félix.
Na sessão legislativa na qual o PPCUB foi aprovado, os parlamentares analisaram 174 emendas ao projeto em pouco mais de cinco horas de sessão. Desse total, 107 foram aprovadas. Aprovada em dois turnos, a lei agora vai à sanção do governador Ibaneis Rocha.