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Datena, educação e polarização na Segurança Pública: confira íntegra da entrevista de Tabata Amaral

Pré-candidata à Prefeitura de São Paulo pelo PSB falou sobre propostas para a maior cidade do Brasil ao SBT News

Datena, educação e polarização na Segurança Pública: confira íntegra da entrevista de Tabata Amaral
Pré-candidata à Prefeitura de São Paulo, Tabata Amaral | Reprodução
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A deputada federal e pré-candidata à Prefeitura de São Paulo, Tabata Amaral (PSB), apresentou suas propostas para a maior cidade do país em entrevista exclusiva para o SBT News nesta segunda-feira (22). Tabata ressaltou sua atuação parlamentar na educação, como a autoria do projeto de incentivo financeiro a estudantes do ensino médio, o Pé-de-Meia, e destacou que pretende abrir as escolas da capital paulista à noite e aos finais de semana.

“Quando a gente fala na escola aberta de final de semana, é uma oportunidade, inclusive, para a gente empregar o jovem que está naquela comunidade e que pode conduzir uma oficina”, disse. "A escola tem que ser o centro de vida da comunidade".

Em relação à segurança pública, a deputada afirmou que o tema não deve ser discutido na perspectiva da polarização política entre direita e esquerda. Ela criticou a falta de posicionamento da esquerda sobre o tema e a solução simplista de armar a população da direita. Tabata defendeu o fortalecimento da Guarda Civil Metropolitana (GCM), além da utilização de "inteligência", com rastreamento de celulares roubados, e ações de zeladoria, como iluminação, que reduzem a taxa de criminalidade. Ela também comentou a vontade de ter como candidato a vice-prefeito o apresentador José Luiz Datena (PSDB).

Simone Queiroz: Vou começar pedindo para que a senhora se apresente. Qual sua idade, sua formação e os elementos que a senhora considera que a definem.

Tabata Amaral: Sou Tabata Amaral, tenho 30 anos, filha orgulhosa de dois nordestinos. De uma baiana e um paraibano, que vieram fazer a vida aqui em São Paulo. Filha de uma diarista e um cobrador de ônibus. Sou nascida e criada e filha orgulhosa da periferia da zona sul de São Paulo.

Sou formada em Ciência Política e Astrofísica – é todo um capítulo à parte isso. Trabalho com educação há muitos anos e estou no meu segundo mandato como deputada federal.

Sou autora orgulhosa de muitos projetos para nossa educação: absorventes nas escolas, vacina para os professores na pandemia, ensino técnico, conectividade e, mais recentemente, o Pé-de-Meia – que é uma poupança para o jovem do ensino médio não desistir dos estudos. Então, são dois milhões e meio de jovens que estão recebendo esse recurso; é um projeto que apresentei no auge da pandemia para o enfrentamento da evasão escolar.

Simone: Aproveitando o tema da educação, vamos às pautas para a cidade. E vamos começar pela educação, que é uma área em que a senhora milita. Recentemente enfrentamos mais uma greve de professores na rede municipal, crianças sem aula, professores insatisfeitos com os salários, os pais sem saber onde deixar as crianças. Quais são os seus planos para educação na rede pública da cidade de São Paulo? Qual educação que a senhora pretende fazer, se eleita?

Tabata: Primeira coisa é que eu estou aqui por causa da educação. Estou aqui porque uma professora de matemática da escola pública acreditou em mim e me incentivou a participar das Olimpíadas de Matemática. Então, eu sei de A a Z o que a educação pode fazer na vida de alguém. Mas sei também a falta que a educação faz em nossas periferias. O tanto de gente que vai ficando pelo caminho, porque a educação não chega, a oportunidade não chega, e o crime e a violência chegam muito antes.

Penso que o que me move nessa disputa e trajetória é um desejo muito grande de que o centro e a periferia tenham as mesmas oportunidades por meio da educação. E como a gente faz isso? Começando lá do comecinho: investindo na primeira infância. Entendendo que investir na família e nesse vínculo é a maior política de prevenção que a gente pode ter contra tudo o que existe de ruim, por assim dizer, na sociedade.

Precisamos investir nas nossas creches. Temos hoje somente 13 creches na cidade com horário estendido até 7h da noite. Para a mãe da periferia é muito difícil voltar do trabalho e pegar sua filha ou seu filho. Temos que investir em alfabetização. Temos uma cidade que não alfabetiza: 61% das crianças, ou seja, mais da metade das crianças são passadas de ano em São Paulo sem saber ler e escrever.

Precisamos voltar a abrir a escola aos finais de semana – como já aconteceu no passado.

Simone: Mas tem funcionários, professores suficientes para abrir a escola aos finais de semana?

Tabata: É claro que a gente vai precisar apostar nas nossas parceiras, trazer outros profissionais. Quando a gente fala nessa escola aberta de final de semana, é uma oportunidade, inclusive, para a gente empregar o jovem que está naquela comunidade e pode conduzir uma oficina.

Quando a gente fala sobre abrir a escola à noite, significa que a gente vai ocupar a quadra ou o pátio da escola com profissionais de educação física, para que a gente possa incentivar o esporte e a atividade física na melhor idade, entre os adulto. Então, vai contar muito com os nossos professores, que hoje não se sentem ouvidos, não são valorizados e preparados para esse contexto.

A educação, nessa forma ampla que eu sonho, ela se faz também com profissional da educação física, psicólogo, com o jovem da comunidade que pode repassar um saber, com uma pessoa mais velha da comunidade que pode ensinar algo que sabe. Então, pensar nessa escola que não é com portão fechado. A gente tem hoje escolas que estão tão abandonadas: mato alto, banheiro abandonado, sem porta. É a gente entender que a escola tem que ser o centro de vida da comunidade e todos esses profissionais vão ser importantes nesse processo.

Simone: Vamos falar de moradia. O déficit habitacional em São Paulo é evidente quando a gente caminha nas ruas e vê famílias morando nas calçadas, pessoas morando em casas que não deveriam nem ser chamadas de casas porque são indignas. Como a senhora pretende resolver o problema do déficit habitacional?

Tabata: Tem duas abordagens que são diferentes, mas que se complementam. Uma delas é a gente poder dar conta desse tanto de imóveis que a gente tem abandonado. Ou mesmo, prédios públicos. Nós temos uma série de edifícios na região de Pinheiros, que é uma área nobre, que são prédios públicos não aproveitados. Que poderiam ser aproveitados como habitação social, com aluguel social. Então, é pegar esse tanto de lugar espalhado que a gente tem, e, de fato, levar as pessoas a habitar essas regiões mais nobres. Seja como um aluguel que a prefeitura paga uma parte, seja como uma moradia social que a gente pode dar para uma família.

Simone: Mas tem que indenizar o proprietário do imóvel?

Tabata: Quando falo desses dois casos, a gente está falando de imóveis com dívidas tão altas com o estado, que ele vai trocar o terreno pela dívida. Não é um custo adicional para o município, por exemplo.

A gente tem o segundo caso que ressaltei, dos imóveis que já são públicos. Imóveis que lá atrás abrigavam associações importantes, representações importantes da prefeitura e do governo do estado, mas que hoje não são utilizados. Falo desses imóveis endividados, abandonados, públicos, porque eles estão ao nosso alcance, não é um investimento à parte. Mas tem outra solução que vem sendo ignorada na cidade, que é olhar para a regularização fundiária.

Cresci na Zona Sul de São Paulo em uma região de manancial, perto da represa Billings, e temos milhões de pessoas que estão lá há décadas, mas que não têm o título. Inclusive, minha família tem uma ação com várias famílias da região para podermos ter a nossa casa. A gente quer pagar imposto, mas a prefeitura não deixa.

Simone: Mas a conta de luz chega, né?

Tabata: A conta de luz chega e a de água também. Muitas famílias que, inclusive, deveriam pagar a conta de água mais barata, mas não têm acesso por conta da burocracia, não conseguem a tarifa reduzida. Então, tudo isso para dizer que regularização fundiária também é uma forma de levar dignidade. É a pessoa conseguir acessar crédito, abrir o negócio dela, para ela ter a segurança que o imóvel vai para o filho ou para a filha, os mutirões que a gente tinha antigamente.

Tem vários nomes para isso: urbanismo social, urbanização de favela, mutirões… É a gente entender que as pessoas podem viver com mais dignidade onde elas estão. É um banheiro que estava mofado e pode ser transformado. Tantas casas que a gente tem, que a rede de esgoto passa na frente, mas aqueles últimos dois metros não são conectados. É um córrego que está poluído, um corrimão que falta, um escadão que falta.

Então, vamos pegar tudo o que a gente tiver à nossa disposição, seja imóvel público ou endividado, para levar as pessoas ao Centro. Mas a gente não pode depender disso para fazer com que as pessoas vivam com dignidade onde elas estão. Essa é uma solução muito mais rápida, muito mais efetiva, mas que faz tempo que São Paulo não adota.

Simone: Vamos falar da Cracolândia. Entra governo e sai governo, ela está aí há décadas, adulterando um cartão-postal da cidade, e, ao mesmo tempo, é uma mazela humana o que temos ali. Então, qual é o seu plano para resolver a Cracolândia?

Tabata: A primeira coisa, Simone, no meu ponto de vista, foi ter muita humildade e até vale ressaltar uma coisa que você trouxe: muita gente tentou, e preciso entender por que não conseguiram, por que a gente continua patinando..

Simone: Já entendeu?

Tabata: Estou entendendo, vamos ver o que as pessoas acham. Eu sentei com todos os últimos ex-prefeitos de São Paulo. Marta [Suplicy], [Fernando] Haddad, [Gilberto] Kassab, [José] Serra e perguntei para eles: “Como foi? O que cada um faria de diferente?”

Cada um me trouxe uma abordagem que teve. Um foco maior na saúde mental: tem muita gente doente que busca um tratamento e não tem vaga. O foco na questão da segurança pública: existe todo um mercado, uma economia do crime que está ali acontecendo, da pessoa que pega o reciclável, troca por um dinheiro, compra a droga e não estamos enxergando isso.

Tem uma questão de assistência, que é uma porta-giratória. A pessoa muitas vezes recebe um tratamento, mas ela não tem um vínculo com a família, com o emprego, então volta para a rua.

O que fiz foi conversar com todo mundo e juntar o melhor time que eu pudesse juntar. Inclusive gente que já passou pela prefeitura: Luciana Temer, Floriano Pesaro, Coronel Zé Roberto, Laura Muller, Leandro Piquet. Pessoas que estiveram nas gestões do PT, do PSDB. A gente quer levar o que deu certo, aprender com os erros, mas ter uma abordagem mais complexa e respeitosa. Não é só saúde, não é só assistência, não é só segurança. É por isso que é complexo, porque é preciso enfrentar tudo isso junto. E o primeiro passo que tomei foi: Qual é o time dos sonhos para gente enfrentar a Cracolândia? Quem são as melhores pessoas da academia de gestões passadas? E foi esse time que juntei. Porque o negócio é tão difícil, é tão complexo, que, se a gente não tiver humildade e não somar esforços, a gente não consegue enfrentar.

Simone: Internação compulsória está sendo um denominador comum entre os envolvidos?

Tabata: Internação compulsória é uma decisão do médico, e não do político de plantão. Eu perdi meu pai para o crack quando eu tinha 18 anos. Sempre digo que o que matou meu pai foi o preconceito. Meu pai era bipolar e não foi diagnosticado. Meu pai era dependente químico e alcoólatra, mas sempre foi tratado como vagabundo. Ele sempre quis se internar, mas nunca encontrou uma vaga. Então quando a gente fala de saúde mental, vou tratar com cientista, com psiquiatra, com um médico. Trouxemos, inclusive, o Dr. Jair, que é um grande psiquiatra brasileiro.

Quando a gente fala de internação compulsória, método de tratamento, minha resposta sempre vai ser: o que a ciência está dizendo? Sobre a internação compulsória, existe um padrão internacional sobre o tema, existe uma documentação. Ou seja, a partir de que comprometimento do córtex pré-frontal, que eu também estou aprendendo nessas áreas de saúde mental, a partir de que momento que a pessoa não decide mais sobre si? E eu nunca vou deixar que esse debate de saúde mental seja um debate de político feito nas redes sociais. É um debate de médicos e cientistas, são eles que a gente deve seguir.

Simone: Agora, sobre os buracos na cidade de São Paulo. Uma pesquisa do Datafolha recente apontou que os buracos eram o maior incômodo para a população paulistana. Isso faz parte, o tapa-buraco é uma ação de zeladoria que a Prefeitura tem que empreender. A senhora acha que uma prefeita mulher tem mais condições de prestar atenção nesse tipo de quesito, que é importante em uma cidade?

Tabata: Quando a gente fala do todo – iluminação, transporte público, zeladoria –, se a gente não tem uma soma de vivências, a gente faz a cidade só para um tipo de pessoa. Vou te dar um exemplo: quando a gente pensa no transporte público, pensamos em periferia, centro, periferia, centro. Mas e o trajeto que a mulher faz? Vai na creche, vai na igreja, vai no projeto, vai no mercado: não tem transporte público pensado para isso.

Quando a gente pensa na iluminação, por exemplo, a gente ilumina a rua, os carros, e não o pedestre, não quem está na calçada. Reparem bem. Sem contar que a lâmpada queima e ninguém fica sabendo. Quando a gente pensa na questão do buraco, não estamos pensando no cadeirante, na criança, no idoso. Então quando falo que a gente tem que ter pessoas com visões mais diversas, tem que ter mulher, tem que ter idoso, tem que ter cadeirante pensando a cidade, porque, se uma cidade for boa para para essas pessoas, ela vai ser boa para todo mundo.

Quando a gente fala do buraco, só para aproveitar a deixa, estamos tendo hoje na cidade recorde de dinheiro indo para tapar buraco, mas, ao mesmo tempo, recorde de denúncia de buraco. Mas aí você pensa: não é possível! Tanto dinheiro para tapar buraco e tanto buraco aparecendo pela cidade. Vamos ver os números. Vamos ver o contrato. A gente tem um contrato que paga as empresas por buraco tapado. Ou seja, quanto mais buracos para tapar, melhor para a empresa. Por que a gente não muda esse contrato? E muda a regra... “Olha, empresa, eu vou te pagar de acordo com a rua sem buraco”. Se a rua está bem e a população feliz, a empresa recebe.

Só para trazer uma provocação de que a gente tem que enxergar a cidade para todo mundo, e não só para um perfil específico, mas também tem uma esperteza quando vai fazer esses contratos. Entender quem pode estar ganhando com isso. Porque o dinheiro sempre vai para esse lugar e a gente não vê solução nenhuma.

Simone: Vamos falar de transporte público agora. Porque há algumas semanas estamos no meio de uma grande investigação do Ministério Público, que acusa duas empresas de ônibus, a Upbus e a Transwolff, de serem braços do PCC para lavagem de dinheiro do tráfico de drogas e do crime organizado de uma maneira geral. O que a senhora faria com essas duas empresas, se a senhora já fosse prefeita de São Paulo?

Tabata: Cancelar esses contratos, chamar novas licitações.

Simone: Ainda que esteja na esfera da suspeita?

Tabata: Gente, tem muito indício, tem muita coisa errada nessa história, tem gente presa. É claro que a gente sempre vai ter que esperar o último julgamento, a gente não pode se antecipar à Justiça. Mas a gente não está falando de uma mera suspeita. Inclusive, é uma área que a população sempre ouviu o buxixo.

Infelizmente, vivemos em uma cidade na qual o crime organizado possui vários tentáculos na administração pública. Só que essa é a primeira vez que a gente tem uma operação desse tamanho, tantos órgãos falando: "gente, não é só suspeita, não. A gente tem aqui contrato, a gente tem nome, a gente tem cara."

Simone: Têm prisões e apreensões...

Tabata: Exato. Dinheiro, arma e droga apreendida. Então, não estou falando de uma suspeita, não é assim que temos que fazer as coisas, mas é muito concreto esse caso.

E aí você pergunta, qual é a reação do prefeito diante disso tudo? Primeiro, ele foi lá na UpBus gravar um vídeo para elogiar a empresa, depois da denúncia. Além disso, ele queria entregar o transoprte aquático da Represa Billings para uma dessas empresas, a Transwolff. Só voltou atrás quando a gente começou a questionar.

A primeira coisa é a gente falar: tem coisa errada aí. Polícia Federal, vem ajudar a gente. Investiguem, punam, vamos fazer novas licitações. Mas essa não está sendo a postura.

Simone: Mas suspender também o serviço, em função da suspeita, acarretaria a perda de transporte para milhões de pessoas que dependem dessas duas empresas.

Tabata: A primeira coisa é entender que a gente precisa manter o serviço, que a Prefeitura pode assumir essa responsabilidade, e que os trabalhadores dessas empresas, que estão na ponta, a esmagadora maioria é honesta, correta, trabalhadora, não tem nada a ver com isso. Agora, precisamos ter um compromisso, de médio e longo prazo, de novas licitações. Porque também não dá para a prefeitura assumir essa operação indefinidamente.

O que eu defendo é manter o serviço e os trabalhadores. Agora, vamos trazer gente honesta, gente séria, que não tem esse tipo de acusação, para poder tocar.

Entender também que não é à toa que o transporte de São Paulo está tão ruim, quebra o tempo todo, atrasa, tem menos ônibus circulando. A gente vai vendo o quanto desse dinheiro desviado atrapalha a qualidade do serviço público. Deveríamos almejar como cidade fazer o que país desenvolvido faz. Primeiro que São Paulo enfrenta o trânsito de 39 cidades de toda a Região Metropolitana. Não tem um órgão para fazer essa coordenação. A gente não tem os dados em tempo real. Você pega uma experiência aqui, da Baixada. A Imigrantes e a Anchieta têm um sistema que, quando não está muito congestionado de um lado, eles mudam a faixa, para poder dar fluxo. São Paulo não tem isso. São Paulo não acompanha o trânsito em tempo real.

Simone: A CET não faz isso?

Tabata: A gente não tem em tempo real informações do trânsito para poder mudar uma mão… É tão absurdo, a gente não tem. O mundo todo tem um centro de operações com dados em tempo real, consegue mudar uma mão, consegue fazer uma gestão do trânsito no momento. Uma cidade tão grande como a nossa não ter esses dados, não usa GPS direito.

Porque na Europa você coloca: vou de A para B, aí aparece que o ônibus vai passar 7h10 da manhã; 7h09 o ônibus já está chegando. Isso é um GPS bem usado. O nosso compromisso tem que ser: se você for de ônibus, vai ser seguro e mais rápido. Hoje em dia, em São Paulo, é mais rápido ir a pé do que de ônibus quando você pega a Avenida Santo Amaro, por exemplo.

Simone: Vamos falar de trânsito, então. Temos visto nas últimas semanas, nos últimos tempos pelo menos, nos últimos meses, que a circulação se deteriorou. A gente está levando muito mais tempo para se deslocar de um ponto a outro na cidade de São Paulo. Em sua opinião, o que causou essa piora dos congestionamentos e qual é a solução se a sua gestão for vitoriosa?

Tabata: É uma série de fatores que foram se acumulando. Quando veio a pandemia, a frota de ônibus foi reduzida. Quando a pandemia, graças a Deus, acabou, essa frota deveria ter sido retomada, não foi. Então há menos ônibus circulando. Quando a gente olha para o planejamento que a gente tinha de expansão, de corredor exclusivo, para você focar no transporte público, completamente parado. Quase nada foi entregue pela gestão do Nunes. Essa questão de você colocar a Tarifa Zero no domingo, mirando na eleição e deixar que o metrô aumentasse a passagem… Essa descoordenação levou mais gente ainda para o ônibus. Então, são vários erros que foram se somando, que levam a esse caos. Você olha para as obras que estão sendo feitas. A esmagadora maioria obra emergencial, sem licitação, contrata empresa que não tem esse conhecimento. Você passa na obra não tem gente trabalhando, os horários não fazem o menor sentido. Então, são várias coisas que foram se somando, que trouxeram esse caos.

O prefeito Ricardo Nunes colocou 5 bilhões de reais em obras sem planejamento, sem licitação, sem transparência, com indício de corrupção,

Simone: Quais obras?

Tabata: São essas 'obrinhas'. Então, você vai tapar o buraco, ajustar uma calçada… São várias 'obrinhas' pela cidade que ninguém parou para falar. Às vezes até uma coisa mais grave, como uma encosta que tem risco de deslizamento. Tem alguém planejando essa obra? A gente entendeu que essa é a melhor solução? A empresa que foi contratada disputou? Você vai ver que 90% do recurso vai para empresas que têm denúncia de conluio. O que é isso? Um jogo combinado por trás. Metade desse recurso indo para o mesmo grupo de empresas. Essas empresas, para além da denúncia de corrupção, não têm conhecimento, não têm pessoas para trabalhar. E aí você vai abrindo a cidade. Sabe-se Deus por que razão… E a gente chega nesse caos que estamos.

Simone: Se a senhora for eleita, vai manter os ônibus sem cobrança de tarifa nos finais de semana?

Tabata: No domingo, sim. Mas a gente não tem a promessa de tarifa zero. Inclusive, acho que isso é uma proposta eleitoreira e irresponsável dos meus adversários.

Simone: Mas vai manter aos domingos?

Tabata: Sim. E aí até para poder aproveitar a deixa, quando Nunes e Boulos prometem Tarifa Zero, eles sabem que eles não vão conseguir cumprir.

A gente coloca hoje R$ 10 bilhões no transporte público, a cidade tem R$ 13 bilhões para investimento. Ou seja, se você colocar mais R$ 10 bilhões, não sobra quase nada para outras áreas. Um transporte público que tem acusações graves de corrupção. como a gente estava comentando, que não funciona, que está quebrado, que você precisa retomar a frota, usar a inteligência… Prefiro ser sincera com as pessoas, a gente não tem condições hoje de fazer a tarifa zero na cidade. O meu compromisso não é uma promessa que não vou conseguir cumprir, é a gente fazer um transporte público que funciona ,que é seguro e que passa no horário.

Acho muito importante que a gente tenha essa experiência no domingo, das pessoas poderem aproveitar uma atividade cultural, fazer um esporte, conhecer a cidade. Mas, como cidade, não temos condições de fazer tarifa zero hoje; no futuro, espero que tenha. Mas vai ser com o planejamento. Em diálogo com o governo do estado e o governo federal, e não de forma irresponsável. Além disso, quando as pessoas voltarem a confiar no transporte público, o que não é o caso de hoje.

Simone: A senhora é autora, na Câmara Federal, do projeto que trata da pobreza menstrual, e São Paulo regulamentou isso e tem sua própria política. O que a senhora pretende fazer caso eleita? De que forma pretende aplicar a lei na cidade de São Paulo?

Tabata: Essa foi uma batalha que comecei no meu primeiro mandato, por uma simples razão: de cada quatro meninas, uma já tinha faltado a aula por falta de absorvente. Tenho muita alegria de ter esse projeto aprovado, de saber que aqui em São Paulo as escolas têm absorvente, e acho que a gente tem que aproveitar essa experiência para se fazer outras perguntas. O que mais está fazendo com que os nossos jovens faltem às aulas? O que mais está fazendo com que desistam da educação? Falamos aqui brevemente, mas, a questão da alfabetização faz com que muitas crianças se desincentivem, porque elas não aprendem a ler e escrever, aí elas vão ficando mais velhas e não conseguem entender uma aula de história, uma aula de português, uma aula de geografia. Tudo é chinês para quem não foi alfabetizado. Se a gente não tiver esse foco de alfabetizar 100% – e é 100% mesmo, criança com deficiência tem condição de ser alfabetizada também, uma criança com autismo tem condição de ser alfabetizada. Com adaptação, com preparo, com uma equipe bem treinada, com inclusão – então, se a gente não tiver esse pacto por 100% de alfabetização, por uma alimentação escolar de qualidade... Tive que entrar na justiça, porque tinha creche em São Paulo sem feijão. Muitas vezes é a única refeição nutritiva que aquela criança vai ter. É a gente se colocar no lugar do aluno e perguntar: o que a gente pode fazer para essa escola ser o oásis da comunidade? Em que vai ter uma prática de esporte, vai ter uma alimentação bacana, você vai ter um contraturno forte, um teatro. Uma ideia simples que me trouxeram que eu pensei "meu deus, como eu nunca pensei nisso?": nossos professores visitarem todas as famílias de seus alunos. Colocar isso na agenda do professor, porque aí, na hora que o aluno chegar com fome, o aluno chegar com uma marca, ou o aluno chegar molhado, a professora vai saber o porquê de isso estar acontecendo.

Simone: Mas em que momento o professor faria isso? Fora do horário que ele tem que estar na escola?

Tabata: De jeito nenhum. É colocando isso na grade do professor. O professor já está dando tudo de si, só que ele não tem o apoio. É a gente desenhando uma grade que permita ao professor fazer essa imersão na comunidade. Por que não remunerar mais o professor que está na comunidade mais vulnerável? É criar as condições, inclusive financeiras, para que o professor, no seu tempo de trabalho, possa viver aquela comunidade, conheça quem está na saúde, quem está na assistência. A gente tem que entender o papel estratégico que uma escola bonita, que abra ao final de semana, que abra à noite, que aposta em seus professores, que alfabetiza, pode ter naquela comunidade.

Simone: Voltando ao projeto da pobreza menstrual. O que diz o seu projeto: que as meninas nas escolas públicas recebam o absorvente. Vai expandir?

Tabata: O projeto nacional já é mais amplo. Ele trata de escolas, mas ele também trata de posto de saúde. Hoje já é possível você fazer a retirada de absorvente na farmácia popular. Quando penso em expansão aqui em São Paulo, e é uma coisa que venho defendendo como deputada, é: garantir que toda escola tenha absorvente, mas que outros equipamentos públicos também tenham. Então, que uma mulher que está em uma situação de muita pobreza, quando ela for à farmácia popular, quando ela for no posto de saúde, se ela precisar, que ela tenha o absorvente também. É barato, é fácil de resolver, e impede inúmeras infecções e doenças que a gente vê hoje, porque a mulher usou miolo de pão, jornal velho, pano sujo e por aí vai...

Simone: Vou sair um pouco da cidade, para gente falar um pouco da política. A senhora ascendeu na política juntamente com outros jovens, e num momento de muito clamor por renovação na política – a senhora já está no seu segundo mandato. Outros jovens, como a senhora, também conseguiram ascender, Sâmia Bomfim, Vinicius Poit. A senhora acha que realmente esse objetivo de renovação foi cumprido, se cumpriu, com a eleição dos jovens que chegaram agora ao ganhar os mandatos?

Tabata: Tenho muita esperança em relação à política brasileira. Acho que a gente está avançando, mas a passos lentos, e nem sempre é só para frente. Digo isso porque, se você pega a minha história: sou filha de uma diarista, sou filha de imigrantes nordestinos, as coisas não foram feitas para eu estudar, para eu ir à faculdade, para eu me eleger um dia. Foi a educação que deu um nó nisso tudo e mudou o meu futuro. É claro que o mundo vai avançando, eu jamais estaria no Congresso Nacional há algumas décadas. Noventa anos atrás, a mulher não podia nem votar e nem ser eleita. Alguém que não vinha de família importante, como eu não venho – tenho muito orgulho de ser filha de quem eu sou – jamais estaria na política. Agora não é só flores, e não é tudo de uma vez. Se você me perguntar: "quem te inspira na política?" São pessoas muitas vezes mais jovens do que eu. É o Renan Ferreirinha, secretário municipal de educação do Rio de Janeiro; é o Felipe Rigoni, que foi o primeiro deputado cego do Brasil, e é secretário do Meio Ambiente no Espírito Santo; é o Abidan Henrique, vereador aqui em Embu das Artes, foi bolsista como eu, aposta na educação; Malu Fernandes, em Mogi; Mariana Calsa, em Limeira; se deixar, não paro mais. Tem muita gente diferente chegando na política. E essas pessoas que citei, do diálogo, furando a polarização, com entrega concreta para a população, pessoas honestas. Agora, vou dizer que é fácil? Não é. Enfrento ameaça de morte, xingamento, tudo que você puder imaginar, todo dia. As pessoas reagem: "como assim? Agora tem uma turma diferente, nova, com ideias diferentes, questionando tudo? Quem vocês acham que são?". A frase que mais ouvi quando fui eleita, foi 'quem é essa menina?', 'quem você acha que é?'. Então, as pessoas, elas se revoltam, não é que elas deixam a gente passar livremente. Mas, quer saber, não dá para colocar de volta na caixinha.

Simone: Esse termo que a senhora está dizendo que recorrentemente a senhora escuta, do 'menina', a incomoda?

Tabata: Hoje, não. No passado me incomodava. Porque sou nova, mas comecei cedo também. Com 14 anos, fundei o meu primeiro projeto social e comecei a dar aula em escola pública. Então eu falava "poxa, veja a minha história, veja a minha vivência, veja os meus projetos". Mas hoje acho que não. As pessoas se assustam, porque, brinco, eu não sou muito alta, tenho a voz mansa... Tenho um amigo que ele fala "o seu problema é que seu rosto não combina com o que vem depois". Então as pessoas não esperam que venha força, que venha reação, e sou acelerada, eu vou e falo com um, falo com outro, então hoje em dia, quando alguém fala menina, eu falo 'ah, tá tudo bem'. Ou a pessoa fala de uma forma carinhosa, ou quer desmerecer, mas aí também, eu continuo trabalhando, continuo entregando.

Simone: O que configura realmente uma renovação na política? É, por exemplo, um limitador no número de mandatos? Um limitador de idade? O que realmente traria então uma renovação da política brasileira?

Tabata: Simone, aprendi algumas coisas nesses quase seis anos de deputada federal. Uma delas é que, mais que uma nova política, a gente precisa de uma boa política. E a boa política não tem idade, ela não tem número de mandatos. E digo isso porque vi muita gente nova chegar com práticas muito antigas de corrupção. E conheci muita gente que está na gestão pública há décadas e que é extremamente séria e correta. Um exemplo para mim é o vice-presidente Geraldo Alckmin. Se você vir onde ele mora, o carro que ele usa, a seriedade com que ele conduz a coisa pública, e ele está na política há muito tempo. Então, quando falo de boa política, não tem a ver com idade, cor da pele, nada. Essa pessoa é séria? Essa pessoa vai se impor? Ela vai bater de frente? Ela vai brigar pelo que é certo? Essa pessoa está querendo lacrar nas redes sociais, receber palminha, ou ela está querendo aprovar projeto? Foi um aprendizado para mim, que falava de nova política, entender que só o novo não necessariamente é bom. É bom ter gente mais jovem junto, é bom ter mulher também, ter negro também, mas é essa mistura ser pautada pela ética, não só trocar um pelo outro, e achar que vai ser melhor.

Simone: Vamos falar agora do vice da sua chapa. A senhora chegou a dizer antes que o Datena seria um ótimo vice. Ele foi para o PSB, mas aí ele migrou agora para o PSDB. O Datena é o seu vice? Tá configurado?

Tabata: Tanto eu quanto o PSDB queremos muito que o Datena aceite esse convite para ser meu vice pelo PSDB. E aí acho que vale falar sobre os dois em separado, mas a gente sabe que ele tem até julho para tomar uma decisão. E eu estou lá todo dia: 'e aí Datena, já tomou uma decisão?'

Simone: Sem falar que normalmente ele toma a decisão e depois ele desiste, né?

Tabata: Mas, se ele tomar, ele não vai desistir dessa vez, não. Ele está muito focado e muito motivado em dar uma contribuição para São Paulo. O Datena todo mundo conhece, um dos maiores comunicadores, uma pessoa séria, e que tem muita responsabilidade com as pessoas que estão lá, seja num ponto de ônibus com medo, seja acordando cedo para ir trabalhar. Falta gente na política com essa sensibilidade. Em relação ao PSDB, é importante a gente também entender que muitas coligações partidárias gigantescas são construídas com base no dinheiro: é o cargo, é o dinheiro que corre por fora, é não sei o quê. Esse jogo não faço. Quando sento para conversar com o PSDB, é porque o PSDB, que esteve à frente da cidade por tantas décadas, quer falar comigo sobre plano de governo, sobre qual é o sonho para São Paulo, o que a gente vai fazer na educação, no transporte, na segurança pública. Então, para as pessoas também suspeitarem quando elas veem tantos partidos tão diferentes juntos. Elas se perguntarem: 'qual é a cola que tá unindo tudo isso?'

Simone: É lógico que a gente tem um passado do PSDB. Mas qual é a importância de ter o PSDB na sua chapa, sendo que é um partido que inquestionavelmente perdeu peso e importância na política paulista? Eles perderam muitas prefeituras no estado de São Paulo, é um partido hoje menor do que ele já foi antes. Por que é tão importante, que diferença faz ter o PSDB?

Tabata: Se a gente for olhar para os mandatos que o PSDB tem, de fato, o partido ficou menor nos últimos anos. Agora, se a gente for olhar para os quadros que o PSDB tem, poucos partidos reuniram tanta gente qualificada como o PSDB. E mesmo olhando para as pessoas que estão me ajudando na construção do plano de governo, muitas delas estão na vida pública há muitos anos por conta do PSDB. Você pega a Vivian Satiro, que coordena meu plano de governo; o Orlando Faria, que é nosso coordenador político, foram pessoas que assumiram secretarias importantes e que estiveram ao lado do Bruno Covas na última gestão. Então, o valor que o PSDB tem para mim, não é um valor de um cargo, não é um valor de um recurso, é o de ter gente séria, que entende de transporte público a saúde mental, e que fala 'eu prezo pelo diálogo'.

Eu acho que o caminho do centro é o melhor. Não importa se é de esquerda ou direita. Funcionou? Tem algo a dizer? Então a gente vai ouvir. Quando olho para o PSDB, é desse lugar de um partido que reúne muitos quadros. Brinco muito com o senador Zé Aníbal, que é o presidente municipal: 'Senador, mesmo se eu não quisesse, não tinha como eu não conversar com vocês'. Porque, quando eu olho para os especialistas que estão nos ajudando a construir o plano de governo, muitos deles trabalharam com o nosso vice-presidente Geraldo Alckmin, trabalharam com o Serra, trabalharam com Kassab, trabalharam com Bruno Covas, e têm muito a contribuir.

Simone: Até agora o PSDB disse que não apoiará a candidatura do Ricardo Nunes, o atual prefeito, mas ainda não disse que vai apoiar sua candidatura. Ele é importante para a senhora. Por que, até agora, a senhora não representou um nome definitivo?

Tabata: A gente já fez um convite para o Datena, e foi por isso, inclusive, que o Datena se filiou ao PSDB, porque para mim seria muito importante tê-lo e ter o PSDB nesse projeto com a gente. Mas entendo também que estou aqui há muito tempo construindo esse projeto, mas faltam cinco meses e duas semanas para a eleição, então também cabe a mim ter um pouco de tranquilidade. Tem tanta gente massa somando a esse processo, que está tudo bem elas decidirem qual posição vão ocupar daqui mais para frente.

Simone: A senhora já mencionou várias vezes o vice-presidente Geraldo Alckmin. Que papel ele vai ter na sua campanha? Vai subir no seu palanque?

Tabata: 100%. Já está nos ajudando. O nosso vice-presidente Geraldo Alckmin me ajuda na construção do plano de governo, na construção política, estará conosco no dia 1º de Maio, quando a gente vai fazer um grande lançamento dos grupos que estão escrevendo o nosso plano de governo. Então vem sendo uma figura muito importante, que é um farol para a gente, porque é alguém pautado pelo diálogo, que não vai no caminho do extremismo, e que é alguém sério. E está faltando gente séria nesse momento da política brasileira, gente honesta, gente que não está lá para fazer palanque, mas está lá para resolver as coisas.

Simone : Isso não vai criar uma saia justa dele com o presidente [Lula], que apoia o outro candidato, Guilherme Boulos?

Tabata: Não, porque o vice-presidente Geraldo Alckmin é do nosso PSB, ele não é do PT. A gente tem muito respeito e muito carinho por todos os outros partidos, mas o nosso vice-presidente Geraldo Alckmin é do PSB, e o nosso PSB vai para essa disputa municipal com seus quadros, com seus valores, com suas propostas. Somos muito diferentes de outros partidos e é importante que o PSB, nessa disputa, apresente o que pensa, quem é. E a gente tem tanta gente bacana, tantas candidaturas jovens: o João Campos, que vai para a reeleição em Recife; Duarte Júnior, que vai disputar a prefeitura no Maranhão, em São Luís, então também tem gente com uma pegada diferente, com propostas diferentes.

Simone: Tem uma pesquisa mais ou menos recente do Google que mostrou que algumas perguntas muito frequentes a seu respeito são: 'quem é a Tabata Amaral? Ela é de esquerda ou direita?'. Parece, portanto, que essa polarização que a gente vê nacionalmente ainda vai pautar essa eleição municipal em São Paulo. Você pode responder para a gente?

Tabata: Tabata Amaral é alguém que junta o social com fiscal, que, quando olha para a educação, para a pauta social, entende que a nossa principal obrigação, não é nem responsabilidade, é combater a desigualdade. Mas, para fazer isso, a gente tem que cuidar do fiscal, tem que fazer conta, tem que ter eficiência no serviço público, e ouso dizer que a gente pode querer desenvolvimento econômico e proteção ambiental. Por que a economia fica com a direita e política ambiental fica com a esquerda? Que posso desejar ir buscar, como representante pública, a gente ter o combate à corrupção bem feito e o investimento na educação pública e de qualidade. Por que a gente escolheu duas caixinhas, jogou várias coisas em cada uma delas? 'Ah, isso aqui eu não posso, não. Não vou falar de segurança pública, não. Segurança pública é de direita'. É muito absurdo. Se as pessoas quiserem saber qual é o meu posicionamento em cada questão, elas podem saber, é só pesquisar.

Simone: Ok. Mas se a gente for checar, em vários quesitos, a senhora é mais esquerda ou a senhora é de direita?

Tabata: Centro; centro-esquerda; Social Democracia, que era o PSDB lá nas origens, tão importante; social junto com fiscal; efetividade; tem muitos nomes, mas os nomes estão vazios de significado. Para uma pessoa, centro vai ter um significado, para outra, social-democracia vai ter outro. Tem gente que acha que você nem pode juntar essas coisas, que é um absurdo juntar essas palavras.

Simone: Então a senhora não se define nem esquerda, nem direita?

Tabata: De esquerda e de direita, não sou, não. Para algumas pessoas sou de centro, para outras, de centro-esquerda; para outras, progressista. Mas por que essa necessidade? Por que as pessoas preferem escolher o rótulo que elas vão colocar em mim ao invés de querer saber quais projetos aprovei no Congresso? Quais foram as minhas votações em cada um desses 100 projetos que a gente vota por mês? Como a Tabata destina as emendas parlamentares? Como é que ela se posiciona quando tem um caso de combate à corrupção no plenário? Ela tem coragem e vota ou ela se acovarda? Quando tem que enfrentar alguém grande, um ministro ou algum poderoso, ela fica pequenininha ou ela fica grandona? São essas perguntas que importam e estou muito pouco preocupada com rótulos.

Simone: As pessoas ainda estão muito preocupadas com o rótulo...

Tabata: Não é a maioria delas. Na última eleição municipal, a gente elegeu o Bruno Covas, que não era o candidato nem do Lula, nem do Bolsonaro. Não é à toa que tenho hoje 10% nas pesquisas e continuo crescendo. É porque as pessoas querem falar de cidade, o que pensa para segurança. A gente não pode dar uma carta branca para alguém só porque aquela pessoa recebeu a recomendação do Lula ou recebeu a recomendação do Bolsonaro. A última eleição nacional já se foi há dois anos. A próxima é só daqui a dois, se a gente der uma carta em branco e continuar nessa polarização Lula-Bolsonaro, esquerda-direita, quem cuida do transporte público? Quem cuida da segurança? Quem vai inovar? Quem cuida da alfabetização? A gente vai dar uma carta em branco para fazerem o que quiserem, menos cuidar da gente, da cidade.

Simone: Vamos falar de Segurança Pública, que hoje é uma questão muito cara para o paulistano. A sensação de insegurança, e não só a sensação, é muito forte. Em algumas áreas da cidade as pessoas andam sempre com muito medo atualmente. Como é que se resolve a questão da segurança pública? Ainda que seja um assunto, um tema muito mais do governo do Estado, em função da polícia, mas a prefeitura tem a Guarda Civil Metropolitana. Qual é a sua proposta em relação à Guarda Civil Metropolitana? Vai armar ainda mais? Tem uma candidata que propõe que a CET seja armada...

Tabata: As pessoas, elas se dividem, nessa coisa da polarização, em duas caixinhas: de um lado quem fala 'não quero falar de Segurança Pública, não é comigo, fala com o governador. Não sou eu para deixar bem claro', e de outro, gente que fala: 'vamos armar todo mundo, que isso vai resolver'. A gente só vai expor as forças policiais a cada vez mais risco se a gente não usar inteligência, se a gente não fizer uma boa gestão.

Quando a gente fala da nossa guarda, é claro que a guarda tem que ser fortalecida. A gente tem 7 mil guardas para toda a cidade de São Paulo. É muito pouco. Agora, a gente tem que entender que aguarda tem um papel muito importante de levar a sensação de segurança ao redor das escolas, por exemplo, que estão tão abandonadas; que a guarda pode ser nossa aliada para a gente enfrentar a violência doméstica, com a Patrulha Maria da Penha. A solução não é culpar e jogar tudo em cima da Guarda ou culpar e jogar tudo em cima da PM, se a gente não está dando condições para eles trabalharem. Que condições são essas? Primeira coisa, inteligência. Teresina está conseguindo devolver os celulares roubados, porque está usando inteligência. A prefeitura está trabalhando com o governo do estado, rastreando os celulares, indo atrás, abrindo inquérito contra as pessoas, e, o mais importante, identificando os manda-chuvas. Se tem alguém roubando celular, é porque tem alguém vendendo sem nota fiscal. São essas pessoas que a gente tem que prender também. Se Teresina fez, por que a gente não faz em São Paulo? Pelotas está conseguindo reduzir todos os índices de insegurança, tem uma prefeita lá que está usando inteligência, está fazendo uma boa gestão. Agora a gente fica por trás desse discurso para não fazer o nosso papel, que é proteger quem está na rua protegendo a gente, que é usar as câmeras.

Outra coisa, a gente tem uma cidade que não usa inteligência para iluminação: calçadas que não estão iluminadas; lâmpadas queimadas. Se a lâmpada queima, ninguém fica sabendo. Uma cidade que cuida do local, tira o lixo, cobre a pichação, ilumina, é uma cidade que repele o crime. Uma cidade que abre a escola à noite, de final de semana, que investe na atividade física, na cultura, na educação, é uma cidade que começa a atrair esses jovens para outro local, que não é o que a gente faz hoje. Então essa polarização de 'segurança não é comigo' ou 'Ah, não. Vamos armar todo mundo', mas não vamos usar inteligência nenhuma, não leva a nada. O nosso compromisso é ser efetivo e para ser efetivo, tem que estudar: o que Nova York fez? O que Teresina fez? O que Pelotas está fazendo?

Simone: A última pesquisa do Datafolha, que é um instituto de muita credibilidade, aponta que a candidata do Novo, Marina Helena, que está em quarto lugar, na verdade, agora estaria já em empate técnico com a senhora. Como é que a senhora viu esses números?

Tabata: Essa pesquisa específica, ela teve um problema que foi reconhecido pelo Datafolha, que houve uma confusão do nome da Marina Helena com o nome da Marina Silva. E aí cabe à pré-candidata, enfim, justificar, não cabe a mim. O que é importante para a gente, é que comecei ano passado com 6% no melhor dos cenários e, hoje, em todas as pesquisas, menos essa, a gente pontua com 10%, destacada em terceiro lugar, com a menor rejeição, e quando você pergunta 'poderia votar', vou para primeiro lugar. Então as pessoas estão cansadas da polarização, querendo alternativas, e o nosso papel é apresentar esse projeto, esse time e dizer para as pessoas que, aqui em São Paulo, a gente tem opções, a gente tem uma alternativa.

Simone: Por que ser prefeita de São Paulo?

Tabata: Para unir essas duas São Paulos. Eu, com 11 anos, participei de uma olimpíada de matemática, com 13, ganhei uma bolsa em uma escola particular e descobri que tinha vestibular, faculdade pública, Parque Ibirapuera e Avenida Paulista, e passei a transitar em duas cidades que geralmente não se conversam: a da periferia e a do centro. O que sonho, o que quero, é que outras mães da periferia, assim como a minha, possam realizar o sonho de formar seus filhos na faculdade. É a gente enfrentar essa loteria do CEP e, por meio da educação, do esporte, da cultura, de emprego, garantir que nossos jovens possam sonhar independentemente de onde nasceram. É pegar essa São Paulo que você leva quatro horas para atravessar de um lado para o outro e juntar ela, e espalhar melhor essas oportunidades. Esse é o meu sonho. E é para ser ponte, é para unir essas duas São Paulo, que eu estou aqui.

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