Criadouro rebate acusações e diz manter 98 ararinhas-azuis saudáveis na Caatinga
Instituição nega desleixo, questiona exames que apontam circovírus nas ararinhas-azuis e diz ter solicitado acesso ao processo que levou à multa do ICMBio

Warley Júnior
O Criadouro Ararinha-azul, localizado em Curaçá (BA), rejeitou com “veemência” as acusações de negligência e condições inadequadas de manejo após a abertura de investigação sobre a presença de circovírus em aves do programa de reintrodução da espécie na Caatinga. A instituição afirma que 98 das 103 ararinhas sob seus cuidados testaram negativo para o vírus.
A empresa, que não utiliza recursos públicos e opera majoritariamente com capital estrangeiro, diz seguir protocolos rígidos de biossegurança. O criadouro afirma contar com veterinários, tratadores e consultores especializados em uma área de mais de 2,6 mil metros quadrados dedicada ao manejo e à reprodução das ararinhas-azuis.
O criadouro também contesta a versão de que as “últimas ararinhas-azuis na natureza” estariam em risco iminente. A direção destaca que, até 2019, não havia nenhum exemplar vivendo livre na Caatinga e que o projeto permitiu a chegada de 101 aves ao bioma.
Em nota divulgada neste domingo (30), o criadouro informou que 103 ararinhas estão atualmente sob seus cuidados: 98 com resultado negativo para circovírus e cinco com detecção do vírus em pelo menos um exame.
Sobre as 11 aves de vida livre capturadas para análise, a instituição aponta divergências entre metodologias laboratoriais. Testes convencionais, inclusive realizados por um laboratório do governo, teriam identificado três aves positivas. Já outro método teria detectado o vírus nas 11. O criadouro diz que esses animais estão isolados, sem contato com outras araras, utilizando equipes e equipamentos separados.
A direção afirma que ainda não teve acesso ao laudo técnico que fundamentou a multa de R$ 1,8 milhão aplicada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Por isso, solicitou acesso ao processo e pediu uma reunião técnica com autoridades e laboratórios para reavaliar os resultados.
A instituição também diz que o primeiro registro da presença do vírus ocorreu em uma ave que já vivia em liberdade.

Histórico do programa
O criadouro afirma ter participado, em 2022, da reintrodução da espécie na Caatinga, em parceria com o ICMBio, após certificação sanitária. Vinte aves foram liberadas e, cerca de três anos depois, a taxa de sobrevivência estimada era de 45%, com o nascimento de sete filhotes em ambiente natural o primeiro registro de reprodução em vida livre em mais de 37 anos, segundo a instituição.
Em 2025, outras 20 ararinhas estavam em preparação para soltura quando a detecção do circovírus levou à suspensão preventiva da operação. No mesmo ano, 41 aves foram importadas da Alemanha para reforçar o programa. O criadouro afirma que todos os procedimentos foram acompanhados pelo Ministério da Agricultura, IBAMA, Receita Federal, Polícia Federal e ICMBio.
Entenda o caso
Na semana passada, o ICMBio informou que as 11 ararinhas-azuis reintroduzidas na Caatinga e recapturadas no início de novembro testaram positivo para circovírus, vírus altamente letal para psitacídeos e causador da chamada “doença do bico e das penas”.
O órgão também aplicou multa de R$ 1,8 milhão ao criadouro responsável pelo manejo das aves, alegando falhas em protocolos de biossegurança.
Originário da Austrália, o circovírus provoca perda de penas, deformidades no bico e costuma ser fatal para araras, papagaios e periquitos.
Segundo o ICMBio, as aves contaminadas haviam sido repatriadas da Europa, passaram por período de adaptação em cativeiro e foram soltas em 2022 como parte do programa de reintrodução da espécie, considerada extinta na natureza entre 2000 e 2020.









