Brasil

COP30 expõe disputa global por minerais críticos e pressiona países em desenvolvimento na transição energética

Especialista aponta que metas climáticas seguem distantes da realidade econômica e geopolítica, enquanto Brasil tenta se firmar como protagonista

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Vicklin Moraes
11/11/2025, 23:06 • Atualizado em 11/11/2025, 23:06
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Floresta amazónica e a cidade de Belém ao fundo | REUTERS/Anderson Coelho/Foto de arquivo

Floresta amazónica e a cidade de Belém ao fundo | REUTERS/Anderson Coelho/Foto de arquivo

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que começou nesta semana em Belém, reacende um debate antigo e ainda sem solução sobre desigualdade climática, acesso a recursos naturais, limites reais da transição energética e a constante exploração de minerais raros.

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Para o professor Marcelo Luiz Dias da Silva Gabriel, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), as negociações continuam marcadas por promessas pouco executadas e por uma geopolítica que segue orientada pelos interesses das grandes potências emissoras de carbono.

"A transição energética é imperativa, mas os maiores queimadores de combustíveis fósseis não mostram disposição concreta para abandonar esse modelo”, afirma. A ausência dos Estados Unidos, um dos maiores emissores do planeta, é vista por ele como um sinal negativo para avanços estruturais.

A desigualdade estrutural aparece como pano de fundo. Marcelo descreve a situação como uma fila em que, quando chega a vez dos países em desenvolvimento, o bolo já acabou. As nações ricas enriqueceram queimando petróleo e agora cobram dos demais que não sigam o mesmo caminho. O custo das tecnologias limpas e a falta de infraestrutura também dificultam a adaptação de modelos sustentáveis à realidade global, embora haja espaço para saltos tecnológicos, como ocorreu no Brasil com a expansão acelerada da telefonia móvel.

Minerais raros e a transição energética

Com a eletrificação da economia, especialmente no setor automotivo, o mundo disputa minerais críticos como lítio, cobalto, níquel e terras raras. O professor avalia que não existe minério suficiente para sustentar, no modelo atual, uma transição energética plena. Ele acredita, no entanto, que a pressão do mercado deve acelerar tecnologias alternativas.

"A cadeia do carro elétrico é hoje mais custosa e menos sustentável que a do veículo a combustão. É uma tecnologia ainda de transição, imatura", classifica. A dificuldade de descarte de baterias, a falta de infraestrutura de recarga e a dependência de minerais estratégicos mostram que a economia verde também produz impactos profundos.

🔎No Brasil, a extração mineral permanece baseada em métodos antigos e de alto risco socioambiental. Após a lavra, mineradoras armazenam rejeitos em grandes barragens destinadas a evitar a contaminação ambiental. Na prática, muitas dessas estruturas continuam frágeis. Um levantamento da Agência Nacional de Águas indica que o país tem 241 barragens com risco de colapso.

Os exemplos mais trágicos são conhecidos. Em 2015, a barragem de Fundão, em Mariana, se rompeu e liberou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos, devastando Bento Rodrigues, matando 19 pessoas e contaminando o Rio Doce até o litoral do Espírito Santo. Em 2019, o rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, deixou 272 mortos e destruiu comunidades ao longo do Rio Paraopeba.

“Você olha na COP e um dos patrocinados, o que tá lá expondo, é a própria Vale. O que que acontece, a legislação sempre vem depois. A legislação é sempre provocada. E aí você precisa demandar um esforço gigantesco, haja vista que isso se dá no âmbito legislativo, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado. Você precisa congregar a quantidade suficiente de votantes para um projeto que endureça”, afirma Marcelo
Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil
Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

China, EUA e Europa na disputa por minérios

A corrida por minerais críticos já reorganiza a geopolítica. O professor destaca que a China avança na África e domina a cadeia de semicondutores, os Estados Unidos tentam recuperar empregos industriais com tarifas e políticas voltadas ao Rust Belt e a União Europeia busca reindustrializar-se em meio à crise energética.

A ausência dos EUA na COP 30 está longe de impedir que a pauta mineral avance. O recente tarifaço americano poupou justamente minerais estratégicos, o que indica que esse será um dos principais campos da disputa global.

"Se a gente pensar ali no que eles chamam de Rust Belt, no Cinturão da Ferrugem, que foi o pilar da indústria automobilística até meados dos anos 70, esse eleitor é o eleitor clássico dos republicanos, e ele precisa falar para esse eleitor. E o Trump e o governo americano sabem exatamente quais são as suas necessidades futuras, quais são as suas necessidades daqui para frente", ressalta Marcelo.

O que falta ao Brasil?

Para o professor, o país tem potencial para refinar, industrializar e liderar a economia de minerais críticos — mas falta o essencial: desejo político. “Vontade política, econômica e social. Sem isso, seguiremos exportando minério bruto para outros agregarem valor”, afirma.

O risco, destaca, é o Brasil permanecer no papel histórico de fornecedor de recursos naturais, enquanto outros países lucram. Se não rompermos com a lógica da exportação primária, continuaremos vulneráveis. E a expansão mineral sem governança clara ainda traz riscos climáticos sérios ao país.”

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