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Césio-137: deputados de Goiás aprovam aumento de pensão às vítimas de acidente radioativo

Benefício atende profissionais da saúde e trabalhadores que atuaram na descontaminação da área afetada

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Ocorrido em setembro de 1987, o episódio é considerado o maior acidente radiológico fora de uma usina do mundo | Reprodução

A Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) aprovou, no último dia 26, o reajuste das pensões especiais concedidas às vítimas do acidente radioativo com Césio-137, em Goiânia. Agora, a proposta será enviada à sanção do governador Ronaldo Caiado (PSD) — autor do texto.

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Ocorrido em setembro de 1987, o episódio é considerado o maior acidente radiológico fora de uma usina do mundo (leia mais abaixo). A história voltou a repercutir recentemente no Brasil, em decorrência do lançamento da série “Emergência Radioativa”, na Netflix.

O projeto de lei visa atualizar os valores pagos aos beneficiários que atuaram na descontaminação da área afetada, na vigilância do depósito provisório em Abadia de Goiás e no atendimento de saúde às vítimas diretas do acidente radioativo. Ao todo, cerca de 603 pessoas recebem a pensão vitalícia.

Com o reajuste, as pensões passarão de R$ 1.908 para R$ 3.242 aos radiolesionados pelo contato direto com o Césio-137 e para aqueles que receberam irradiação superior a 100 RAD. Já os demais beneficiários terão a pensão reajustada de R$ 954 para RS 1.621.

Relembre o caso

O acidente com o Césio-137 aconteceu em setembro de 1987, em Goiânia, capital de Goiás. Naquele mês, dois catadores entraram no edifício que abrigava o antigo Instituto Radiológico de Goiânia em busca de algo para vender como sucata. Nos escombros, a dupla encontrou uma peça de chumbo, de 98 kgs.

O que eles não sabiam é que tal peça pertencia a um aparelho de radioterapia abandonado. A fonte, com radioatividade de 50.9 Tbq (1375 Ci) continha cloreto de césio, composto químico tóxico em pó de alta solubilidade.

A dupla vendeu a peça para Devair Alves Ferreira, dono de um um ferro-velho no Setor Central de Goiânia. Sem noção do perigo, ele pediu para dois funcionários removerem o chumbo que envolvia a fonte radioativa. À noite, ao passar pelo pátio do estabelecimento, percebeu um intenso brilho azul vindo do interior da cápsula. Encantado, levou a peça para casa, onde mostrou o pó para familiares.

Dias depois, Devair e sua esposa, Maria Gabriela, começaram a apresentar sintomas típicos de radiação, como diarreia, náuseas, tontura, vômito e queda de cabelo. Em seguida, Ivo Ferreira, irmão de Devair, também começou a passar mal, assim como sua esposa, Lourdes, e seus filhos, Leide, de seis anos, e Lucimar, de 14.

Foi somente 17 dias depois da abertura da cápsula no ferro-velho que a contaminação foi identificada. A responsável por informar as autoridades foi Maria Gabriela, que, desconfiada de que o pó brilhante era o causador dos problemas de saúde da família, levou a peça à Vigilância Sanitária. Paulo Roberto Monteiro, diretor da unidade na época, contatou o físico Walter Mendes, que confirmou o material tóxico.

A notícia obrigou as autoridades a agirem rápido para conter a disseminação da radiação no estado. Como a fonte foi manuseada por semanas, diversos locais precisaram ser interditados e, inclusive, demolidos. Os contaminados foram internados em alas isoladas do Hospital de Goiânia, sendo que os casos mais graves foram encaminhados para tratamento no Hospital Naval do Rio de Janeiro.

Ao todo, o acidente radioativo provocou quatro mortes diretas, incluindo a de Leide, uma das mais marcantes da época. Outras dezenas de óbitos ocorreram nos anos seguintes, em decorrência da radiação.

As vítimas diretas foram:

  • Maria Gabriela Ferreira (esposa de Devair): ela adoeceu cerca de três dias após ter contato com a substância, morrendo em 23 de outubro de 1987, cerca de um mês após a exposição, aos 37 anos.
  • Israel Batista dos Santos (funcionário de Devair que trabalhou na remoção do chumbo da fonte): ele foi internado no Hospital Naval Marcílio Dias e morreu seis dias depois, em 27 de outubro de 1987, aos 22 anos.
  • Admilson Alves de Souza (funcionário de Devair que manipulou a fonte): ele morreu em 28 de outubro de 1987, no Hospital Naval Marcílio Dias, aos 18 anos.
  • Leide das Neves Ferreira: foi a vítima com a maior dose de contaminação radioativa pelo Césio 137. Ela morreu, em 23 de outubro de 1987, por hemorragia de múltiplos órgãos no Hospital Naval Marcílio Dias.

Maria e Leide foram enterradas no Cemitério Parque, em Goiânia, em um caixão especial de 700 quilos, revestido com chumbo para evitar a propagação da radiação. Os túmulos, posteriormente, concretados.

Leide das Neves Ferreira, vítima do acidente radioativo | Divulgação
Leide das Neves Ferreira, vítima do acidente radioativo | Divulgação

O acidente radioativo foi classificado como nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares, que vai de zero a sete. No campo cível, a principal condenação institucional foi imposta à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), fixada em R$ 1 milhão por danos difusos. Cinco médicos ligados ao Instituto Radiológico onde a fonte foi retirada também foram condenados, mas cumpriram a pena em liberdade.

Já os rejeitos radioativos (roupas, móveis e escombros de casas) foram armazenados em um depósito no município de Abadia de Goiás, região metropolitana de Goiânia. Ao todo, 6 mil toneladas de rejeitos foram distribuídos em contêineres de chumbo, isolados em morros artificiais de concreto. Todo o material, monitorado pela CNEN, ficará isolado por menos 300 anos, contados a partir da data do acidente, para que a radiação atinja níveis seguros.

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