Moradia cara faz jovens adiarem planos de independência
Alta dos preços dos imóveis, custo da locação e dificuldade de financiamento levam jovens a adiar planos de morar sozinhos e comprar a casa própria
Camilly Rosaboni
Aluguel caro e imóveis valorizados dificultam a independência habitacional dos jovens | Reprodução/Magnific
A alta dos preços dos imóveis e dos aluguéis tem dificultado o acesso à moradia em diferentes países. Na União Europeia, onde alguns países enfrentam atualmente uma crise habitacional, os preços de compra de imóveis residenciais subiram 48% entre 2010 e 2023, segundo o Eurostat. Já no Brasil, o aumento da participação dos domicílios alugados e o déficit habitacional também ajudam a dimensionar o desafio, que afeta especialmente quem está no início da vida profissional.
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A jornalista Mariana Franco, de 25 anos, sentiu esse impacto ao deixar o apartamento que dividia com outras duas pessoas em São Paulo e voltar para a casa dos pais, em Araçoiaba da Serra, no interior paulista. A decisão permitiu reduzir os gastos com moradia, mas trouxe uma nova rotina: enfrentar cerca de quatro horas de deslocamento, entre ida e volta, para trabalhar na capital em dia de presencial.
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“Os aluguéis estão caros. Quando eles são baixos, são lugares pequenos, quase inabitáveis, com partes faltando no imóvel, como contrapiso no chão. E, nesses casos, os imóveis ainda são longe do centro [da cidade]”, relata.
O caso reflete uma dificuldade mais ampla. Em 2024, o Brasil tinha um déficit habitacional estimado em 5,77 milhões de domicílios, segundo a Fundação João Pinheiro. No mesmo ano, 23% dos domicílios brasileiros eram alugados, ante 18,4% em 2016, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em números absolutos, a quantidade passou de 12,3 milhões para 17,8 milhões no período.
A proporção de domicílios próprios já quitados, por outro lado, caiu de 66,8% em 2016 para 61,6% em 2024. Outros 6% eram próprios, mas ainda estavam sendo pagos.
A dificuldade de acesso à moradia não afeta apenas os jovens. Em Madri, na Espanha, a morte de Maricarmen Abascal, de 87 anos, após ser retirada de casa em 23 de setembro, mobilizou manifestações em defesa do direito à moradia em meio à crise habitacional no país. O caso evidencia como o problema também pode atingir idosos, especialmente em situações de vulnerabilidade.
Além do valor da locação, as despesas com contas domésticas pesam no orçamento. Mariana afirma que, para morar sozinha, precisaria rever gastos com academia, alimentação e acompanhamento psicológico, além de arcar com internet, água, luz e gás.
Segundo a Fundação João Pinheiro, cerca de 3,59 milhões de domicílios urbanos estavam sujeitos ao ônus excessivo com aluguel em 2024. O indicador considera famílias com renda de até três salários mínimos que destinam mais de 30% do rendimento ao pagamento da locação.
Os preços também pressionam quem procura um imóvel. O Índice FipeZAP registrou alta de aproximadamente 9% nos valores anunciados para aluguel residencial nos 12 meses até junho de 2026. O indicador acompanha preços de anúncios e não representa necessariamente os reajustes de todos os contratos vigentes.
Para a advogada Helen Salomão, especialista em Direito Notarial, Imobiliário e Registral do escritório Raasa Advogados, a combinação entre renda, custo da moradia e condições de financiamento dificulta a conquista da independência habitacional.
“No início da carreira, a renda costuma ser menor, enquanto a compra de um imóvel exige recursos para a entrada e capacidade de assumir um financiamento de longo prazo. Com crédito caro e despesas de moradia elevadas, sair da casa dos pais e conquistar independência financeira fica mais difícil”, afirma.
O perfil de quem acessa o crédito imobiliário também mostra que a compra de um imóvel não se concentra apenas entre os mais jovens. Segundo o Relatório de Cidadania Financeira 2025, do Banco Central, 28% dos usuários de financiamento imobiliário tinham entre 18 e 34 anos em dezembro de 2024. A maior parcela, 67%, estava na faixa dos 35 aos 60 anos. Além disso, 71% dos usuários tinham vínculo formal de emprego.
Os dados descrevem o perfil de quem utiliza financiamento imobiliário, e não o percentual de jovens que consegue comprar uma casa. Ainda assim, ajudam a contextualizar os obstáculos enfrentados por quem está no início da carreira e precisa reunir recursos para a entrada e assumir parcelas por vários anos.
O que Brasil e Europa têm em comum?
Na Europa, a crise habitacional também envolve a alta dos preços e a dificuldade de encontrar imóveis compatíveis com a renda. Na Espanha, o problema ganhou visibilidade em meio a episódios de despejo e à disputa por moradias em cidades como Madri.
Há semelhanças com o Brasil, segundo Helen, principalmente no comprometimento da renda com a moradia, na dificuldade de jovens para deixar a casa dos pais e na disputa por imóveis bem localizados. No país, porém, também pesam problemas como a precariedade de parte das construções, a falta de infraestrutura e a irregularidade fundiária.
Entre as alternativas apontadas pela especialista está a ampliação da locação social, modelo em que o poder público oferece imóveis para aluguel a valores compatíveis com a renda das famílias. Outra possibilidade é recuperar edifícios ociosos em regiões centrais que já contam com transporte e infraestrutura.
“A crise habitacional não se resolve apenas aumentando o número de casas. É preciso garantir que elas caibam no orçamento das famílias e estejam onde a vida acontece”, afirma.
Para Mariana, a volta à casa dos pais também significou reorganizar prioridades. Juntar dinheiro e viajar estão entre os planos que deseja manter, enquanto a ideia de ter filhos fica para depois. A experiência mostra como o custo da moradia pode interferir em decisões que vão além da escolha entre alugar ou comprar um imóvel.
*Sob supervisão
Moradia cara faz jovens adiarem planos de independênciaAlta dos preços dos imóveis, custo da locação e dificuldade de financiamento levam jovens a adiar planos de morar sozinhos e comprar a casa própriaBrasil2026-10-12T13:03:18.490ZA alta dos preços dos imóveis e dos aluguéis tem dificultado o acesso à moradia em diferentes países. Na União Europeia, onde alguns países enfrentam atualmente uma crise habitacional, os preços de compra de imóveis residenciais subiram 48% entre 2010 e 2023, segundo o Eurostat. Já no Brasil, o aumento da participação dos domicílios alugados e o déficit habitacional também ajudam a dimensionar o desafio, que afeta especialmente quem está no início da vida profissional. 🤳 Notícias em primeira mão: baixe nosso aplicativo gratuito e leve o jornalismo do SBT News com você, onde estiver! . A jornalista Mariana Franco, de 25 anos, sentiu esse impacto ao deixar o apartamento que dividia com outras duas pessoas em São Paulo e voltar para a casa dos pais, em Araçoiaba da Serra, no interior paulista. A decisão permitiu reduzir os gastos com moradia, mas trouxe uma nova rotina: enfrentar cerca de quatro horas de deslocamento, entre ida e volta, para trabalhar na capital em dia de presencial. “Os aluguéis estão caros. Quando eles são baixos, são lugares pequenos, quase inabitáveis, com partes faltando no imóvel, como contrapiso no chão. E, nesses casos, os imóveis ainda são longe do centro [da cidade]”, relata. O caso reflete uma dificuldade mais ampla. Em 2024, o Brasil tinha um déficit habitacional estimado em 5,77 milhões de domicílios, segundo a Fundação João Pinheiro. No mesmo ano, 23% dos domicílios brasileiros eram alugados, ante 18,4% em 2016, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em números absolutos, a quantidade passou de 12,3 milhões para 17,8 milhões no período. A proporção de domicílios próprios já quitados, por outro lado, caiu de 66,8% em 2016 para 61,6% em 2024. Outros 6% eram próprios, mas ainda estavam sendo pagos. A dificuldade de acesso à moradia não afeta apenas os jovens. Em Madri, na Espanha, a , de 87 anos, após ser retirada de casa em 23 de setembro, mobilizou manifestações em defesa do direito à moradia em meio à crise habitacional no país. O caso evidencia como o problema também pode atingir idosos, especialmente em situações de vulnerabilidade. O peso do aluguel e a dificuldade de comprar Além do valor da locação, as despesas com contas domésticas pesam no orçamento. Mariana afirma que, para morar sozinha, precisaria rever gastos com academia, alimentação e acompanhamento psicológico, além de arcar com internet, água, luz e gás. Segundo a Fundação João Pinheiro, cerca de 3,59 milhões de domicílios urbanos estavam sujeitos ao ônus excessivo com aluguel em 2024. O indicador considera famílias com renda de até três salários mínimos que destinam mais de 30% do rendimento ao pagamento da locação. Os preços também pressionam quem procura um imóvel. O Índice FipeZAP registrou alta de aproximadamente 9% nos valores anunciados para aluguel residencial nos 12 meses até junho de 2026. O indicador acompanha preços de anúncios e não representa necessariamente os reajustes de todos os contratos vigentes. Para a advogada Helen Salomão, especialista em Direito Notarial, Imobiliário e Registral do escritório Raasa Advogados, a combinação entre renda, custo da moradia e condições de financiamento dificulta a conquista da independência habitacional. “No início da carreira, a renda costuma ser menor, enquanto a compra de um imóvel exige recursos para a entrada e capacidade de assumir um financiamento de longo prazo. Com crédito caro e despesas de moradia elevadas, sair da casa dos pais e conquistar independência financeira fica mais difícil”, afirma. O perfil de quem acessa o crédito imobiliário também mostra que a compra de um imóvel não se concentra apenas entre os mais jovens. Segundo o Relatório de Cidadania Financeira 2025, do Banco Central, 28% dos usuários de financiamento imobiliário tinham entre 18 e 34 anos em dezembro de 2024. A maior parcela, 67%, estava na faixa dos 35 aos 60 anos. Além disso, 71% dos usuários tinham vínculo formal de emprego. Os dados descrevem o perfil de quem utiliza financiamento imobiliário, e não o percentual de jovens que consegue comprar uma casa. Ainda assim, ajudam a contextualizar os obstáculos enfrentados por quem está no início da carreira e precisa reunir recursos para a entrada e assumir parcelas por vários anos. O que Brasil e Europa têm em comum? Na Europa, a crise habitacional também envolve a alta dos preços e a dificuldade de encontrar imóveis compatíveis com a renda. Na Espanha, o problema ganhou visibilidade em meio a episódios de despejo e à disputa por moradias em cidades como Madri. Há semelhanças com o Brasil, segundo Helen, principalmente no comprometimento da renda com a moradia, na dificuldade de jovens para deixar a casa dos pais e na disputa por imóveis bem localizados. No país, porém, também pesam problemas como a precariedade de parte das construções, a falta de infraestrutura e a irregularidade fundiária. Entre as alternativas apontadas pela especialista está a ampliação da locação social, modelo em que o poder público oferece imóveis para aluguel a valores compatíveis com a renda das famílias. Outra possibilidade é recuperar edifícios ociosos em regiões centrais que já contam com transporte e infraestrutura. “A crise habitacional não se resolve apenas aumentando o número de casas. É preciso garantir que elas caibam no orçamento das famílias e estejam onde a vida acontece”, afirma. Para Mariana, a volta à casa dos pais também significou reorganizar prioridades. Juntar dinheiro e viajar estão entre os planos que deseja manter, enquanto a ideia de ter filhos fica para depois. A experiência mostra como o custo da moradia pode interferir em decisões que vão além da escolha entre alugar ou comprar um imóvel. *Sob supervisãoSão PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/brasil/aluguel-caro-dificulta-independencia-financeira-jovens
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