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"A gente não perde a esperança de ter resposta", diz Anielle Franco

Ministra da Igualdade Racial falou ao SBT News sobre os 5 anos da morte da irmã, Marielle Franco

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Marielle Franco de vestido, com a favela da Maré ao fundo
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14 de março de 2018. O relógio já passava das 21h quando o carro que levava a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) passou pela rua Joaquim Palhares, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. No veículo, além dela, estavam sua assessora, Fernanda Chaves, e o motorista, Anderson Gomes. Marielle voltava para casa após participar do evento "Jovens Negras Movendo as Estruturas", que aconteceu na Rua dos Inválidos, na Lapa. Mas ela não chegou.

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A vereadora de 38 anos, cria da Favela da Maré, foi executada com quatro tiros na cabeça. O motorista, Anderson, foi atingido com três projéteis nas costas e também morreu. Fernanda, a assessora, foi a única sobrevivente.

Marielle Franco estava em seu primeiro mandato como vereadora quando foi executada | Reprodução/Instituto Marielle Franco

Meia década após o crime, a impunidade. Na véspera de se completar um ano dos assassinatos, a polícia prendeu dois suspeitos de participarem da execução: Ronnie Lessa, que teria sido o responsável pelos disparos contra o carro onde estava a vereadora, e Élcio de Queiroz, que dirigia o veículo usado na emboscada -- um Chevrolet Cobalt prata clonado. Até hoje, porém, os dois não foram a julgamento.

As investigações também nunca foram capazes de esclarecer as motivações e, principalmente, de responder à pergunta que ecoa pelo país desde 14 de março de 2018: quem mandou matar Marielle Franco?

A vereadora Marielle Franco foi executada em 14 de março de 2018 | Reprodução/Instituto Marielle Franco

O SBT News conversou com Anielle Franco, irmã de Marielle e atual ministra da Igualdade Racial do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sobre os cinco anos da morte da vereadora e a reviravolta causada pelo crime em sua vida. 

"A gente não perde a esperança de ter uma resposta", diz a ministra.

Anielle, que hoje tem a idade que a irmã tinha quando foi assassinada, não tinha uma vida pública. Professora de inglês, ela se viu obrigada a ir para os holofotes para lutar por justiça. "Há cinco anos, a gente vem levantando o nosso grito 'de luto à luta'", afirma.

"Esse marco, para a gente, significa muito tempo de espera, significa não ter resposta, significa saudade, significa dor. A gente lida com esses cinco anos, cada um da sua maneira, cada um da sua forma, tentando ressignificar, tentando passar, entender e acatar tudo aquilo que a vida tem colocado à prova para a gente", conclui Anielle.

Anielle e Marielle Franco | Reprodução/Instituto Marielle Franco

Convocada para ser ministra da Igualdade Racial pelo presidente Lula, Anielle assumiu a responsabilidade. O mandatário, inclusive, encaminhou para o Congresso uma proposta de criação do "Dia Nacional Marielle Franco de Enfrentamento à Violência Política de Gênero e Raça", para conscientizar a sociedade a respeito das violências sofridas pelas mulheres no ambiente político, em especial, mulheres negras.

"Esse 14 vai ser um 14 diferente. Porque agora, estar a frente dessa pasta de ministra da Igualdade Racial, a gente sabe a responsabilidade, a gente sabe o peso que é. A gente sabe o que a Mari [Marielle Franco] significa e significava para tantas pessoas que também nos apoiam nessa luta. Então, tem sido dias aí de ressignificação, eu diria", afirma a ministra.

Cerimônia de posse de Anielle Franco como ministra da Igualdade Racial | Valter Campanato/Agência Brasil

Por fim, Anielle lembrou da saudade, mas também da resistência. "Sigo na esperança de não ter que esperar mais cinco anos por isso. São cinco anos que a gente chora de saudades, mas também mais um 14 de março que a gente cerra o punho, que a gente levanta e resiste", diz.

Dona Marinete: uma mãe lutando por justiça

"Enquanto mãe, eu preciso ter esperança porque a gente vê aí quase meia década de luta e sofrimento, lutando por justiça", diz Marinete da Silva, mãe de Marielle Franco.

Para a advogada, de 71 anos, a morte de Marielle inverteu a ordem natural das coisas. "Claro que ninguém quer falar aqui, falando como eu estou, depois de perder uma filha. E mãe não tem que perder filha. Não é a ordem natural das coisas. Mas, eu fico muito orgulhosa de ter parido a minha filha", afirma.

Citando a relação da vereadora com a irmã, a ministra Anielle Franco, Marinete lembrou que foi a atual chefe do Ministério da Igualdade Racial que reconheceu o corpo de Marielle no IML, logo após o crime.

"O legado da Marielle, o pilar que a gente traz para ela, o legado, a justiça, a memória e semente também chega na Ani [Anielle Franco]. A Ani com a essência dela... Queria hoje estar falando da Marielle viva. Infelizmente, não. É toda uma história de duas mulheres que se encontram em situação bem complicada. Foi a Ani que reconheceu o corpo da irmã. É uma mulher que era comadre, irmã, uma parceira", disse ela.

Da esquerda para a direita: Anielle Franco (irmã), Luyara Franco (filha), Marinete da Silva (mãe) e Marielle Franco | Reprodução/Instituto Marielle Franco

"Minha filha não é mais minha". É com essa frase que Marinete conclui que Marielle Franco virou história e inspiração para o mundo todo.

"É um ícone. É um antes e depois. Uma mulher que é hoje um espelho, uma semente para várias mulheres e até para homens que se identificam com a história dela e respeitam, passam a respeitar e ter outro olhar para a mulher depois da história da Marielle. É importante que a gente diga isso: a gente vai lutar por justiça, pela semente, pelo legado e pela memória em todo mundo", finaliza.

Marinete da Silva, 71 anos, luta por justiça há cinco anos | Reprodução/Instituto Marielle Franco

Sementes de Marielle

Não foi só a vida da irmã, Anielle Franco, que foi completamente modificada pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, em 14 de março de 2018. Mônica Benício, viúva da parlamentar, e Renata Souza, amiga de adolescência, também foram para a luta.

Mônica se tornou vereadora do Rio de Janeiro em 2020. Eleita com 22.919 votos, a arquiteta luta para manter o legado da companheira na Câmara de Vereadores. 

"A política institucional nunca foi uma pretensão minha. Fazia política na vida, de outras formas, na minha militância. Ter entrado na política institucional foi um apelo de muitas pessoas da sociedade como um todo, de movimentos sociais, justamente no lugar de busca dessa continuidade de legado. Eu acredito que esse legado da Marielle é feito por todas as mulheres feministas, mulheres negras, mulheres socialistas, LGBTs, pessoas em luta por uma sociedade mais justa e mais igualitária", diz ela.

Mônica Benício foi eleita vereadora do Rio de Janeiro em 2020 | Reprodução/Redes sociais

A preservação da memória de Marielle, segundo Mônica, é uma das principais ações do seu fazer político. Projetos criados pela vereadora assassinada, por exemplo, foram desarquivados pela companheira para serem colocados em votação.

"Isso também vai de encontro ao fato da visão de mundo que eu tenho. Eu e Marielle éramos companheiras de muitas formas - inclusive, na maneira de ver o mundo. Então, duas mulheres que vieram da favela, duas mulheres socialistas, duas mulheres que amam outras mulheres, é desse lugar da continuidade de política, vem também de um lugar de comungar uma visão de mundo muito próxima", afirma.

Marielle Franco e sua companheira, Mônica Benício | Reprodução/Redes sociais

Para a viúva, a falta de respostas sobre o crime gera a certeza da impunidade no país.

"A não elucidação de um crime político passa a mensagem política de que hoje a gente tem no Brasil um grupo político capaz de assassinar como forma de fazer política na certeza da impunidade. E para que a gente não tenha essa mensagem sendo amplamente divulgada na nossa sociedade, a gente precisa responder. É um dever que o estado brasileiro deve à democracia", conclui.

A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ), que se tornou a mulher mais votada da história da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) em 2022, com 174.132 votos, era chefe de gabinete de Marielle Franco na Câmara de Vereadores. Mas a amizade das duas foi construída anos antes, quando frequentaram juntas um pré-vestibular comunitário na Favela da Maré.

"Eu conheço a Marielle há mais de 20 anos, fizemos pré-vestibular juntas na Maré. E eu sei que o legado de Marielle não ficou para uma pessoa, ficou para a humanidade", diz Renata.

Renata Souza e Marielle Franco se conheceram na adolescência | Reprodução/Redes sociais

Com a execução da vereadora, Renata Souza se viu diante de dois caminhos: deixar a militância ou se candidatar e dar seguimento à luta de sua amiga.

"Nesse sentido, hoje ser uma mulher na política também me coloca outros desafios. Eu estou deputada estadual no estado do Rio de Janeiro. Hoje eu presido a Comissão de Direitos da Mulher da Assembleia Legislativa. E chegar na luta política, neste lugar, eu não tenho dúvida que foi pela parceria e pela construção que nós fizemos como a Marielle", afirma.

Para a deputada, seguir em frente é uma reação ao assassinato da amiga. "Então, seguir em frente, adiante, com as lutas que Marielle tanto se empenhou para defender, é -- sem dúvida nenhuma -- uma ação e reação diante do seu feminicídio político".

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