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O plano do fundador do Orkut para a volta da rede social

À EXAME, fundador revela que recuperou a marca do Google e explica o que aprendeu com a Hello e por que continua tentando conectar pessoas

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Orkut Büyükkökten, fundador da rede social Orkut | Orkut/Divulgação

Orkut Büyükkökten, fundador da rede social Orkut | Orkut/Divulgação

Em novembro de 2001, um doutorando turco em Stanford, na Califórnia, procurava uma maneira de ajudar estudantes a encontrar pessoas com interesses semelhantes. Orkut Büyükkökten teve a ideia que daria origem ao Club Nexus, uma rede restrita à universidade, criada com o estudante Tyler Ziemann. Antes de emprestar seu nome a uma das maiores redes sociais dos anos 2000, Orkut tentava resolver um problema de convivência no campus.

Pouco tempo depois, Büyükkökten foi contratado pelo Google como engenheiro de software para trabalhar em interfaces. A empresa permitia que funcionários dedicassem 20% do tempo a projetos próprios, e ele aproveitou esse espaço para ampliar a ideia testada em Stanford e criar uma rede que conectasse pessoas para além da universidade. Em janeiro de 2004, o projeto finalmente foi lançado com o nome de seu criador: Orkut. 🤳 Notícias em primeira mão: baixe nosso aplicativo gratuito e leve o jornalismo do SBT News com você, onde estiver! Clique aqui.

O trabalho inicial coube quase todo a ele. Orkut fez o design, escreveu o código e montou os servidores — à época, a estrutura suportava 300 mil usuários, mas precisou ser reconstruída quando a plataforma chegou a um milhão de perfis.

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Ao longo de sua existência, 300 milhões de usuários passaram pela rede, dos quais 40 milhões eram brasileiros, segundo números apresentados pelo fundador em entrevista de 2016. O total é acumulado, diferente de uma medida de audiência mensal no auge da plataforma. + Como Musk usou tecnologia da SpaceX em carro voador da Tesla

Doze anos depois do encerramento, Büyükkökten tenta transformar essa história em uma nova plataforma — mais uma vez. O retorno começou a se tornar possível em setembro de 2025. “Depois de alguns anos de conversas, conseguimos recuperar a marca e a propriedade intelectual para poder relançar o Orkut”, diz, em entrevista à EXAME.

O trabalho também passou pelo teclado do fundador. “Nos últimos anos, escrevi centenas de milhares de linhas de código trabalhando na nova plataforma”, afirma. A proposta é reunir a experiência acumulada nas tentativas anteriores com um nome que, em sua avaliação, ainda carrega algo difícil de construir do zero: reconhecimento e uma ligação afetiva com os usuários.

Agora, ele vê uma oportunidade na combinação dessa memória com a insatisfação diante das redes atuais. “Não poderia haver um momento melhor do que agora para lançar uma nova rede social”, afirma.

Como uma rede universitária encontrou o Brasil?

A experiência anterior de Büyükkökten incluía também a inCircle, voltada a comunidades de ex-alunos. No Orkut, perfis, recados, depoimentos e comunidades davam aos participantes diferentes formas de se apresentar e conversar.

O interesse compartilhado podia reunir tanto amigos quanto desconhecidos, sem depender de uma relação prévia entre eles. As comunidades ofereciam um ponto de partida para a conversa; os perfis permitiam descobrir quem estava por trás dela.

Ao explicar a adesão brasileira em 2016, o fundador associou o desenho simples da rede à disposição dos usuários para se comunicarem. A possibilidade de conhecer amigos de amigos ajudava a espalhar o serviço.

No Brasil, segundo sua avaliação, o foco na interação encontrou afinidade com uma cultura de expressão e amizade. O que havia começado como uma experiência de um engenheiro no Google ganhava uma identidade construída também por quem usava a plataforma.

Büyükkökten continua recorrendo às relações construídas naquele período para explicar por que insiste. “Durante a era do Orkut original, foi quando as pessoas conheceram seus melhores amigos, conseguiram o emprego dos sonhos, se apaixonaram, se casaram e criaram filhos”, afirma.

Para o empreendedor, o produto tinha valor porque essas relações continuavam fora da tela. “Acho que, mais do que qualquer coisa no mundo, queremos amar, queremos ser amados, queremos encontrar nossa turma, queremos pertencer”, diz. + EUA cogitam usar "mãe de todas as bombas" contra o Irã + Mediadores retomam conversas de cessar-fogo no Oriente Médio

Por que o Google desligou o Orkut?

A ligação com o público brasileiro não impediu a perda de espaço. Em dezembro de 2011, o Orkut recebeu 34,4 milhões de visitantes únicos no país, enquanto o Facebook alcançou 36,1 milhões e assumiu a liderança na medição da Comscore. A audiência do concorrente havia crescido 192% em um ano.

A pesquisa considerava pessoas que acessavam os serviços por computadores de casa e do trabalho. Eram visitantes, não contas cadastradas — uma distinção importante para entender o momento em que a liderança mudou.

O encerramento veio em 30 de setembro de 2014. Ao anunciar a decisão, o Google afirmou que o crescimento das comunidades do YouTube, Blogger e Google+ havia superado o do Orkut e que concentraria energia e recursos nas outras plataformas. O arquivo anunciado pela empresa reunia 51 milhões de comunidades, 120 milhões de tópicos e mais de 1 bilhão de interações.

Na entrevista atual, Büyükkökten diz que o fechamento estava fora de suas mãos. O projeto levava seu nome, mas pertencia ao Google, que podia decidir sua continuidade conforme as prioridades do negócio. “Foi uma decisão estratégica da empresa”, afirma.

Para ele, essa experiência mostrou a importância de ter autonomia sobre o destino do produto. “Foi por isso que criamos uma nova empresa para poder trazer o Orkut de volta”, diz.

Havia também uma mudança tecnológica. Segundo ele, o Orkut fora construído para uma época de navegação pelo computador. A comunicação e o consumo de mídia haviam migrado para smartphones, e uma geração já crescia cercada por vários serviços sociais.

A primeira tentativa de recomeçar

Büyükkökten continuou criando redes depois do encerramento. Em julho de 2016, a Hello chegou ao Brasil com aplicativos para Android e iPhone e uma proposta de aproximar pessoas por afinidades.

O participante escolhia cinco personas, categorias de interesse que ajudavam a organizar o conteúdo. Um questionário de 60 perguntas contribuía para definir seu perfil. Naquele momento, o serviço tinha mais de 100 mil pessoas cadastradas com interesse em participar.

A experiência também incluía moedas virtuais, obtidas por atividades dentro da rede ou compradas no aplicativo. Era uma tentativa de construir outra dinâmica de participação para uma internet que já se tornara móvel.

Hoje, o fundador considera que a Hello teve uma dificuldade que o Orkut não enfrentava: fazer o nome ser reconhecido entre tantos produtos, empresas e plataformas. Ele afirma que o serviço apresentava engajamento superior ao de Snapchat, Instagram e Twitter, mas não forneceu métricas comparáveis na entrevista.

Para Büyükkökten, a lição estava na distância entre uma experiência que ele considerava boa e uma marca capaz de mobilizar o público. “A marca em si não funcionou”, afirma.

Durante essa trajetória, o pedido que recebia era outro. “Ao longo da jornada da Hello, as pessoas continuavam dizendo: ‘Traga o Orkut de volta, traga o Orkut de volta, traga o Orkut de volta’”, afirma. Segundo ele, a insistência levou a equipe a procurar o Google para discutir os direitos.

O que o Orkut fez enquanto a volta não acontecia

Para Büyükkökten, o projeto dá continuidade ao trabalho que começou em Stanford. “Dediquei quase toda a minha vida e carreira a construir espaços para as pessoas se conectarem umas com as outras online”, afirma.

Em 2022, o endereço orkut.com voltou ao ar com uma mensagem sobre a construção de algo novo. Em 2024, durante uma visita ao Brasil, ele já falava da intenção de reunir profissionais do Vale do Silício e executivos brasileiros para outra iniciativa.

Isso não significa que o serviço antigo será simplesmente reaberto. A proposta é construir outra plataforma com tecnologias e usos atuais, mantendo comunidades e relações entre pessoas no centro da experiência.

Por que agora pode funcionar?

A tese de Büyükkökten é que as redes se afastaram da função que o levou a criá-las. Na sua avaliação, a prioridade dada ao tempo de permanência, aos seguidores e à publicidade transformou espaços de convivência em ambientes de consumo de conteúdo.

Para ele, a nova plataforma precisa mudar a sequência que orienta essa experiência. “As mídias sociais hoje têm um ciclo que vai do conteúdo ao engajamento e à publicidade. Temos um ciclo completamente novo com a nova plataforma, que vai da descoberta à conexão e ao pertencimento”, afirma.

O plano inclui aproximar usuários online, facilitar encontros presenciais e manter o contato depois. O fundador também pretende incluir empresas e marcas nessas comunidades.

Para Büyükkökten, os negócios perderam espaço para conversar diretamente com seus clientes. “As empresas deveriam poder participar diretamente das comunidades”, diz.

A defesa do retorno ganhou outra urgência com a inteligência artificial. Orkut teme que bots, imagens sintéticas e sistemas que simulam seres humanos dificultem saber com quem se está conversando.

Para ele, essa incerteza atinge o fundamento das relações na internet. “O milagre da internet se apoia em uma premissa: havia alguém do outro lado”, afirma.

A IA deverá 'ajudar a marcar o café'

A crítica ao conteúdo sintético convive com a intenção de usar IA no novo produto. Büyükkökten considera que a tecnologia pode ajudar na identificação de usuários e na moderação, além de reduzir obstáculos que dificultam manter amizades.

Os exemplos que oferece são cotidianos: perceber que duas pessoas não se encontram há meses, sugerir um café e ajudar a combinar horários. Tradução também faz parte das possibilidades descritas.

Para ele, a tecnologia pode cuidar das etapas práticas que acabam adiando um encontro. “Uma IA nunca esqueceria que é aniversário do seu amigo”, diz.

“A IA pode cuidar da logística e do agendamento de encontros e reuniões”, afirma. “Se usarmos a IA para os propósitos certos, ela pode amplificar a conexão e a comunidade.”

A proposta ainda precisa sair da descrição para uma experiência pública. Não foram apresentados testes de eficácia da verificação de identidade ou uma demonstração dos recursos citados na entrevista.

Para Büyükkökten, o princípio é manter as relações humanas como finalidade do produto. “A tecnologia deve amplificar a humanidade. Não deve substituí-la”, afirma.

Quase 500 mil assinaturas, mas nenhuma data de lançamento

Em 8 de outubro, Büyükkökten abriu uma campanha de apoio para mostrar que há demanda. Segundo ele, quase 500 mil pessoas assinaram em quatro dias, com participantes de 162 países. O Brasil respondia por 63% das assinaturas no momento da entrevista.

Para o fundador, a resposta sinaliza interesse na proposta. “As pessoas estão realmente animadas com a possibilidade de ter uma internet humana e uma rede social humana”, afirma.

A mobilização dá ao empreendedor um argumento para buscar recursos. Ainda não equivale a uma base de usuários, nem demonstra quantos apoiadores adotarão a rede regularmente.

Para Orkut, financiamento e apoio determinam a velocidade do projeto. “Quanto mais recursos tivermos, mais rápido poderemos lançá-la”, afirma.

Ele não informou o capital necessário, os investidores envolvidos ou uma data oficial de estreia. O cadastro na campanha gera um cartão de apoiador, mas não reserva conta, nome de usuário ou lugar em uma fila.

O desafio seguinte será transformar uma lembrança compartilhada em uma razão para voltar todos os dias.

Ao falar do que deseja recuperar, Büyükkökten retorna ao sentimento de pertencimento. Para ele, a vontade de reencontrar aquelas relações passa pela saudade — a palavra em português que, como lembra ao fim da entrevista, não encontra tradução em muitas línguas. Agora é entender se saudade pode virar negócio.

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