Férias, telas e exposição infantil: como proteger as crianças nesta época do ano
Especialista em Direito Digital e Proteção de Dados alerta e dá dicas de um uso seguro


Gabriela Belchior
As férias escolares são um período de muita diversão para as crianças e de alguns desafios para os pais. A maioria acessa a internet diariamente e com pouca supervisão, o aparelho vai para a viagem, para a mesa do restaurante, para a casa da avó e até para o quarto na hora de dormir. Nas férias, com menos horários e mais liberdade, aquilo que seria um vídeo virou maratona, e um joguinho inocente toma boa parte do dia e muitas vezes sem que os adultos percebam.
A advogada especialista em Direito Digital e Proteção de Dados, Antonielle Freitas alerta sobre os cuidados que esse uso frequente exige:
“O que muitos pais e responsáveis não percebem é que, nesse fluxo constante de interações digitais, as crianças não só geram uma quantidade imensa de dados pessoais, mas também têm esses dados coletados de forma massiva por plataformas e aplicativos. E boa parte dessa exposição é alimentada pelos próprios adultos.”
A especialista também explica um termo em inglês que é a junção de compartilhar (share) e parentalidade (parenting). Quando quem expõe na internet é a família, esse hábito recebe um nome: “sharenting”. Antes mesmo de falar, muitos bebês já têm uma vida inteira registrada online: ultrassom, nascimento, primeiros passos, praia, piscina. Nas férias, esse ritmo cresce ainda mais.
De acordo com Antonielle, os pais contam a vida dos filhos na internet, muitas vezes sem refletir sobre o impacto disso no futuro deles.
Essa prática cria riscos reais:
• Estranhos podem descobrir onde a família está hospedada;
• Saber por quanto tempo ficará fora de casa;
• Identificar escola, rotina e locais frequentados;
• Mapear relações familiares e sociais.
A advogada explica que além disso, há o fator emocional: fotos constrangedoras, cenas íntimas ou momentos delicados que podem gerar desconforto no futuro.
“A legislação prevê cuidado especial com dados de crianças e determina que qualquer tratamento desses dados deve estar vinculado ao melhor interesse da criança e não ao entretenimento dos adultos ou ao engajamento em rede social”, esclarece.
Alertas com telas
Férias também significam instalar novos joguinhos e aplicativos. E, no impulso de “resolver logo”, muitos pais aceitam termos de uso sem ler. Só que, no mundo digital, quase nada é de graça: quando o serviço não cobra dinheiro, costuma cobrar dados.
Aplicativos populares entre crianças frequentemente coletam localização, monitoram hábitos de uso, acessam câmera, microfone e contatos, registram interações e preferências.
Antonielle explica que essas informações permitem montar perfis detalhados de comportamento e interesse desde muito cedo. “Isso alimenta sistemas de recomendação de conteúdo e publicidade direcionada, ainda que, em tese, muitas legislações limitem esse tipo de prática com crianças.”
Dicas para um uso seguro
Para a especialista em direito digital, a solução não é proibir tudo. O que os pais podem fazer, na prática é adotar medidas simples e realistas, como:
1. Combinar regras de uso
• Definir horários máximos por dia, adaptados à idade;
• Estabelecer espaços sem tela: refeições, momentos em família, hora de dormir;
• Alternar entre atividades online e offline.
2. Reduzir a exposição nas redes
• Evitar localização em tempo real;
• Não mostrar informações sensíveis;
• Revisar configurações de privacidade
3. Configurar os dispositivos
• Ativar controles parentais;
• Bloquear compras e downloads livres;
• Revisar permissões concedidas aos apps .
4. Conversar sobre riscos
• Explicar que existem pessoas más online.
“A tecnologia faz parte da vida das crianças e isso é ótimo quando usado com equilíbrio. O objetivo não é criar pânico, mas consciência”, conclui Antonielle.









